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— Irmão, eu sabia que eu comprava com a família Lima da Ponte pelo Homero aqui pra favela, mas caralho... como que minha mente ia ligar uma coisa com a outra... Tem gente pra caralho com o sobrenome Lima nesse Brasil, porra. — Ele parecia indignado comigo e mais ainda consigo mesmo. — Você tem essa porra de sobrenome... 

— É porque a família Lima da Ponte é a minha família, no caso. É o sobrenome de batismo que o meu pai me passou, como tu já deve ter entendido, ligando os pontos nessa sua cabecinha. — Disse, me sentindo pisando em ovos. Aquele assunto era uma merda, eu não queria nunca mais falar, sequer pensar no meu pai perto do Barbás. Era um negócio ruim demais que se agarrava no meu peito, porque eu sabia que o Carlos ainda deixava o William possuído de raiva. Ele nunca ia superar o que ele tinha feito e eu muito menos. 

Ele ficou quieto e eu o senti endurecer embaixo das minhas mãos, seus músculos ficando tensos. Barbás se afastou alguns centímetros de mim muito discretamente e, ainda que fosse uma distância muito pequena, eu senti o seu afastamento. 

— Tu não tinha me dito que tinha cortado relação com ele depois do que ele fez? Que não queria mais olhar pra ele? — Ele relembrou uma conversa antiga nossa, ainda na época que eu tinha acabado de chegar. 

— E isso é verdade. Por isso, eu meti o pé pro interior e peguei as suas rotas de contrabando e tráfico. Eu tava grávida, odiava ele e não queria ficar na cidade, a conta dele tava no vermelho comigo e como um jeito de compensar a cagada que ele tinha feito, eu fiz ele me botar no ramo. — Dei de ombros. — Depois que eu saí do Rio, eu nunca mais vi ele. Fiquei com a família dele, é claro, com seus irmãos, sobrinhos, tios... que me acolheram como um filha... Mas com ele não. Minha relação com o Carlos terminou quando você foi preso. E dessa pedra que eu coloquei na nossa relação, foi uma porta que eu acabei abrindo por acaso pra uma parte da minha família que eu nunca tinha conhecido, que era os Lima. 

Senti ele ressabiado, ainda que ficasse apenas em silêncio, escutando as coisas que eu tava dizendo. A reação dele de simplesmente não dizer nada me assustava mais do que quando ele explodia e tinha um rompante de raiva... ao menos assim ele tava sendo sincero. Diferente dali, onde ele guardava todos os seus sentimentos pra si mesmo, pra longe de mim. 

— Quando eu cheguei eles eram uma família bem do interiorzão mesmo sabe, bem jeca tatu do mato. — Eu ri, lembrando com carinho dos meus parentes. — Claro, tinha uns negócios obscuros, principalmente com contrabando e uma participação meio modesta assim no tráfico da fronteira. Um tio-avô bem velhinho comandava tudo há anos e tinha uma cabeça muito fechada pras modernidades. Eu quis aprender o que eles faziam lá, durante a gravidez eu estudei muito, aprendi muito sobre o tráfico de atacado até onde eu podia. E, claro, eu levava jeito. Lidar com pessoas, vender coisas, é o meu talento. Como tudo nessa vida a gente ganha no gogó, ganha na confiança que as pessoas depositam na gente, eu me dei muito bem. Foi só natural o meu falecido tio me passar a liderança dos negócios da família... Aí escolhi investir mais no ramo do tráfico de drogas, ao invés do contrabando e a nossa receita, nosso dinheiro em caixa, explodiu. Eu conseguia boa droga a um bom preço e bons prazos de pagamento porque as pessoas gostavam de mim, eu fiz muitos amigos. Bom, e aí eu vendia essa droga a preços muito competitivos pra varejo aqui do Rio. E eu era muito criativa pra ocultar minha droga, então poucas vezes, quando meus motoristas não faziam merda, minhas cargas eram pegas na estrada. Isso me tornou boa e confiável pra maioria dos varejistas da droga daqui, foi assim que eu acabei me tornando uma das maiores fornecedoras de atacado do Estado e você acabou como meu cliente. 

— Caralho, eu... — Ele começou, mas ficou calado de novo. William passou a mão no rosto com força, com raiva até, e pegou mais um cigarro na carteira. Quieto ele acendeu e tragou, jogando seu rosto pra trás e a fumaça pra cima. 

— Eu sei que tu odeia o Carlos. Ele merece o seu ódio, sua raiva... você pode nunca dar o seu perdão pra ele, porque ele com certeza não foi digno disso em vida. — Falei, sentindo meu peito arder de nervosismo. Eu não sabia como o Will ia reagir e, na verdade, eu até esperava que ele me jogasse de canto e saísse, me desse as costas. — Mas eu queria que você enxergasse os Lima não como a família do Carlos, mas a minha família. Eles me acolheram, me salvaram quando eu mais precisei. Eles cuidaram de mim e da Ísis, fortaleceram a gente, foram a base pra que a gente conseguisse sobreviver. Eu devo muito praquela gente, eles são a minha gente, sabe? A família que me deu o amor e a compreensão que nem a minha mãe, que me criou, foi capaz de dar. O Carlos... foi o filho ingrato daquela família, se separou deles muito cedo e foi fazer a vida longe. Eles diziam que eu era uma das únicas coisas boas que o Mandarim tinha sido capaz de dar à família. 

Me calei, sentindo o ardor subir pela minha garganta. Bebi água, um monte de água, mas aquilo não me aliviou. O silêncio do Barbás era o que tava me dando aquela gastura, chegava a me enjoar o tão ansiosa eu tava pela sua reação... qualquer reação. Não quis apressar ele, sabia que não era fácil e que ele também precisava do seu tempo, afinal, ele tinha sido uma das principais vítimas do meu pai. De alguma forma, a vida que eu levava, as pessoas da minha família, eram relacionadas com o Carlos, ainda que fosse por um único fio. 

Eu quis esperar, quis ser compreensiva, mas eu achei que fosse morrer se ele seguisse sem dizer nada. 

— Will, você... — Suspirei agoniada, o que saiu quase como um soluço de nervoso de mim. — Eu sei que... que você... Eu... — Gaguejei que nem uma idiota. Eu sentia que a pressão no meu peito ia me esmagar a qualquer momento. — Fala comigo, por favor. Conversa comigo, olha pra mim, sei lá... o seu silêncio tá me matando de nervoso. — Minha voz não saiu mais que um sussurro.

Então, longos e dolorosos segundos depois, ele finalmente me ouviu. Levantou seu rosto e me encarou, intensa e profundamente, como se quisesse ver o que tava dentro da minha alma. Procurei hostilidade nos seus olhos castanhos, tendo certeza que acharia aquele sentimento ali... mas... não havia nenhuma lá. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora