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— Bom... eu sou o médico da Maria Ísis. A Nina quer falar comigo? Por que ela... — Perguntou, parecendo preocupado.

— Ela tá meio incomunicável no momento, mas tá bem, eu garanto. — Expliquei sem entrar em detalhes. — Eu vim ver a garota também, vamos subir e conversar lá em cima. — E eu me auto convidei pra casa alheia. Eu não gostava de muita enrolação não.

— Calma aí... Que doideira é essa? — Ela me olhou sem acreditar. — Tu me segue, chega aqui do nada e quer subir pra ver a Maria Ísis? Ficou maluca, cara?

— Eu tô só fazendo o que a mãe da criança me pediu, sem história, vai... Depois tu conversa isso com a Nina. Agora, doutor, se tu puder fazer as honras... a gente tem que conversar sobre uma possível ia da Maria ao lugar onde a mãe dela tá. — Fiz um sinal com a mão apontando pras escadas. Ele me olhou, depois focou na Dalila, que tinha os braços cruzados no peito. Ela não tinha gostado muito da minha abordagem, mas né?! Fazer o quê?

O doutor subiu primeiro, eu fui em seguida e, atrás de mim, uma Lila emburrada seguia. Sabia que eu tinha atrapalhado alguma coisa, ela devia estar virada no diabo comigo. Por algum motivo, isso me matava de vontade de rir. Bom... O clima meio merda mudou assim que a gente chegou no apartamento realmente. Lá, uma menininha sorridente foi toda contente falar com a Dalila e o Guilherme. Ela parecia muito a mãe dela, muuuuito. Os olhos era os mesmos da Nina, o cabelo, que tavam presos em trancinhas embutidas dos dois lados da cabeça, também. E era tão fofinha... Cacete, que criança bonitinha. Ela me lembrava o meu filho, por algum motivo, então, logo de cara eu me derreti inteira. Maria Ísis era toda desenvolta e falava tanto quanto podia e gesticulava bastante também. A risada dela era a coisa mais gostosa do mundo. Fiquei olhando meio boba de longe.

— Tia Cláudia, essa é Larissa. Amiga da Nina... — Ela me olhou de canto. — ... e mãe do meio-irmão da Maria. — Me apresentou de surpresa pra avó da menina.

— Oi, dona Cláudia. — Disse, apertando a mão dela.

— Eu lembro dela lá da Rocinha. — Falou a mais velha. — Oi, Larissa. — E me cumprimentou com simpatia.

Me abaixei perto da Maria Ísis, que me olhou com interesse, passando a mão pelas tatuagens do meu braço. Ela ficou olhando os desenhos como se fosse a coisa mais legal do mundo. Meu Deus, eu ia explodir de tanta fofura. Crianças eram tão meu fraco...

— Oi, tia. — Ela falou comigo, ficando de pé pra ver até onde iam minhas tatuagens.

— Oi, Maria. Tudo bem? — Falei, me sentindo uma geleia. — Sua mãe falava tanto de você, que eu tava doida pra te conhecer.

— Minha mãe? — Ela sorriu.

— Sua mãe, meu bem. — Confirmei, sorrindo de volta pra ela. Ela levantou e chamou todos nós pra mostrar o desenho que ela tava vendo. Enquanto a Dalila ficou ali, conversando com ela, pouco a pouco me afastei pra perto da avó.

— A Marina tá bem? — Perguntou a Cláudia.

— Ela tá ótima. A Nina é esperta, ela dá os pulos dela e sabe dobrar o Barbás. — Garanti pra mãe dela, que pareceu muito aliviada. — A questão é que... a Maria tem que conhecer o pai, né?! E eu queria que ela conhece meu filho também. Eu e a Marina estávamos planejando algo do tipo, eu vim aqui ver qual o possibilidade disso rolar. 

— Levar pra Rocinha? Olha... — Ela não parecia muito feliz com a conversa.

— Relaxa, lá é seguro. Se a sua preocupação é o Barbás, ele é um ótimo pai. Eu posso comprovar isso. — Dei de ombros. — A favela já tá em paz há mais de um ano, não tem risco.

— Mesmo assim... Eu não sei, eu fico meio com medo. Ela é pequena, tem a saúde frágil.

— Eu sei, por isso mesmo eu queria ver o que o doutor acha. — Assoviei e chamei o médico com a mão. Ele se aproximou com aquele sorriso de comercial dele. — Seguinte, doutor, a gente queria levar a Maria Ísis pra passar uns dias lá na Rocinha, na casa do pai. O que tu acha? — Perguntei de uma vez e fui complementando coisas antes dele começar a falar. — Já te adianto que a casa é grande, é limpa e as senhora que trabalha lá vai se comprometer a limpar a porra toda uma vez a cada dois dias.

— Ah... — Ele concordou com a cabeça. — É sobre o pai dela? A Marina se resolveu com ele?

— Resolver é uma palavra forte, mas é, dá pra botar assim. — Expliquei, estranhando a maneira como ele desviou o foco total da minha pergunta. — Sobre a Maria...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora