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— Contornou, né? — Ele fez um sinal de concordância com a cabeça, mais pra si mesmo que pra mim. Com os lábios apertados uns contra os outros, eu via a mente dele dizendo pra si mesmo um "sabia".

— É. — Dei de ombros. — Tu consegue me culpar por isso? Tu teria dito tudo de início? 

— Jogar toda informação na mesa logo de início nunca é uma boa. — Ele disse, me olhando com intensidade. — Tu tem uma alma de jogadora, Nina. 

— E você também, por isso tu vai conseguir entender o mínimo do que eu tô te falando aqui. Eu ia te falar da minha vida como, se com o pouco que tu sabia, tu já queria minha cabeça? — Perguntei, dando um gole na minha garrafinha pra desviar um pouco daquele olhar de fuzil do Barbás. 

— Entender não significa que eu ache maneiro pra caralho eu continuar sem saber porra nenhuma de você. — Disse, não desviando seus olhos castanhos de mim. 

— Felizmente eu nunca disse que não te contaria. — Murmurei dando um sorrisinho nervoso. Meu coração palpitou violento no peito. Medo... Eu fiquei com medo da reação dele. Como eu ia contar quem era a Índia agora? 

Eu não ia conseguir escapar de falar a verdade pra ele, era o justo, o certo a se fazer. Eu sabia quem era o Barbás hoje, mas ele ainda sabia quem era a Índia? 

— Então se adianta, começa que eu tô com tempo. — Falou com seu tom apressado. 

Se eu queria dizer tudo o que eu tinha pra dizer, não podia ser no ritmo dele. O compasso tinha que ser eu quem ditava, pra que as coisas não tivessem um impacto tão forte sobre nós dois. Não era tão simples assim... 

Lentamente, eu mudei de posição na banheira, me inclinando para ficar sobre as suas pernas de frente. Olhando fixamente nos seus olhos, eu peguei o copo cheio da sua mão e virei de uma vez só, sentindo que precisava de uma recarga rápida de álcool. Ele tomou o negócio de vidro da minha mão na hora, colocando de lado e me olhando meio irritado. Sorri travessa, aproximando minha boca da dele, parando a pouquíssimos centímetros de o beijar. 

— Me distrair não vai funcionar, Marina. — Disse sério. 

— Não quero te distrair, só te relaxar, porque essa sua postura turrona me deixa nervosa pra falar da minha vida. Será que não dá pra ser só... uma conversa mais leve assim? 

Ele olhou pro outro lado e bufou, respirando fundo em seguida. Seu peito subiu e desceu algumas vezes bem diante do meu rosto. 

— Eu vou tentar, só isso que eu posso prometer. — Disse depois de um tempo e eu me dei por satisfeita, porque sabia que era o melhor que ele podia fazer. Escorreguei para sentar ao lado dele e jogar minhas pernas por cima das suas. Will passou um braço pelas minhas coxas e virou o rosto pra mim, esperando o mais pacientemente que ele conseguia. 

 — Ok, ok. Começando do início. — Pisquei algumas vezes, olhando pra baixo e pra ele alternadamente. — Eu sou contrabandista... e traficante.  Você sabe disso... 

— Que tu se envolve com a entrada de droga pela fronteira do país? Isso eu fiquei sabendo do pior jeito. — Ele fez uma expressão de raiva misturada com escárnio no rosto. Deve ter sido meio tenso pra ele essas épocas. Que pena, né?

— Eu precisava que você me ouvisse e sabia que eu só ia conseguir isso fazendo você vir até mim, querer conversar comigo. Só... aproveitei que você tava na minha cartela de clientes e juntei os pontos. — Dei de ombros.

— Sua cartela de clientes... — Ele ressaltou o "sua". — A sua cartela de clientes? 

— A minha cartela, é claro. — Afirmei e eu vi uma expressão confusa no seu rosto. — Eu faço parte do tráfico, eu sou passo atrás de você, que é do tráfico de ponta de linha. 

— Porra, Nina, eu sei o que que é tráfico, caralho. Tá, tu fazia parte dos meus fornecedores, já entendi, agora explica. 

— Não, não, amor, eu era a sua fornecedora. — Falei, apontando um dedinho no seu peito, para deixar passar a mão com suavidade pelo local. — Óbvio que eu nunca lidei diretamente contigo, até porque não eu quase não lidava diretamente com os meus clientes... vocês sempre me irritavam além da conta. Eu preferia até os mosquitos da beira do Rio ou a polícia da fronteira da ponte, que era mais simples de lidar. E eu também não era idiota de achar que tu não ia reconhecer minha voz, então eu só deixava quieto. — Fiz uma careta. — Mas, tecnicamente, quem ia buscar a droga que tu vendia aqui lá dentro nas cozinhas de refinamento e nas plantações era eu, quem passava essa bosta pela fronteira era eu, quem arrumava motorista de confiança e as mais doidas artimanhas pra transportar isso pelo país também era eu. É isso o que eu fazia da vida, vendia droga de um jeito um pouco diferente do que a gente fazia aqui na Rocinha. 

— Segura aí. — Ele levantou uma mão, sentando direito e tirando a mão da minha coxa. — O Homero que era o motorista que intermediava... 

— Era um dos meu motoristas, é. — Dei de ombros. — Só que ele perdeu uns 3 carregamentos meus ao longo da nossa parceria e o valor que ele me devia era o suficiente pra cabeça dele rolar se ele não me pagasse. Ao invés de só dinheiro, eu aceitei uma parte em nota, a outra em um favorzinho. 

Ele bufou e passou a mão nos olhos, apertando eles por um momento. Barbás virou, pegou a garrafa de Chandon e virou na boca direto. Copo com frutinha era o caralho, né? Eu vi no seu rosto passarem sentimentos como dúvida, choque e, principalmente, surpresa. Ele não esperava por isso, eu tinha certeza. 

É, eu devia ser uma mulher bem surpreendente mesmo...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora