— Bebê... — Sussurrei pra ela, quando levantei. Sentei na beirada da sua cama e fiquei acariciando seus cabelos enquanto ela dormia profundamente. — A mamãe volta, tá? Com a sua cura e, se Deus ajudar, pra te apresentar aquela pessoa de quem você sempre me perguntava... pra você nunca mais ter que desenhar um buraco em branco. — Beijei a testa dela e me levantei, saindo do quarto dela. Foi pro meu, tomar um banho e me vestir, toda de preto, como se eu tivesse de luto... e eu tava mesmo. Tava frio, então, coloquei um casaco por cima. Beijei o meu crucifixo, fiz uma reza antes de sair e o coloquei sobre o meu peito.
Saí bem cedo, antes até da minha mãe e o Luan acordar. Não queria me despedir de ninguém, eu odiava ter que dizer tchau.
Desci o morro a pé, enquanto mentalizava os motivos pra eu fazer o que eu ai fazer. Peguei um Uber para a Ápia e fui...
A viagem foi infernal pra mim. Eu tava nervosa, com a respiração fora de compasso e a mente em uma espiral de ansiedade que tava me deixando maluca. Eu só esperava o ruim, só o pior, finalmente, eu senti medo. Não que aquele sentimento já tivesse me parado alguma vez na vida, as pessoas achavam que eu ela maluca, ou que não valorizava minhas vida, mas era justamente o contrário... Acho que o meu maior medo não era nem morrer, mas sim como isso ia acontecer. Morrer pelas mãos do Barbás ia ser o meu pior pesadelo com certeza. Na minha cabeça ele ia ser sempre o homem da minha vida. Em 5 anos, eu não encontrei ninguém que chegasse perto do que eu senti por ele e isso me deixava puta.
Olhei pra mão esquerda, observando o anel cravejado em diamantes que estava no dedo anelar. Dentro dele, estava escrito 'William'. William.
Eu não tinha tirado a aliança, mesmo que soubesse que eu deveria. No primeiro ano, foi porque eu ainda sofria e queria o Barbás do meu lado. Depois, quando eu me envolvi com outras pessoas e resolvi seguir minha vida, por saber que ele tava do outro lado do continente me odiando tremendamente, eu tentei viver sem o meu anel. Tirei ele e, dois dias depois, eu tive que colocar de novo. Meu dedo ficava marcado, uma listra branca no lugar onde ficava minha aliança, como um buraco em branco em mim. Coloquei de novo e descobri que simplesmente não conseguia mais viver sem ela, sem aquele laço... ele podia até não existir mais, mas a prova de que um dia ele já tinha estado ali eu ia levar comigo pra sempre.
Sempre que eu ficava ansiosa, eu costumava rodar o anel no meu dedo e aquilo me trazia alguma paz... Passei todo o trajeto fazendo isso e me perguntando se eu não deveria tirá-lo eventualmente. Ia ser vergonhoso olhar pro Barbás e ainda usar a aliança dele. Até ameacei puxá-la pra fora, mas ela ficou presa no nó do dedo e eu, sem força alguma pra me livrar de um objeto que significava tanto pra mim naquele momento, deixei ela ficar.
O motorista de aplicativo me deixou na entrada da favela e eu saí do carro, sentindo vontade de vomitar, com o coração na boca. Fiquei parada, sentindo o vento balançar os meus cabelos, enquanto um monte de trabalhadores passava por mim, descendo pra pegar ônibus na pista. Entre eles, os radinhos já falavam em seus aparelhos e sentia as pessoas me olharem, apesar de não ser nenhuma atenção especial. Acho que só procedimento padrão...
Fui subindo aos poucos, com passos lentos, meio sem rumo, agradecendo mentalmente por ainda não ter contado pros meus irmãos de coração que eu tinha voltado pro Rio. Eles iam enlouquecer e querer me meter... eles moravam ali, estavam debaixo do teto do Barbás, enfrentar ele por minha causa só ia prejudicar eles. Ainda mais o Russo, que era diretamente envolvido. Ele não ia poder nem contestar, apesar de eu ter certeza que ele faria mesmo assim. Era melhor que eles não soubessem mesmo, eu não queria que ficassem numa posição ruim por minha causa.
A princípio ninguém me parou e eu fui fazer o mesmo caminho que já tinha feito tantas vezes na minha vida outra vez. Andei por muito tempo, sem ninguém me reparar. Eu não entendi porque não tinham me parado ainda, mas fui prosseguindo devagar, no meu ritmo. Perto da Cachopa, eu passei pela igreja que eu congregava com a minha mãe quando jovem. A Nossa Senhora da Boa Viagem... Fiz o sinal da cruz quando passei, notando as portas abertas. Entrei sem conseguir me conter.
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Coração em Guerra
Romansaㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
