— Fica quieto pra eu limpar você, cacete. — Reclamei, por ele estar se mexendo enquanto eu passava a esponja no peito dele. Aproveitei a oportunidade pra descobrir todas as tatuagens novas que ele tinha feito desde a última vez que a gente tinha se visto. Agora de perto dava pra ver que foram muitas, principalmente perto do pescoço. Me fascinei pelos desenhos no corpo dele de novo e quase me esqueci da minha pressa, lentamente passando a esponja e vendo tudo o que tinha de novo ali. Era como pegar meu livro favorito de novo e descobrir que a autora tinha escrito mais umas 100 páginas de história além das que eu já conhecia.
Me surpreendeu como ele ficou quieto de novo. Desde então, ele não tava falando muita coisa e nem tentando se comunicar mais. Seus olhos, porém, pareciam fixos em mim, em todos os meus movimentos. Eu via ele forçando as pálpebras pra manter elas abertas e continuar me olhando minuciosamente. Parecia interessado em mim tanto quanto eu tava na noia por causa das tatuagens dele. Quando eu notei que Barbás tava me olhando muito, me bateu logo o medo do dia seguinte, então larguei a esponja e joguei água na cara dele com o chuveirinho. Não era pra ficar me olhando, cacete, era pra esquecer de mim quando o amanhã chegasse. Ok, ele já devia estar limpo o suficiente. Agora ele tinha cheirinho de lavanda e não mais de nicotina, whisky e perfume barato de mulher. Muito mais saudável e cheiroso pra quem ia ter que dormir e acordar com uma ressaca do satã no dia seguinte. Culpa dele mesmo...
Quando me estiquei pra ir desligar o chuveiro, como uma criança, ele bateu a mão na água, molhando a minha camisa inteira.
— Seu otário do caralho. Minha camiseta, filho da puta. — Reclamei, batendo a mão com força no ombro dele, pra fazer ele voltar pro lugar onde ele tava. Taquei mais água na cara dele, antes de conseguir finalmente fazer o fluxo cessar no registro. Ele não teve nenhuma reação, a não ser ficar parado que nem um mongoloide, de olhos fechados e movimentos lentos como uma preguiça. Em um momento eu achei que ele tivesse dormido ali, principalmente quando eu peguei um dos roupãos dele que tinha ali e o homem simplesmente não notou. Suspirei, me pegando admirando a expressão suave no rosto dele por aquele mísero momento. Ele parecia melhor, muito melhor que antes sem dúvida nenhuma, em aparência e em cheiro, mas agora ele parecia mais feliz também. Aquela expressão de leveza no seu rosto contrastava muito com a raiva e a dureza que ele sempre mostrava pra mim agora. Sempre de olhos meio fechados, testa franzida e um brilho odioso na íris, agora ele só parecia ele mesmo, sem qualquer emoção negativa.
E foi um suplício tirar ele daquele lugar. Por quê? O bebê parou de querer colaborar comigo e eu tive que ficar puxando ele de um lado pro outro pra vestir o cacete do roupão e secar minimamente aquele homem grande pra cacete. Ele era pesado e eu já tava só o bagaço de tão cansada. Barbás voltou a falar umas coisas incoerentes e eu mandei ele calar a boca, enquanto empurrava pelas costas para a cama de novo. Puxei os cobertores todos e joguei ele no meio, notando como seus olhos observavam o redor sem se focar em absolutamente nada. Fui empurrando ele de volta pra cama com cuidado e não tive nem problema quando a isso, ele deitou de uma vez, que nem uma pedra. Quando eu fui me afastar, porém, senti ele agarrar o meu pulso.
Não era um aperto forte, mas o suficiente pra me fazer parar. Voltei meu olhar pra ele, meio chocada. Barbás abriu os olhos, ainda deitado, tentando olhar pra mim com uma expressão muito infeliz. Senti meu coração apertar no peito como se fosse uma bolinha anti-stress.
— Não vai embora. — Falou devagar e enrolado, quase igual minha filha quando tava aprendendo a arte das palavras, com a voz rouca e sem conseguir focar o meu rosto inicialmente.
Fechei os olhos, sentindo uma pontada no peito. Eu devia ir embora agora, sabia, mas eu não consegui... desliguei a luz do quarto, deixando só um abajur de cabeceira ligado e voltei pro lado dele, abaixando na beirada a cama, com a face numa altura que ele conseguisse enxergar.
— Eu tenho que ir, tá? — Murmurei, sentindo minha respiração ficar descompassado. Eu tava tensa... com medo e triste ao mesmo tempo.
— Não. — Negou com a cabeça, virando de lado, pra onde eu tava. — Não vai não. — A voz rouca era a dele, cansada, mas o tom era diferente. Eu sabia que ele só tava bêbado e falando coisa, mas no fundo, eu também não queria bem ir embora... Mesmo assim, me levantei pra ir de novo e ele mais uma vez, segurou o meu pulso. Sentei na cama dessa vez, colocando uma mecha de cabelo atrás do ouvido.
— Senti... sua falta. — Ouvi a confissão e um beicinho se formou nos meus lábios. Senti logo a face do rosto queimar em anúncio das lágrimas que viriam em seguida. Eu não tava esperando por aquilo... Não tava esperando ouvir aquelas coisas, meu coração pareceu se esfarelar de vez e eu perdi o controle da situação legal. As lágrimas desceram quentes pelo meu rosto e um soluço me arrebatou muito, muito cedo. — ...quando você foi embora. Não vai embora. — Repetiu debilmente, como uma criança. Ele nem tava olhando pra mim diretamente, olhava pro teto, depois do abajur e pra mim e pra minha blusa molhada. Eu não sabia da validade daquela afirmação, até porque ele tava bêbada, mas tinha acabado comigo legal.
— Desculpa. — Foi a única coisa que eu consegui falar entre uma fungada e outra. Eu nem sabia mais o que eu tava fazendo... estiquei uma mão e passei na lateral o seu rosto, sentindo a textura da barba por fazer dele, em um carinho sem muita reserva a minha parte. Passei a mão pela sua cabeça, pelos seus fios de cabelo, depois de novo pelos traços do seu rosto... Ele era tão bonito, tão lindo... Não sabia bem se ele mesmo entendia o quanto ele era capaz de reluzir e brilhar como um sol. Mesmo que ali, ele não parecesse bem um astro rei... ali ele parecia só o William. Parecia muito o meu William, de 5 anos atrás.
Em algum momento, ele levou uma mão ao rosto e segurou a minha, beijando a palma sem qualquer padrão. Sabia, só pelo seu olhar, que amanhã eu não passaria de uma alucinação da sua mente deturpada, que ele se irritaria por ter sequer pensado a meu respeito enquanto bêbado. Mesmo assim, eu não conseguia me conter. Eu tava muito, muito afetada.
— Me desculpa, Will. — Soluçei pesado, olhando pra ele e sentindo quase uma dor física no peito. — Eu errei com você também, mas não foi de propósito. Me perdoa.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
