Ele continuou me olhando nos olhos e eu limpei os meus, que não paravam de deixar um monte de lágrimas saírem. Aquilo era horrível... Não fazer nada também é tomar uma decisão, eu sabia bem o peso das coisas que eu tinha feito há anos atrás, das escolhas que eu tava fazendo. Sabia que tudo aquilo era uma consequência, mas na boa? Como eu ia me arrepender de ter salvado a vida da nossa filha? Eu não queria que nada daquilo tivesse acontecido, mas eu tive que jogar com as pedras que o destino colocou no meu caminho. Eu não estava sozinha, era minha responsabilidade proteger o fruto do nosso amor, porque ela ia ser a prova cabal do que a gente tinha sido um dia e iria pra além da nossa geração. E, porra, eu sofri. Por cada vez que eu não pude ir até ele, que eu não pude me fazer entender, eu sofri, sofri muito, senti um pedaço da minha alma ser arrancado sem anestesia. Talvez eu só tivesse ali até então por causa da Maria, porque ela era minha força, minha rocha e minha razão de viver. O destino me jogou pra longe dele em ondas tão fortes quanto às de um tsunami. Nós não conseguimos ficar juntos, porque a vida simplesmente não quis... mas a mesma vida que tinha brincado conosco como se fôssemos bonecos, nos reunia ali, no meio da bagunça que ela mesmo tinha criado.
Quem era culpado por aquilo?
— Eu só tava tentando salvar nossa filha quando fui embora. — Meu lábio tremeu e eu agarrei as barras abaixo das mãos dele. — Você, que mantém o seu filho há centenas de quilômetros daqui pra manter ele seguro, consegue me julgar? Tinha mais de 30 homem querendo minha cabeça no Rio, eu tinha um bebê na minha barriga e tinha que ficar em paz se eu quisesse levar aquela gravidez até o final. Depois eu tinha que fazer o quê? Pegar meu bebê e enfrentar essa gente toda? Minha filha num braço e a pistola na mão do outro? Ou deixar minha filha pra trás e talvez nunca mais voltar? Ainda mais quando ela ficou doente?
Ele não falou nada, só ficou me encarando com uma expressão indecifrável e o olhar brilhante. Eu não tinha entendido se ele estava emocionado, ou se era só raiva. Alguma coisa tinha mudado no seu rosto e, pela primeira, eu entendi que ele tava realmente escutando. Ali nós estávamos frente a frente de verdade, de peito aberto, separados fisicamente por uma porta de metal e emocionalmente por um abismo de mágoas confusas e histórias mal explicadas.
— Ela é só uma menina, Barbás, que precisa de nós dois juntos agora. — Sussurrei, sentindo novamente a tristeza se sobressair entre os meus outros sentimentos. — Ela é linda, inteligente, curiosa... a pessoa mais carinhosa que eu conheço... e tem câncer. Ela é forte e eu tenho certeza que o dia que a minha menina vai estar curada vai chegar, mas ela precisa da gente agora. Eu não me importo mais com o que você fizer comigo, mas dá uma chance pra nossa filha.
Ele suspirou e desviou o olhar, parecendo profundamente confuso e em conflito consigo mesmo. Eu encostei a testa no metal gelado e fechei os olhos, sentindo o chão me faltar. Sinceramente, eu achei que fosse estar pronta pra quando aquela hora chegasse... mas eu não tava. Senti dor física no peito, como se alguém tivesse espremido meu coração e deixado só os seus restos dentro de mim. Por tudo... pelo Barbás, pela Maria, por mim... pela nossa família que nunca teve chance de ter acontecido pra começar. Inconscientemente, movida pela angústia profunda que eu sentia e que eu descobri existir nele também, estendi uma das mãos pra fora do meu cárcere, buscando qualquer contato, qualquer ligação que pudesse ter restado entre nós. As pontas dos meus dedos encontraram o seu rosto num afago muito suave, na minha cabeça, era como se eu tivesse tateando o futuro que eu gostaria de ter tido...
Olhei pra mim com muita tristeza, negando com a cabeça, enquanto as lágrimas voltavam aos meus olhos com força. Eu não sabia o motivo dele ter permitido aquela aproximação, mas ela aconteceu. Por longos segundos, eu passei minhas digitais pela extensão do seu rosto, pela da testa, a barba, o queixo... Até que ele pareceu acordar e agarrou meu pulso com a mão livre, cortando o contato.
Suspirei e me afastei, recolhendo a mão novamente pra dentro do quarto. O silêncio era sufocante e eu queria vomitar pela tensão, minha cabeça doía... eu queria deitar e me encolher numa bolinha, fingindo que o mundo não existia lá fora. Nesse momento, foi ele quem invadiu o meu espaço com a mão, que afastou meus cabelos dos ombros e observou um ponto abaixo do meu rosto. Sabia bem o que ele tava olhando, a prova de que alguma coisa tinha acontecido entre nós dois recentemente. Ele não se lembrava e eu lutava pra esquecer... tinha sido um erro.
Ele se afastou também e me deu as costas, passando a mão na nuca, enquanto se afastou alguns centímetros da porta. Barbás bufou com as mãos na base da coluna, parecendo cansado.
— E onde ela tá? — Perguntou, voltando o olhar pra mim. — A Maria Ísis.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
