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Ele ergueu as sobrancelhas rapidamente e se virou no banco, voltando pro sofá e mexendo nas almofadas. Parecia procurar alguma coisa. Era um isqueiro. Na mesinha de centro tinha um charuto que parecia bem caro. Que tanto esse homem tava fumando, meu pai...

— Quando você começou a fumar tanto? — Perguntei, percebendo os o maus hábitos dele.

— Quando eu saí da cadeia. — Ele respondeu, cortando a ponta daquele troço enorme e roliço. É... Dei uma risadinha pelo pensamento.

— Você vai morrer de câncer de pulmão, tu sabe, né?! — Perguntei, notando ele indo até a ponta do sofá que dava pra janela de fora, a qual ele abriu pra deixar sair a fumaça. Eu sentei na outra ponta do sofá com meu copo de whisky.

— Duvido. — Ele respondeu e eu sabia bem a conotação que teve a entonação dele. Era provável que morresse de morte matada pela polícia, por um alemão, ou por um judas qualquer. E desviou o olhar de novo para a luz da lua do lado de fora.

Levantei e comecei a andar pela sala dele. Parei na frente de uma estátua bonita de São Jorge, com uma vela na frente. Ergui uma mão pra encostar e tatear os contornos bonitos que ela tinha.

— Ei! Não encosta. — Brigou, me acompanhando com o olhar. Afastei meus dedos curiosos e ergui minha coluna. — Se quebrar, eu mato você.

— Essa ameaça não tem mais validade nenhuma pra mim. Você mesmo disse. — Rebati, cruzando os braços. — Não sou criança. Eu só tava curiosa sobre como um homem tão descrente de tudo se tornou devoto de São Jorge.

— É Ogum. — Falou, batendo a ponta do charuto no janela pra cair as cinzas. — Mas eu não vou te contar isso.

Me afastei, meio frustrada, mas com medo de fazer algum mal àquele bendito santo. Do jeito que ele pareceu ciumento, não duvidava nada que ele realmente me matasse até se eu apagasse a vela. Voltei andando pro sofá, agora pra mais perto dele. Me joguei contra o estofado macio daquele móvel gigante, encostando a cabeça no sofá.

— Tá, então me responde uma coisa que eu quero saber. — Pedi. Já que ele tava tão receptivo, resolvi apostar na sorte e tentar reaver um item que eu queria muito de verdade. — O que você fez com a sua aliança? — Perguntei, depois de um tempo de silêncio dele. — Derreteu pra fazer outra coisa? Vendeu? — Ele riu e tragou o charuto, mas não falou nada. — Jogou no mar?

— Quase, po. Joguei do alto da pedra. — Contou, me olhando com humor. Porra, da Pedra da Gávea? Coragem. Ele tinha andado aquilo tudo só já jogar o anel fora?

— Que burrice, ela foi cara. — Reclamei. Ele se esticou na minha direção e pegou minha mão esquerda, que tava no assento do sofá, próxima da perna dele. Com cuidado ele examinou a peça delicada que eu ainda levava no meu dedo anelar. — E onde estão as outras?

— Que outras, Nina? — Perguntou. Era tão legal quando ele deixava escapar o meu apelido. Tinha certeza que ele se esforçava pra falar meu nome inteiro e não dar o braço a torcer.

— As que a gente casou de verdade. — Ele me olhou como se eu fosse maluca. — É, po, aquelas... Foi você quem guardou, cara. — Cobrei ele. Queria aquelas alianças pra dar pra Maria, quando fosse contar do pai dela. Queria que ela entendesse que ela era fruto de um amor também, apesar dele ter se perdido no caminho. Não tinha nada melhor pra exemplificar o meu amor e o do Barbás do que aqueles anéis baratos, que agora deviam estar até pretos por causa do tempo. Ele falava bem sobre quem nós tínhamos sido juntos... como nosso amor foi uma flor da adversidade, brotando bem no solo ardente do inferno. A gente não tinha ouro e nem prata... só o fuzil e os nossos sonhos.

— William... — Chamei, quando ele virou minha mão ao contrário, girando lentamente o anel no meu dedo.

— Eu não sei, porra. Faz tanto tempo.

— Ficou no ser guarda-roupas da casa onde a gente morava, cara... — Insisti. Eu ia chorar se ele tivesse jogado um negócio tão simbólico fora.

— Sei lá, irmão, deve estar dentro de umas caixas aí, eu tenho que ver depois.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora