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— Quê? Uma semana? Não me contou por quê, porra? — Perguntou, meio puto enquanto vinha me abraçar. Fiquei um tempão encolhida no abraço dele. Meu Deus, eu amava esse homem de paixão, ele era o melhor irmão que a vida podia me dar.

— Vamo conversar em outro lugar, por favor.

— Vamo lá pra minha casa, vem... vou ligar pra Dalila. — Ele agradeceu a senhora que nos ajudou e eu subi na moto dele. Percorremos um pedaço de chão bom, até mais ou menos ali na Dioneia, onde entramos numa rua ali bem mais pra dentro, quase na encosta. Paramos em frente á duas casas germinadas, grandes, e que se destacavam entre as demais por parecerem muito, muito novas e bonitas. Reparei que eram duas casas diferentes, que compartilhavam o mesmo quintal e área comum, bem como a antiga. Ele abriu o portão e a gente entrou pra casa da esquerda, me deparando com uma sala grandinha e toda mobiliada com uns móveis bonitos... é... ele tinha mesmo tirado um dinheiro nos últimos anos. Sentei no sofá, respirando fundo e aceitando o copo de água que ele me ofereceu, enquanto ligava pra Dalila e mandava ela vir passar em casa porque tinha algo foda pra mostrar pra ela. Bebi o líquido, acalmando meu corpo no processo.

— O que tu tá fazendo aqui? Alguém te viu? Tava escondida? — Perguntou, sentando do meu lado. — Tu não tá cansada de saber que não pode pisar aqui, Nina. Cacete, tá piroca da cabeça.

— Eu tive que vir, tá? E o Barbás já sabe que eu tô aqui. — Confessei. Ele me encarou de olhos arregalados e eu suspirei pesado. — Só não sabem que eu saí do lugar onde eu tava. Meio que eu não podia, sabe?

— Tu fugiu? — Certeza que ele ia estar de cabelo em pé, caso tivesse algum. — Explica isso ai...

Comecei a contar pra ele todos os detalhes que tinham me levado ali. Ele já sabia sobre a doença da Maria, mas até então, ela estava em remissão há mais de um ano. Contei sobre eu ter escolhido ficar com as favelas do meu pai e me estabelecer ali no Rio de Janeiro de novo, mais por questão de segurança, tanto física quanto financeiramente. Dali para eu ter deixado minha filha em casa e ter vindo pra Rocinha pelas minhas próprias pernas, foi um cu fazer ele entender. Wallace, coitado, que tava no baile, até desistiu de de voltar, tamanha as coisas que eu tinha pra contar pra ele. Ele me ouviu calado, mas no seu rosto eu via a revolta por eu estar fazendo tudo o que eu tinha feito até então. Por fim, expliquei das minhas maluquices e como tinha conseguido chantagear o Barbás pra poder sair do porão. Nessa hora, chegou o 3° mosqueteiro...

— Nina, porque tu tá aqui? O que tá acontecendo, mulher? — Dalila já começou chorando. Aquela pergunta foi em um dos tons mais infelizes que eu tinha ouvido em toda a minha vida. No final, eu quem abracei ela e a consolei. Eu vi o medo no olhar dos meus irmãos e aquilo ofuscou a felicidade do nosso reencontro. Mesmo assim, nós estávamos todos reunidos de novo, coisa que não acontecia há uns bons anos.

Foi meio mágico estar ao redor dos meus irmãos de novo. Se a minha intenção fosse fugir de verdade, aquela seria a melhor hora. Sabia que eles iam me dar todo o apoio, o Russo ia mexer os pauzinhos dele e eu ia conseguir sair do mesmo jeito que entrei: pela porta da frente. O problema ia ser depois, com eles tendo que segurar uma pica dessas por minha causa... eu não sabia nem o que o Barbás ia fazer com eles. Me debruçei na janela do 2° andar da casa do Wallace, olhando pro lado de fora e imaginando o quanto eu queria estar em casa com a minha filha agora... sem ter que correr de volta pro lugar onde tavam me trancando. Eu tinha a leve impressão de que eu só tava tendo tudo namoral porque o Túlio era um santo no sentido mais estrito da palavra. Mesmo que ele achasse que eu tinha mesmo feito tudo o que diziam, ele ainda me tratava que nem gente e eu amava ele por ser tão bom.

Mesmo assim, eu me sentia agoniada sem minha filha. Era horrível ficar sem saber como ela tava, sem ouvir a voz dela, ver o rostinho dela... Eu morria de saudades dela, aquilo tava me corroendo por dentro. Eu precisava dar um jeito de conversar com a Maria de novo, nem que fosse pra reforçar na minha mente os motivos que me levavam a estar ali. Foi por isso também que eu tinha me arriscado tanto ao fugir do barraco onde eu tava.

Dalila veio me abraçar por trás e a gente ficou um tempão ali juntas, olhando o mundo lá fora. Eu via aquela melancolia deixar sua expressão bonita muito triste. Coitada, ela tava toda maquiada e arrumada pro baile, agora tava aqui perdendo a noite dela comigo.

— Desculpa por estragar a noite de vocês, gente. — Ri, pensando no absurdo que era eu estar ali. Quando a Lila me viu a primeira vez, sentada no sofá da sala, achei que ela fosse desmaiar.

— Que desculpa o quê, Nina? — Russo se rebelou contra mim. — Eu queria era te tirar daqui na encolha e aproveitar o baile pra não deixar ninguém perceber. — Falou, cruzando os braços meio puto.

— A Maria precisa... — Dalila disse, passando as mãos nos meus braços. — ... mesmo, né? Eu tava pensando muito em vocês nos últimos dias, com uma sensação ruim. Eu te entendo, só não sei se o Barbás vai entender.

— Óbvio que ele não entendeu. — Neguei com a cabeça. — Mas ele vai, nem que eu tenha que esfregar a minha filha na cara dele.

— Tu tá de boa lá? Onde tu conseguiu ficar? — Perguntou, dando um sorrisinhoo de orgulho. Eu sabia que a lealdade dele eu tinha. — Foi jogada de mestre, baixinha. Vai te comprar tempo, com certeza.

— Vai, mas eu não sei por quanto tempo o Rogier vai conseguir isso pra mim. — Confessei.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora