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[WlLLIAM]


Eu não conseguia mais dormir, nem com remédio, e aquilo tava minando o meu humor legal. Desisti de ficar em casa, fiquei o tempo inteiro no escritório fazendo o que eu tinha que fazer na base do ódio mesmo, porque energia eu não tinha, mas a agitação simplesmente não me abandonava pra eu conseguir descansar em paz. Tudo tava me perturbando, tudo o que ela tinha dito tinha ficado impregnado em mim que nem uma praga. Se eu tinha certeza que eu não ia me abalar quando encontrasse ela, eu tava errado e só isso já me deixava fora de mim. A vagabunda tinha plantado a semente da dúvida na minha cabeça e agora eu não conseguia parar de rever as coisas que ela tinha dito na minha mente.

Eu não conseguia acreditar que eu tinha uma filha e que ela tinha dito a verdade sobre a gravidez, mas o lance era mais grave que isso. Se pá não era por ela, mas pelo que o erê tinha me falado uns dias antes. Mariazinha fez questão de me chamar pra falar sobre 'a pessoa que eu esperava'... e ela tinha chegado... E eu tinha sido mandado escutar ela. Beleza, eu tinha ouvido, mas e aí?

Porra, irmão, o que me intrigava é que eu tinha sido chamado pra falar sobre ela. Sobre ela... Pra que? Era difícil pra mim entender o que meus santos queriam de mim. Mais difícil ainda era saber se eu ia conseguir dar, o que quer que isso fosse, à ele. Se fosse sobre ela, era tudo mais complicado.

Aquele nome tava latente na minha mente: Maria. Maria. Maria. A chupeta da Mariazinha que não era dela... e sim da Maria a quem a mãe tinha dado o nome dela. Essa Maria era a pessoa pra quem Dalila tinha comprado a porra de chupeta. Eu ia ir nela depois, sondar pra ver o que ela sabia. Eu ia descobrir se Maria Ísis existia mesmo ou era só um delírio da Marina pra me sensibilizar. Na boa, eu esperava mesmo que fosse só mais uma das histórias dela, porque se não fosse... Porra, eu nem sabia o que fazer. Uma filha minha...

Só imaginar aquilo já me cansava demais. Aliás, tudo me cansava naquela história. A presença daquela mulher ali me roubava a paz, que me roubava a sanidade. Minha cabeça girava, girava e eu só conseguia ficar pensando no que estava embaixo do escritório. Achei que ia ser mais fácil... mas tava sendo um inferno. Ouvir ela negar tudo não tinha me surpreendido, mas o anel no dedo dela sim. Eu não acreditei quando vi a aliança no seu dedo e me perguntei se não tava alucinando. Quando tentei tirar, eu vi a marca de sol que indicava que, realmente, ele tinha estado ali todo aquele tempo. Por que ela tinha feito aquilo comigo e nunca tirado o cacete do meu anel? Eram tantas perguntas sem respostas que eu realmente tava me sentindo perdido.

Eu tinha que resolver aquilo de uma vez, antes que eu ficasse maluco. Porra, como eu queria só ir lá embaixo e, sei lá, irmão, quebrar o pescoço dela e seguir a minha vida. Eu ai cobrar todo o mal que ela tinha me feito e ia tocar minha vida, sem ter o peso daquele passado nas minhas costas... eu queria que fosse tão simples. Queria que aquela ideia me desse algum prazer, mas não dava e eu não sabia o porquê, não se parecia comigo.

E ia além disso. Eu acusei ela de ter falado com a Dalila, mas sabia que era impossível. Quem tinha me dito aquelas coisas era a erê, com a Dalila incorporada, o que significava que ela não se lembraria de nada. Então, como...? Agora, que eu conseguia associar as coisas que ela tinha me dito àquela situação com a Marina, eu tinha a sensação de que os meus santos tinham me parado. Me parado e me mandado escutar... escutar ela? Talvez por causa disso, por causa deles, eu tava ali me afogando em dúvidas.

Eu tinha que tirar umas coisas a limpo antes de qualquer coisa, pra não ficar com aquelas merdas martelando na minha cabeça. Se ela morresse agora e eu tivesse um centímetro errado sobre qualquer coisa, aquilo ia me carregar pra sepultura junto com ela. Se ela realmente tivesse tido uma filha minha, o que eu ia dizer pra garota? Que eu tinha matado a mãe dela? Que porra, né?!

Eu ia ter que correr pra checar algumas coisas que tinham sido ditas e pensar no que ia fazer daí. Até lá, ela ficaria naquela merda de porão refletindo sobre a vida. Eu não tinha pressa nenhuma, porque até lá, eu podia fazer ela comer a porra do pão que o diabo amassou. Era uma merda ficar sem ver o mundo exterior, comendo qualquer resto e vendo as horas passarem devagar naquela merda de porão, eu sabia.

Logo no primeiro dia, eu mandei cortar a comida dela só pelo abuso. Se ela não tinha entendido que não tava em posição de fazer essas graças, eu ia mostrar o lugar dela. Durante a noite, acabei deixando que levassem qualquer coisa pra ela lá. O objetivo não era matar a fome, mas manter ela de pé. Isso também era controle psicológico. Ela queria mexer com a minha cabeça, eu ia mexer com a dela também. Antes de qualquer coisa, eu precisava correr com informações logo... era nisso que eu ia me focar.  

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora