— Tem que ser num hospital...
— Não em qualquer hospital, o mais próximo é o do Centro. O INCA tem a estrutura necessária pra... — Começou.
— Tá, tá, eu já entendi. Vai ser feito assim, eu vou precisar planejar como eu vou tirar e trazer ele daqui sem ninguém saber. — Senti um cansaço descomunal se agarrar no meu peito. Era uma puta responsabilidade. — Você resolve pra mim os trâmites sobre o tratamento pra tirar a medula da Ísis?
— Claro, já vou entrar com o pedido de internação dela e daqui há uns dias vamos poder levá-la. Vai levar uma semana, um pouco mais talvez, antes dela poder receber a medula do pai. Depois, a medula que ela vai receber vai passar por um tratamento antes, pra tornar a resposta do corpo da Ísis menos agressiva à ela e, depois do transplante, a Maria ainda vai passar por mais duas semanas de tratamento pra neutralizar os anticorpos e evitar a rejeição.
— É um mês no hospital, então. — Concluí, passando a mão no rosto. Seriam dias muito complicados. Meu tempo tava curto, correndo rápido demais e eu tinha um milhão de coisas pra fazer. Eu tinha que cuidar da Ísis, me juntar com o Rogier pra resolver a questão do Pirraça e das favelas, proteger as costas do Barbás enquanto ele se colocava a disposição como doador...
— Por aí, Nina.
Concordei com a cabeça e nós trocamos um olhar compreensivo. De todo mundo, ele era quem melhor entendia minha aflição naquele momento. Por tantos anos, ele tinha me visto sofrer ao lado da Ísis, correr de um lado pro outro, tentando manter minha esperança inabalável... algumas vezes eu caía e ele sempre ia me amparar.
— Obrigada meu amigo. — Sussurrei pra ele, limpando uma lágrima solitária que escorreu pelo meu rosto. — Essa é a última batalha dessa guerra. Não podemos fazer nada errado agora.
— Vai dar tudo certo, vamos fazer tudo o que tiver ao nosso alcance e ainda mais. — Ele apertou minha mão e se levantou, dizendo que precisava ir. A Rocinha já tinha lhe dado emoções o suficiente por uma vida.
Eu e a Ísis nos despedimos dele e passamos o resto do dia juntinhas. Eu precisava aproveitar aquele tempinho que ainda tínhamos juntas antes do transplante. Ali, ela ficaria um mês internada e, enquanto isso, eu ia ter que resolver minha vida. Encarar a realidade, me desdobrar em mim pra dar conta de tudo.
Nós duas brincamos, vimos filme, fomos pra piscina, comemos besteira... e eu só podia agradecer por ter ela do meu lado. Ela, Maria Ísis, aquele pinguinho de gente, era a prova de que tudo o que eu tinha feito, todo o sacrifício, não tinha sido em vão. Eu tinha vencido em todos os sentidos da palavra.
Minha família estava viva.
[...]
Coloquei a Maria pra dormir quando deu 21h. Ela enrolou, é claro, mas como o dia tinha sido cheio pra nós, o cansaço acabou falando mais alto e antes de 22h, ela já tava apagada. Beijei sua testa e me levantei da cama, indo tomar banho no banheiro do Will pra não correr o risco de acordar ela. Coloquei uma roupa simples, com um casaco por cima por causa do frio da noite.
Eu tinha algo a fazer, tinha alguém a buscar... alguém que nunca admitiria suas fraquezas, mas que eu conseguia ver a todas elas. Barbás era corajoso, não ia dar pra trás, mas ele tava acuado. Sabia que era complicado e mais uma vez, ele estaria nas minhas mão, rendido. Se eu quisesse, ele não voltaria a ver o sol nascer novamente. Eu poderia derrubar... ele sabia e a ponta de dúvida que ele tinha sobre mim estava torturando sua mente. Eu não podia culpá-lo, porque o trauma que ele tinha passado tinha me ferido também, talvez até na mesma intensidade. Encurralado, com medo, agora ele estava fugindo de mim pra não encarar seus próprios sentimentos. Bom, eu não ia deixar pra lá.
Subi a Rua 1 com um motoboy e dei um alô pros seus seguranças que ficavam na entrada do seu escritório. Eles, é claro, me barraram e subiram pra falar com o Will.
— Po, madame, o chefe falou que tá cheio de coisa pra fazer e mandou tu voltar pra casa. — Voltou um deles uns segundos depois, com a cara mais deslavada do mundo.
— Pois fala pro teu chefe que eu não saio daqui sem falar com ele, beleza? — Cruzei os braços.
— Eu não vou subir lá pra falar nada com ele mais não. Ele tá puto e vai sobrar pra mim essa porra. O negócio é você se adiantar mermo aí. — Retrucou. Óbvio que ele tava se cagando de ficar no meio do fogo cruzado entre eu e o Barbás. Imaginava o terror que aquele homem colocava na cabeça desses pobres coitados com aquele mal humor do cão dele.
— Cadê o TK? Ele não tem medo de fazer o bagulho simples que eu tô pedindo.
— TK tá com o filho dele. Faz meia hora que acabou o turno dele. — Foi a voz do Márcio que eu ouvi.
— Marcinho, tudo bem? Faz o favor de passar o meu recado do William? — Pedi com a voz mais doce que eu conhecia.
— Po, Nina... — Ele colocou as mãos no bolso e mesmo sem dizer nada, eu já soube que ele ia negar. Foi nesse momento que uma ideia mirabolante passou pela minha mente, com o brilho prateado que eu vi na sua cintura. — Barbás já falou já.
Suspirei e estalei os dedos da mão.
— Essa ai na sua cintura é uma Desert cromada? — Perguntei. — Interessada naquele brilho insistente na sua cintura.
— Minha arma? — Ele questionou, fazendo uma cara confusa. Ele já escaldou só aí. Num movimento ousado, peguei ele desprevenido e meti a mão na pistola dele. Márcio até teve a reação de vir pegar de volta, mas se deteve. Ele e todos os outros seguranças da 1. Eu vi todo mundo ligar o alarme de alerta, mas nenhum deles veio com uma abordagem agressiva pra cima de mim. Observei a reação de cada um... todos contidos.
Depois do julgamento e do que o Barbás tinha feito, depois do lance do baile, todos eles já deviam ter percebido que tava rolando um negócio entre a gente.
— Show de bola. — Dei uma analisada no brilho prateado exuberante da arma. Tirei o pente e quando fui macetar ele de novo no corpo da arma, meu dedo deu uma escorregada no gatilho, dando um tiro pro alto. — Ops, amigo, que arma sensível da porra. Toma de volta aí.
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We are back!
Infelizmente minha faculdade me socou trabalho e uma fucking feira, onde eu tinha uma seminário gigante pra apresentar. Por isso, eu tive que tirar umas várias semanas pra preparar, organizar, ajudar os calouros e finalmente apresentar em todos os dias da feira.
MAS AQUI TÔ EU DE VOLTA E PRONTA PRA TUDO. Vamos marcar uma maratona em breve.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
