— Sei lá... só... Quando eu fui ver a gente... — Ela gaguejou. — Ai, Barbás...
— Bora, fala. — Insisti, tava nervoso.
— Sei lá, a gente só beijou e quando começou a passar um pouco e isso aconteceu, eu acordei e saí. — Ela tava com a testa franzida também, tinha uma expressão preocupada e amendrontada no rosto.
Eu não sabia o que fazer, aquilo era real e oficial. Eu tava perdido. Olhei ao redor da casa, olhei pra janela da cozinha e lá pra fora, depois pra parte de fora, onde o pessoal tava reunido na minha espera. Andei a casa toda, socando as paredes e botando minha mente pra trabalhar. O que eu ia fazer com ela? O que caralho eu ia fazer com aquela mulher.
Não dava pra controlar ela, não dava pra botar ela sob a supervisão de um monte de moleque, a culpa era minha mesmo. Se fosse qualquer outro, se pá desse certo, com ela não. Ela era geniosa demais, engenhosa demais, esperta demais. Só quem conhecia pra lidar direito e manter ela onde ela tinha que ficar, só quem sabia como contornar todas as artimanhas dela. Não dava pra deixar um tigre dentro de um cercado de madeira. Ele ia quebrar e ia sair... não...
Se quer um bagulho bem feito, tinha que fazer por si mesmo. Tava na hora de cortar os subalternos e sujar a porra da mão. Do contrário, ela ia continuar pintando e bordando, até a hora que eu perdesse ela de vista. Não... a brincadeira ia acabar.
Fui lá fora puto, sentindo o coração latejar no peito. Eu tava com um encosto em mim, só podia. Parei na porta e vi todo mundo lá fora se assustar com a minha volta súbita... ou se pá fosse com a raiva estampada no meu rosto. Quase nunca eles viam minhas emoções tão expostas, mas agora era difícil de controlar. Eu tava borbulhando...
— Túlio, manda buscar um carro pra mim. — Disse. — Vocês dois ai que tão guardando essa porra aqui, tá dispensado. Amanhã eu quero vocês e os outros do plantão da noite no meu escritório.
— Rolou alguma coisa, patrão? — Um deles perguntou e eu vi ele ficou pequeno quando eu dei um passo pra fora.
— Passa amanhã lá que tu vai ficar sabendo, já que cês tão mais alheios que eu, que nunca tinha vindo aqui antes. — Eu odiava incompetência, mas a real é que a culpa nem 100% deles. De qualquer maneira, eu não tolerava gente falhando a porra da única missão que tinha. Isso não era só eu, o crime não tolerava erros. Tava na hora deles aprenderem. Pelo menos ia ser com alguém que ia dar uma segunda chance pra eles se redimirem, até porque mesmo com raiva, eu tinha noção de quem eu era e o jeito que eu agia pra manter tudo nos trilhos. Nem todo mundo faria aquilo.
Eles se agilizaram pra correr atrás do que eu tinha mandado e eu mesmo mandei os dois que tavam ali pra casa. Voltei lá pra dentro, onde a Marina tava no mesmo lugar da cozinha, na mesma posição e com uma mão no rosto.
— Arruma tudo o que o Túlio mandou pra tu ai agora. — Mandei pra ela. — Se tu quiser levar alguma coisa, se não, é contigo mermo.
— Por quê? — Ela perguntou e eu não respondi, mas fiquei na sala de olho nela. Acendi um cigarro pra tentar dar uma baixada na pressão. Tava foda, o nível de estresse dos últimos dias tava me matando pra caralho. Não que a quantidade de cigarro que eu tava fumando não tivesse fazendo a mesma coisa, mas fazer o quê?! Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ela não entendeu, mas não quis mais explicação, provavelmente sabia que eu não ia dar, só foi fazer o que eu tinha mandado.
Em menos de 10 minutos chegou o carro que eu tinha pedido e o Túlio ficou na porta, tentando entender o que eu tava fazendo. Voltei pro quarto, vendo a Marina sentada na cama como se tivesse se despedindo do colchão e do conforto que ela tinha ali.
— Bota lá no carro, Túlio. — Pedi, ele passou pela gente e pegou as coisas dela, não era lá muita coisa. Ela me olhou com raiva e receio quando ele saiu. — E tu vem.
— Você vai me levar pro porão de novo? — Ela perguntou.
— É o que você merecia. — Disse, cruzando os braços.
— Então não é? — Perguntou e eu cheguei perto dela pra puxar ela pra fora da cama.
— Não interessa, Marina. Bora logo. — Perdi a paciência que já ela pouca e sai carregando ela casa à fora. Ela não foi se debatendo, mas não foi numa boa também. Parecia criança, vai tomar no cu.
Abri a porta de trás do carro e coloquei ela lá dentro, o Túlio ficou vigiando pra ela não sair. Dei a volta e entrei no carona, apertando a mão do motorista e travando o carro inteiro pelo painel.
— Minha casa, meu parceiro. — Falei pra ele, que concordou com a cabeça e deu partida. Pelo retrovisor, eu fiquei observando uma Marina calada e confusa no banco de trás.
Eu tava procurando sarna pra me coçar, eu sabia. Era insanidade minha levar aquela mulher pra minha casa, mas eu tinha que dar um jeito nela. Eu não confiava mais em ninguém pra colocar ela na linha. Se eu botava numa casa cercada de gente armada, ela fugia, ela fazia amizade com os moleques, ela fazia até o Túlio levar um monte de coisa além do que eu tinha mandado pra ela. O foda é que ela era simplesmente encantadora, eu sabia o efeito que tinha sobre as pessoas, já tinha vivido aquilo uma vez. O problema era ela, específicamente ela. Se eu deixasse correr nas coxas como tava, ela ia meter o pé a hora que queria e eu ia ficar de mãos abanando. Foi uma pica pra mim ela ter conseguido fugir, então, eu ia botar ela no melhor esquema de proteção da favela: o meu. Na minha casa era cheia de segurança, tinha as mina que trabalhavam pra mim. Na parte final do dia, eu ia estar lá pra acompanhar aquela porra de perto. Dali ninguém saía, nem entrava sem que eu ficasse sabendo. De lá, eu ia poder controlar melhor. Era tudo o que eu queria, o controle da situação de volta.
Subimos pra minha casa no final do Paula. Era perto dali, então, chegamos rápido.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
