149

2K 179 11
                                        

[...]


O dia amanheceu e o sol rasgou no céu. Russo e Larissa tiveram que sair pra ir cumprir a missão deles, Dalila foi pra casa, dizendo que tinha que falar com a mãe de santo dela pra fazer uma oferenda aos guias dela, para que intercedessem por mim. Eu consegui tirar um cochilo depois que eles saíram. Subi pro quarto da Ísis e me permiti descansar agarrada com ela. Sentindo o seu cheirinho... o seu abraço forte no meu pescoço. 

Eu não conseguia entender o que seria deixar ela. Era por isso, por ela, que eu ia lutar com unhas e dentes para que tudo acabasse bem. Ela precisava de mim e eu precisava viver. 

O dia que tinha começado ia ser longo. Difícil. 

Eu e a Ísis ficamos sozinhas ali no quarto durante a manhã toda, eu trouxe café da manhã pra nós e ficamos juntinhas o tempo todo. Com a porta fechada, aquele quarto parecia um mundo a parte. Só eu e minha princesa. 

— Minha menina... a menina dos meus sonhos. — Murmurei pra ela em um momento em ela estava no meu colo, deitada, vendo um filminho que nós duas gostávamos. — Você é a minha vida, o meu mundo inteiro. Minha princesa dos olhos castanhos. — Beijei sua testa, depois seus cabelos, seu rostinho toda. A única coisa que fazia eu ter medo de enfrentar tudo o que viria pela frente era ela. Eu não queria ter que deixar ela quando minha criança precisava de mim. É claro que teria um monte de gente pra cuidar dela, mas nenhuma seria a mãe dela. Nenhuma amaria ela como eu amava, daria a vida por ela como eu estava disposta a dar. 

— Eu te amo, mamãe. — Ela disse, alheia de tudo o que acontecia. Aquilo fez o meu coração arrebentar inteiro dentro do meu peito. Chorei em silêncio, deixando uma ou outra lágrima escorrer sem que ela notasse, sentindo o medo me corroer como ácido. Eu não podia deixar ela sofrer, meu Deus. O que eu faria? 

— Você... mora dentro do coração da mamãe, você sabe disso, né? — Puxei o rostinho dela pra que olhasse pra mim. Seus olhinhos brilhantes tão iguais aos do seu pai. Olhos que derretiam o meu coração, não importava em que rosto estivessem... fosse no dela, no do Pedro ou no do William. — Você mora dentro de mim, bem aqui. — Coloquei a mãozinha dela sob o meu peito esquerdo, em cima do coração. — E eu também moro aqui, no seu coração. Eu sempre vou estar aqui pra você. Você sempre vai me ter bem aqui. Sabia? — Coloquei a mão sobre o coraçãozinho dela também.

Ela não disse nada, mas me apertou forte e ali ficamos, assistindo ao desenho juntinhas.

Lá perto do meio dia, alguém abriu a porta. Eu demorei a perceber o Barbás na porta, já que eu e a Ísis estavamos jogadas no chão, ela deitada por cima de mim brincando com um negócio no tablet dela, enquanto eu fazia um carinho nos seus cabelos com a unha. Olhei nos olhos do William pela primeira vez em alguns dias. 

— Tem almoço. — Ele disse, num tom baixo. 

— Eu não tô com fome, mas pode pedir pra Madalena trazer pra Ísis comer?

Ele concordou com a cabeça e deu meia volta. Um tempinho depois, ele voltou com uma bandejinha rosa, com um prato, talheres e uma canequinha da mesma cor, de plástico, e colocou na frente da Ísis, que sentou do meu lado pra pegar as coisinhas pra comer. 

— Isso eu nunca vi. Você comprou pra ela? — Perguntei. 

— Comprei essa semana com as coisas pro quarto dela. — Disse meio apático. Ele sentou na cama e ficou vendo a Ísis comer. Sentei do lado dele, sabendo que ela já conseguia se virar sozinha com a comida. As vezes ela se embolava com a colherzinha e eu tinha que ajudar, mas, em geral, era já era super desenvolvida nisso. 

Ele ficou quieto observando ela e eu também. Silêncio, só vendo ela pegar a comida com a colherzinha e colocar na boca. Ali, ela parecia tão independente, tão crescida, tão menina... Apertei os lábios uns contra os outros e fechei os olhos, apoiando a cabeça nas mãos por um momento. Dor. Deixar aquela casa hoje ia me causar muita dor. 

— Tá com medo? — Ele perguntou num tom baixo. 

Endireitei a coluna e só olhei pra cara dele, sem responder o que ele tinha me questionado. Voltei a olhar pra Maria Ísis. Eu tinha medo por ela. 

— Vou mandar virem te pegar as 16h. — Avisou, olhando fixamente pra mim. Ele tava tentando me ler, eu sabia. Eu não tava dizendo o que tava acontecendo dentro de mim, então ele tentava descobrir por outros meios. — Tu tá pronta?

Suspirei, sustentando o olhar dele com coragem. Não sei quanto tempo ficamos olhando um pro outro, mas, em algum momento, a mãozinha da Ísis agarrou minha perna e meu corpo me traiu. Senti me queixo tremer e meus olhos arderem. Lágrimas começaram a se formar nos meus olhos e eu me recolhi imediatamente. Afastei meu corpo do Barbás, sem sair do lugar. Virando pro outro lado pra esconder aquela umidade nos meus olhos. 

— Marina... — Ele disse, pegando no meu braço pra me puxar de volta. Eu coloquei uma mão no peito dele, empurrando-o pra longe. 

— Não. — Disse com firmeza. — Não, me deixa. 

Ele não deixou, é claro que não. Com a outra mão, ele segurou minha minha mandíbula e virou meu rosto pra ele.

— Sai, Barbás. — Empurrei ele com as duas mãos, olhando pra baixo. Lutei contra a proximidade dele. — Você quer me olhar pra que? Quer me ver chorar? Quer me ver fraca por quê? — Falei alto, em um rompante. 

— Para de ser assim, porra. — Ele falou no mesmo tom que eu. Por um momento, a gente esqueceu que a Ísis tava ali e começamos a falar alto um com o outro. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora