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Sei lá, eu só alucinei. Era uma sensação muito louca de estar fora da terra, naquele calorão, com o funk estourando nos nossos ouvidos. Eu tava doidona demais, o Guilherme também, eu reparei só pelo olhar meio perdido dele quando a gente se olhava. Dançamos muito, de um jeito muito descontrolado e meio indecente até. Era um caos, de verdade. Ele só se fingia de certinho, mas a verdade é que o Gui sabia se divertir a beça. E ele adora o fato de eu ser muito louca e sem noção de limites. 

— Isso aqui é muito bom, Ninão. Que que isso, é tipo rave... — Ele sussurrou no meu ouvido. 

— Rave é coisa de playboy que nem tu. — Dei um empurrãozinho no peito dele, olhando pra cara de galeguinho dele. — Aqui é outra parada. 

Eu não sei o que começou a rolar, nem quanto tempo a gente tava ali, mas toda vez que eu vi um cara passar armado, eu parava no lugar. Meu cérebro tava demorando pra processar uma conclusão óbvia: uma hora o Barbás ia perceber que eu tinha saído... e que o Guilherme não tava lá. Era só juntos 1 + 1? Será que ele ia mandar os seguranças atrás? Porra, mas era óbvio. 

Quando a minha ficha caiu, se pá já era meio tarde. Começou a me bater uma neurose muito doida e eu fechei logo a cara, passando a mão no rosto pra conseguir fazer minha cabeça pegar no tranco. Pelo amor de Deus... 

— Que foi? — Guilherme falou no meu ouvido. 

— Bora sair daqui. — Disse, quase tendo que gritar dentro do ouvido dele por causa da música. 

— E ir pra onde? — Ele ficou confuso. 

— Não sei, a gente só tem que que... — Eu ia dizendo. Por cima dos ombros dele, eu vi o segurança mais notório do Barbás, o Túlio, à distância, olhando alguma coisa de cima do palco. — Aí, puta que pariu. Só fica xiu e vem. 

Flexionei os joelhos pra ficar mais baixa e dar uma sumida na multidão. Peguei o Guilherme pela mão e fui despiando pelo meio do pessoal. Eu esperava do fundo do meu coração que não fosse a mim que ele tava procurando e, se realmente fosse, que ele não tivesse me visto... se não eu e o doutor estávamos enrolados, viu? 

Avancei pela rua da concentração toda escaldada e caí pra dentro do primeiro beco que eu vi. Ali, tava vários maluco cheirando pó a beça. Passei por eles como um furacão, agarrando o pulso do Gui pra manter ele perto. 

— Tamo indo pra onde, Marina? — Guilherme travou no lugar, me segurando pra virar pra ele. 

— Não sei... Pra qualquer lugar. — Eu dei um sorriso travesso. Não sei porque, mas porra, aquilo parecia ser a coisa mais doida e divertida que eu ia fazer em anos. Caralho, nem eu acreditei que eu ia dar uma volta na Barbás dentro da própria favela dele. Hoje eu matava esse homem de ódio. Por mim ele que se rasgasse com aquelas fodidas lá. — A gente tá dando fuga do resto do pessoal. 

Voltei a andar com pressa, trazendo ele comigo. 

— Pessoal nada, tu tá fugindo do pai da Maria Ísis. — Ele acusou na cara dura. Eu nem virei pra trás pra olhar na cara dele. — Eu vi que ele tava na sua cola com o cara lá que tu tava dando uns amassos.

— É o seguinte. — Parei assim que botei o pé na principal. — Eu não vou ficar lá pra passar raiva com ele não. Se ele acha que pode fazer o que quiser e que vai me controlar pra eu não fazer igual, ele tá errado pra porra. Eu sou incontrolável. 

— Eu sei disso. — Ele encostou num poste dando uma risadinha. 

— Então, só que é o seguinte, ele é o dono da favela. Qualquer homem armado ai dentro responde a ele primeiro. Ele pode botar a favela toda atrás da gente se ele quiser, apesar de eu duvidar que ele tenha cu pra fazer isso. Admitir pra geral que ele não deu conta de não me deixar sumir e ele ter que mobilizar os homens deles todos pra ir atrás de uma mulher sozinha que nem eu? Nunca... mas os homens de confiança dele vão vir. — Expliquei pra ele. Não queria ninguém inocente do meu lado. — Então, tu pode fugir comigo e ficar até virar o dia conhecendo os cantos dessa favela, mas sabendo que tá no risco... ou eu te coloco num mototáxi e tu vai pro teu hotel. Escolhe. 

— E desde quando eu te deixei sozinha nos últimos anos, Nina? — Ele negou com a cabeça e, com isso voltamos a andar pela principal. — Só me garante que ele não vai me matar porque eu não quero morrer ainda não. Não fiquei 10 anos na porra da faculdade pra morrer agora. 

— Não te garanto não. — Eu ri quando ele arregalou os olhos. — Mentira, garanto sim. Sem você a gente vai estar enrolado no transplante da Ísis. Essa é sua salvaguarda. 

A gente riu. Porra, a gente foi subindo a rua rindo horrores. Fui nos embrenhando pelos becos de novo, pra não dar muito na cara que era a gente, e fomos parar lá na Rua 2. 

Cara, em todo boteco que a gente via aberto, a gente parava e tomava um monte de cachaça, de Velho Barreiro a 51. As baratonas mesmo, com muito limão. Ele passava o cartão dele e a gente seguia pra caçar o próximo bar. Como era sábado, tinha vários abertos àquela hora da madrugada. Um monte de gente de mais idade ficava por ali, bebendo suas cervejinhas, trocando um ideia e ouvindo umas músicas do milénio passado. 

Era muita doideira, a gente tava alucinando e subindo a rua todo troncho, se escondendo que nem uns fugitivos da polícia, só que de um jeito muito engraçado. 



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Cheeeeeeeeeeeeeeeegamos! E vamos de mais uma maratonazinha de leve. 10km hoje. Comprei já o chopp de vinho e uma ousadia pra ambientar melhor kkkkkkkkkkk sim, é só uma desculpa pra beber. Vamos de Nina fugitiva. 

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Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora