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— Não sei não, chefe.

— Quando foi a última vez que tu viu ela? — Insisti.

— Faz um tempo. — Ele desviou os olhos de mim.

— Eu perguntei quando.

— Ah... — Ele jogou as mão pro alto, deixando elas cairem no colo em seguida. — Não sei ao certo não, chefe, mas faz um tempo grande.

— Tu tá mentindo pra mim. — Olhei pra ele em alerta, com o rosto inclinado pra frente. Era uma advertência. Eu não tolerava traição, nem mentiras dentro das minhas favelas. Meu pavío era muito curto pra aquelas coisas. Se eu descobrisse que ele tava me enrolando, irmão... Não ia ter dois papos.

— Não tô não, eu juro. — Ele se exaltou, talvez pensando a mesma coisa que eu. — Juro... mesmo. Ninguém sabe, nem minha mãe, ninguém. Eu falei isso e não tava mentindo não, po.

— O perfume, irmão. Eu senti o cheiro em você. — Fui lá onde era o ponto de tensão da coisa toda. Quando aconteceu, eu sabia que era impossível o que eu imaginava, mas agora... Pertinho... Pertinho quanto?

— Po, patrão, eu não sei. — Ele negou com a cabeça e parecia meio inconsolável. Comecei a me perguntar se ele chorar ali na minha frente. — Mesmo po.

— Irmão, eu fui casado com ela. Eu lembro daquela porra de perfume e você sabe que ela só usa aquela porra, desde antes de ir presa, quando ela morava contigo. Tu sabe do que eu tô falando.

— Eu lembro também, mas po... Faz muito tempo que eu não vejo a minha irmã, eu nem consegui reconhecer. Pra mim perfume é a mesma coisa, eu não sei o que tu quer saber de mim... — Ele continuou negando e eu joguei minha costas na cadeira. Eu tinha que pensar rápido pra conseguir seguir em frente. Eu tinha que considerar que ele podia estar falando a verdade também. — Vamo fazer o seguinte, então? Tu vai me fazer um favor pra gente tirar essa dúvida. Botei um pessoal pra investigar pra mim, tu vai ajudar eles a bater a informação certa. — Expliquei e ele ouviu atento. — Entra lá no Fallet e no Prazeres com a sua mãe, eu sei que o Mandarim não vai mandar te matar, tua coroa não vai deixar e, até onde eu tô sabendo e imagino, ele deve estar precisando muito dela.

Andrei continuou ouvindo em silêncio, não esboçando reação nenhuma, só ouvindo.

— Entra lá e bate pra mim as informações. Se tiver algum resquício da sua irmã lá, qualquer coisa dela, tu vem e me fala, a gente confere com o que os outros trouxerem pra mim. Assim vai ficar fácil da gente chegar na verdade, né não? Tu não concorda?

Ele fez que 'sim' com a cabeça e eu fiquei satisfeito. Esperava que ele tivesse entendido que aquilo era um teste, uma prova pra ele. Se ele mentisse, não ia bater com o que os outros me trouxessem de informação. Mesmo que não me trouxessem nada, só o fato dele achar que trariam já ia dar o efeito psicológico que eu queria. O combinado entre eu e ele era que eu ia acolher e dar uma moral de cria pra ele na minha família, em troca, ele ia me manter informado sobre a família dele. A partir do momento que ele rompesse com a parte dele, eu ia ter liberdade pra fazer o mesmo e isso ia deixar o moleque numa posição bem ruim.

A chave da questão podia parecer que era os outros, mas na verdade era o Andrei. Qualquer que fosse a posição que ele tomasse, eu ia saber o que tava acontecendo.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora