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Foi uma conversa bem mais curta do que eu gostaria e, salvo por um pequeno detalhe, quase tudo era irrelevante. As notícias não eram lá muito animadoras, pra falar a verdade. Pirraça era do Prazeres, o que fazia ele ter um apoio forte lá. Ele também queria ganhar espaço aqui, por isso brigava tanto pelo Fallet. Se ele tivesse chegado a ocupar o complexo do Rio Comprido, ele teria estendido esse apoio pelo resto das favelas daqui... e tirar um homem com apoio popular de um lugar era bem mais difícil. O que significava que a gente tinha uma chance. 

Por outro lado, ele tinha homem motivado com uma parte significantes das minhas antigas armas na mão. Gente pronto pra morrer por ele e pelo projeto de poder dele, gente que cresceu com ele e confiava nele. Isso era o que eu não tinha e que podia ser determinante na hora H. Se eu botasse os meus e os dele pra bater de frente, os dele iam sustentar, os meus não. Era uma questão de confiança que só se conquistava com o tempo. Talvez meu pai pudesse inspirar a mesma confiança, mas eu ainda não... Rogier conseguia um princípio disso, mas não era a mesma coisa. As coisas ficaram muito nebulosas na transição de poder dos territórios do Mandarim. Bom, era por isso que tráfico não era herança hereditária. As pessoas até podiam ter confiado no homem que se intitulava seu pai, mas não em você. Dureza pra caralho. 

...mas tinha uma ponta de fio. Uma única ponta solta que soltou aos meus olhos. Uma tia. A tia que tinha criado o Pirraça e que há anos tinha brigado com ele por ter se envolvido na vida errada. Ela vivia na porção do Fallet que estava dominada por nós, em uma casa simples, alheia ao luxo e sangue que vinha com a bagagem do fluxo. Meu coração se apertou no peito com o pensamento de ter que usar uma senhora inocente... Cara, que culpa ela tinha? Que estrago eu ia fazer na vida dessa mulher pra vencer o quase-filho dela? Meus pensamentos chegaram a revirar o meu estômago e de antemão eu já fui pedindo perdão pra Deus.

— Porra. — Xinguei e passei a mão nos cabelos. — Tu sabe exatamente quem é essa mulher e o onde ela mora? 

— Saber eu sei, mas é aquilo, ela é uma senhora, dona de uma igrejinha ali na subida...

— E o Pirraça se importa com ela? 

— Ele tentou visitar ela uma pá de vezes, mas ela não recebia, ou quando recebia, não deixava ele ficar muito. — Contou um outro homem que tava na sala. 

— Tá, eu não quero mexer com essa senhora. Eu não sou um monstro que nem o bostinha que ela criou... mas ela é a chave. — Engoli em seco. — Se eu usar essa dona como isca, eu vou acabar com a vida dela. 

— Guerra é guerra, Nina. — Meu tio falou. Eu tinha que tomar aquela decisão, ele sabia e tava deixando na minha mão. — Se tu não fizer, alguém vai fazer. Ele vai fazer. 

— Ele anda com bloqueador de sinal? — Perguntei, olhando pros homens da sala. 

— Não andava antigamente não, mas é capaz de usar hoje em dia. — Absorvi a informação que me foi dada por um outro dos homens da sala. 

— Porra, não importa, ele sairia do alcance pra falar. — Falei comigo mesmo. — Aí eu consigo pegar ele no pulo, conheço quem faça triangulação de sinal. Consigo saber onde ele tá se escondendo... esse merda.  

— É essa parada, Índia. — Um deles concordou, com satisfação nos olhos. 

Troquei mais uma ideia rápida com eles, mas logo a hora no relógio saltou aos meus olhos. Já tava pra dar 4h e eu tinha que voltar. 

— Tô metendo o pé. — Falei, fazendo um sinal para a garrafa de Whisky que tinha no armário do meu tipo. — Pega aí pra mim. 

— Já vai vazar? — Rogier estranhou. 

— Eu tenho hora, tu sabe bem, tio. — Falei, derramando o conteúdo da garrafa num copinho de shot e virando tudo de uma fez. O bagulho desceu ardendo horrores pela minha garganta, mas é isso aí. Eu precisava de um álibi e precisava relaxar. Eu tava ficando uma pilha com tudo o que tava acontecendo. — Se liga, tu guarda essa senhora como se ela fosse sua vida. Não deixa ele tomar a posição onde ela tá de jeito nenhum. — Fui instruindo o Rogier, enquanto já preparava o segundo shot. — E não deixa ela perceber, não quero assustar a coitada. Enquanto isso, quero alguém de confiança pra perto dela. Vocês... — Apontei pros outros homens que estavam ali. — Tem ninguém que namore, ou tenha uma mãe, uma tia, lá na igreja dela não? — Perguntei.

— Não, po, mas dá pra arranjar. Tu não quer uma novinha crente não? — Brincou um deles com o colega ao seu lado. 

— Gosto disso aí, pra tudo se dá um jeito. — Brinquei, virando mais uma vez o copinho na boca. — Porra ruim do caralho. 

— Tu quer que seja bom como desse jeito ai? Tá quente que nem mijo isso, Nina. — Rogier riu da minha cara e eu fiz uma carranca pra ele. 

— Ajeita esse bagulho aí, valeu? Uma pessoa lá com ela. Até o final dessa semana a gente dá um jeito nessa situação. O Pirraça tá com os dias dele contados nesse morro aqui. — Falei, antes de virar o último copo e me levantar. Quase vomitei a porra toda, tamanha ruindade que tava na minha língua. — Merda seca. 

Fui descendo e junto comigo, todos os outros. Me despedi do meu tio, que dedicou uma parte dos seguranças dele pra me levar até o pé do Santa Teresa em segurança, onde eu podia pegar um Uber de volta. Eles ficaram comigo, conversando, jogando conversa fora, até a hora que eu embarquei de volta no carro e rumei de volta pra Rocinha. No horizonte, a lua ainda brilhava.



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Agora vamos pra parte que eu sei que vocês querem de verdade, ver o meu (nosso) grande amor Barbás...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora