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—  Sério? — Minha voz saiu só um sussurro e eu até sentei, sentindo uma onda de alívio me deixar tonta. — Ela pode fazer o procedimento?

— Pode, é aquele que a gente conversou, Nina, com doador haploidêntico. Ele tem um risco maior do que o de um doador 100% compatível, mas muito menos risco do que esperar indefinidamente por um, enquanto a saúde da Maria de deteriora. — Começou dizendo. 

— Fala minha língua aí, doutor. Que que é uma porra haploidêntica? — Barbás não falou com grosseria com o Gui, mas ele tinha um jeito meio bruto de falar. Era o jeito dele. 

— Um doador haploidêntico é alguém que tem a medula 50% compatível com o paciente. — Ele até tentou, mas o Barbás seguiu com um ponto de interrogação na cara. 

— Pai e mãe, Barbás. Eu não posso por causa daquela condição autoimune que eu tenho, então você é o doador haploidêntico da Maria, entendeu? — Intervi pra cortar logo pro ponto que importava. — É a sua medula que ela precisa. A gente tinha falado um pouco sobre isso antes, tu lembra? 

— Lembro, né? É por causa disso que tu voltou pra cá. — Ele pareceu meio mexido por voltar à esse assunto sensível logo tão cedo. Com a Ísis no colo, ele sentou no sofá perto de mim e fez um sinal com a cabeça pro Gui. — O que que tenho que fazer pra salvar a vida dela? — A firmeza na voz me mostrou a sua determinação. 

— Então... é... — Guilherme coçou a cabeça, parecendo desconfortável pra porra por estar ali, falando com o Barbás. Também, né, pudera... se fosse eu, taria muito puta pela graça que ele fez. — Você vai tomar uns soros que vão aumentar sua produção de células tronco por uns dias e, depois, a gente te interna e faz o procedimento de retirada da sua medula. 

— Me internar? — Will passou a mão no rosto e me olhou de canto muito rapidamente. — Como que é isso aí, irmão?

— Você toma uma anestesia e o cirurgião faz a punção da sua medula com uma seringa... 

— Anestesia? Cês vão me apagar? — Senti a insegurança do Barbás gritando dentro dele. Não devia ser fácil pra ele se deixar a mercê, em um hospital, sendo procurado e valendo alguns milhares de reais de recompensa na polícia. Além disso, tinha a Rocinha e todas as outras favelas que tavam no controle dele. A última vez que ele tinha confiado as costas dele à alguém de fora, as coisas não saíram nada bem. Ia ser um sacrifício e tanto pra ele. Meu coração implorou que ele não desse pra trás agora. 

— É, o procedimento padrão é feito com anestesia geral, mas dá pra fazer com epidural, aí você não apaga, mas não vai sentir suas pernas. — Explicou Guilherme. 

Barbás deu uma risada de puro nervoso, negando com a cabeça. Eu me senti muito merda de pedir pra ele se colocar plenamente nas minhas mãos, e nas mãos dos meus amigos, novamente. Porra, fazia só algumas horas que a gente tinha decidido se perdoar e seguir em frente. Tava muito cedo pra eu propor algo assim pra ele... 

— Eu odeio hospital, irmão, pra falar a verdade, eu não posso nem sair daqui da favela. Eu sou procurado, caralho, eu fugi da minha condicional. Tenho mais uns anos de fechado pra pagar, não tenho como descer pra cadeia de novo não. — Ele começou e eu engoli em seco, sentindo a garganta arranhar. 

— A gente pode ver isso, eu posso te ver documentos falsos e o Guilherme já tem um monte de contatos no INCA, o cirurgião que vai fazer o procedimento é um conhecido nosso de longa data... — Comecei a detalhar a situação favorável que tínhamos, mas a realidade é que nada disso era uma segurança de verdade pra ele. 

— O procedimento é muito rápido. Em duas horas a gente já coletou a medula e não vai te trazer prejuízo nenhum de saúde. É só questão de esperar a sedação passar e te liberar. — Gui me ajudou. 

— Na verdade, nem precisa esperar. Eu quero tirar ele de lá assim que acabar o procedimento pra minimizar o risco, a gente precisa ser muito discreto quando entrar e sair com ele de lá... — Disse diretamente pro Guilherme. — Eu posso ficar com um carro do lado de fora, acabou a coleta, traz ele que a gente só vaza de volta pra Rocinha. 

— Dá pra fazer, Nina. Eu faço a coleta junto com o um colega e dou um jeito de liberar ele. — Confirmou. 

— Caralho. — Eu vi ele suspirar e, suavemente, colocar a Ísis sentada no sofá, levantando-se em seguida. Vi seu olhar perdido, agoniado, e meu coração partiu de novo. — Irmão, ninguém pode saber que eu vou estar num hospital, apagado, por 2 horas, ninguém. Nem os cana, nem os amigo aqui da favela, ninguém, irmão, ninguém... ou eu tô fodido. Mas, porra, como eu vou meter minha cara num hospital lá na puta que pariu sem ninguém me ver? 

— Calma, William, eu... — Parei no meio da frase, sabendo que não adiantava eu falar nada. Aquela era uma decisão muito difícil e eu entendia ele até o último fio de cabelo... 

— Mano, eu preciso de um tempo pra pensar no que eu vou fazer, beleza? Tem muita coisa, muito detalhe que tem que pensar antes de só me jogar assim. Minha cabeça tá muito na reta, me arriscar desse jeito aí e colocar o pescoço no tronco pra algum fodido vir e cortar. — Barbás disse e eu murchei por dentro, sem me deixar abater por fora.

— A gente só precisa de uma resposta concreta sua, porque o procedimento que a Maria vai fazer é muito, muito complicado. Se você disse que sim, ela vai começar uma tratamento que vai destruir a medula dela. Depois que isso acontecer, ela vai precisar de uma medula pra repor ou ela vai morrer. — Ele usou aquele tom incisivo, pesado, de médico. Sabia que era necessário, mas foi um negócio que deu um soco na cara de todo mundo que tava ali. Eu serrei os punhos com força e senti a Ísis se apertar contra mim, enquanto o Barbás paralisou no lugar, fechando os olhos. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora