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— Arrancaram, arrancaram... Você me cansa. — Falou, ainda sem me encarar diretamente. — Quando tu fala assim, parece que você sempre foi uma mina novinha, inocente, que tava sempre levada pela vida, mas não é assim. Eu conheço você também. Tu sempre foi maluca, mas sempre soube muito bem onde tava pisando. Eu não engulo esse papinho... — Ele levantou no sofá e dessa vez seus olhos, muito vermelhos, estavam em mim. — Vai falar o quê? Que tu não planejou vir aqui fazer exatamente o que você tá fazendo? Me mostrar a minha filha e tirar meu chão?

— Nunca disse que fui inocente de tudo, não fui. Eu tive os meus desvios nessa vida e sim, eu planejei vir aqui e te mostrar a Ísis, porque você é pai dela também. Só faz dois anos que você saiu da cadeia, eu não perdi tanto tempo assim... — Comecei a divagar no meu pensamento e ele debochou da minha linha de raciocínio. — A questão não é essa. Além de vim fazer valer o direito de pai que tu tem sobre ela, eu quis te mostrar também como eu nunca tive motivos pra fazer as coisas das quais você me acusa. Tu viu como eu não menti quando eu disse que tava grávida, por que eu ia querer destruir a porra da nossa família? Pra ficar grávida e sozinha por aí? É bem gostoso dar à luz sozinha...

— Como tu acha que é estar na cadeia, porra? — Falou baixo e entredentes, mantendo uma distância segura de mim. — Eu nunca tava sozinho e isso era o pior...

Engoli em seco, desviando o olhar dessa vez. Senti minhas vistas arderem, porra, que inferno... Passei o dedo pela minha testa, negando com a cabeça antes de me recompor e continuar. Eu sabia como era passar uma temporada na cadeia, era um merda enorme, sabia como ia ser sofrido pra ele, mas ouvir aquilo da boca dele... Quebrava o meu coração, eu me sentia sangrando por dentro.

— Só me deixa provar que eu não fiz nada, se não for por mim ou por você, em nome da verdade, então faz pela Maria Ísis. Se você não ficar convenc...

— Tribunal. — Ele me cortou e falou por cima de mim. Eu pisquei, deixando minha voz morrer.

— Quê? — Me assustei em como foi repentino. Tribunal... esses eram famosos naqueles jornais sensacionalistas de final de tarde, sempre que os corpos dos sentenciados apareciam boiando por aí. A polícia ficava na cola dos matadores e faziam todo um escarcéu sobre isso. Sabia que não era nada mais que um julgamento que rolava dentro da própria facção... No tempo que eu passei ali, envolvida com o movimento, eu nunca tinha visto acontecer. Também, pudera, né? Naquela época era de tiro na nuca pra baixo, ninguém queria avaliar porra nenhuma, só botar a mão na coroa e que se fodesse toda a moral da parada. Guerra é guerra. Agora, isso não existia mais, eram tempos de paz. — É, eu sei o que é, mas nunca vi rolar.

— É simples, tu presta conta pra todo mundo que ficou fodido naquela época pelo que aconteceu. No final, geral decide se tu merece viver ou não... — Ele deu de ombros. — Não é só pra mim que tu tá devendo.

— Por mim, tá 10. É justo. — Concordei com a cabeça. — E como rola, exatamente?

Ele parecia meio impaciente, mas se encostou no móvel de bar e cruzou os braços olhando pra mim.

— Tu conta tua versão, teus testemunhas contam as deles, depois a gente avalia. — Explicou. — É justo. — Concordou.

— Pera, se eu preciso de testemunha, como eu vou arrumar daqui? — Questionei e ele revirou os olhos, voltando a me encarar.

— Namoral mesmo? Eu preciso ficar sozinho. — Me cortou de novo, gesticulando com a mão. — Eu tenho que engolir tudo o que eu vi aqui agora, não tenho nem cabeça pra discutir isso ai. Vai lá pro teu quarto que depois a gente vê.

— Pera, eu tenho mais coisa pra falar da Maria...

— Depois. — Foi incisivo dessa vez, eu me afastei alguns centímetros. O cansaço na voz e na expressão dele me pegou de surpresa e eu desisti de insistir. Eu teria outras oportunidades... Agora ele sabia que era pai e ia vir atrás de mim, porque eu era a única que sabia da filha dele. Bom... ele sempre tinha sido do tipo 'paizão' pro Pedro. Sabia que aquilo ia acabar se estendendo pra Maria também.

O que ele queria, afinal, era se esconder. Sabia que ele tinha ficado afetado por ter visto a Ísis, com os seus próprios olhos notando as semelhanças inegáveis entre os dois... Ali, naquele momento, não haviam mais meias verdades ou mentiras. A verdade era bem implacável quando aparecia e pra muitos, ela parecia um soco no estômago. Doía da mesma forma. Só pela forma como ele falou, eu já sabia o bilhão de coisas que deviam estar passando na cabeça dele. Devia estar um inferno dentro da sua mente. Aquilo sim era o verdadeiro momento de fragilidade de um homem. Ali na minha frente, ele tava exposto, vulnerável... e maleável. E era disso que ele tinha medo. Sempre teve. O seguro era por trás do seu muro de impessoalidade e apatia, através do qual ninguém conseguia ver nada. Aquela era a sua blindagem e, ali, ele havia a perdido.

Ele me levou de volta pros quartos onde as meninas que ficavam, a minha prisão mais bonitinha e confortável do que as que eu já tinha estado antes. Entrei voluntariamente dentro do meu quarto e fiquei ali, vendo ele trancar através das janelas abertas.

— Boa noite. — Sussurrei baixo. Ele parou e me olhou de novo, da mesma forma como tava olhando antes. Seu olhar varreu o meu corpo inteiro de uma maneira muito pouco discreta, se demorando no caminho antes de voltar pro meu rosto. Ouvi o barulho das chaves.

— Nunca mais saí do banheiro desse jeito. — Mandou, dando as costas pra mim e sumindo casa à dentro.

Assim como, porra? Eu queria mesmo entender o que tinha de errado comigo pra ele tá me olhando daquele jeito. Fui no lavabo e tirei o espelhinho da parede, ajeitando o reflexo dele em mim. Bufei ao notar como a blusinha branca que eu tava vestindo tinha ficado meio transparente por causa do banho. Não que tivesse dando pra ver muita coisa, mas tava marcando demais... Arg... minhas bochechas ficaram quentes na hora. Vermelhas...

Se tinha mais humilhação que eu pudesse passar nessa vida, eu desconhecia. Meu Deus, por quê?!

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora