106

1.9K 146 1
                                        

[...]



[NINA]



O dia já tinha começado com o pé esquerdo. Acordei cedo, mas passando meio mal. Sei lá, já levantei indisposta naquele dia. A Madalena também tava se sentindo meio resfriada, tava meio xoxa também e, por ela já ser uma senhora, eu me senti na obrigação de ajudar. Dei uma geral na cozinha com ela, sentindo alguma coisa esquisita no meu estômago, uma ansiedade meio sem explicação que tava se agarrando no meu peito. Foquei em deixar a cozinha brilhando e tentei ignorar aquele sentimento estranho. A inquietude me pegou legal naquela manhã, coisa que não tinha acontecido nem mesmo antes, quando eu pensei que tinha chegado o mais perto da morte que eu tinha ido na minha vida toda.

— Acho que eu vou ligar lá pra casa, ver como tá minha filha. — Me veio um ímpeto de ligar pra minha mãe e perguntar como tava indo a Maria. Sempre que eu me sentia ansiosa, o que acalmava meu coração era ela.

— O Barbás tá recebendo gente aí na sala, minha filha. Não é o caso de tu esperar um pouco? — Pediu com os olhos amendoados.

Dei uma ligeira checadinha no corredor, vendo ele se movimentar próximo ao bar como um predador acuado. Ele tava meio puto, dava pra ver pela expressão corporal, apesar da face continuar serena como sempre. É, talvez não fosse mesmo uma boa hora. Nos primeiros minutos eu fiquei na minha ali, como era sábio fazer, mas depois, o mosquitinho imaginário que não tava me deixando em paz me fez ignorar o 'sensato'.

— Onde cê vai, dona Nina? — Madalena me olhou em advertência, parecendo cansada, quando me viu ir na direção do corredor. Fiz um sinal pedindo silêncio pra ela e lentamente eu caminhei até a sala, esperando interromper "sem querer" a reuniãozinha pra dar uma ligação lá pra casa. Queria escutar a voz da minha neném, saber como ela tinha acordado hoje... porra, eu tava morrendo de saudades daquela espevitada. Até das malcriações eu sentia falta. Minha garotinha me completava, ela era meu xodô, meu maior tesouro... Tudo o que eu tinha na vida.

— É na tua área ai, ali na esquina da República com a Barata. — Assim que eu botei o pé no corredor, eu ouvi o que o Barbás falava no telefone. Parei no lugar na mesma hora. Rua República do Peru e a Barata Ribeiro, era um Copacabana... o apartamento da minha mãe. Gelei na hora. Eu nunca tinha dito aquela informação tão precisamente pra ele.

E parece que eu tava pressentindo, alguma coisa tinha ali. O que ele queria com a minha mãe? Como ele tinha descoberto aquilo? As palavras que ele dizia me paralisaram inteira, de cima abaixo, congelaram meu sangue nas veias... Pisquei, engolindo em seco e me apoiando na parede, continuando a receber aquelas informações que ele, mesmo sem querer, tava me dando.

— Eu tô ligado... eu sei, comandante. — Explicou, dando um soco no balcão. — Eu tô ligado, eu tô ligado. Aqueles duzentos paus lá que tava combinado... — Vi ele engolir em seco, meio contrariado. — Tá, eu pago essa porra. Mando irem te entregar teu dinheiro ainda hoje aí. — Falou. — Não tem ninguém meu dentro do apartamento, tem como relacionar em nada com meu pessoal. Se tu descobrir de onde eram os filhos da puta, bota na conta deles... Só tem uma pessoa minha lá e o resto não tem nada a ver. Quero só tirar eles de lá... Não, não tem a menor condição, tem uma criança pequena nesse rolo, ela tem problema de saúde... Dá pra ver isso.

Eu quase infartei quando ouvi as últimas partes. Sem pensar direito a respeito, eu caminhei quase como um zumbi para a sala, com uma expressão chocada no rosto. Óbvio que ele me viu quando eu apareci no portal da sala, parecendo que tinha visto um fantasma. Senti minha garganta secar na hora e minha mão tremular.

— É da minha filha que tu tá falando? — Perguntei, apontando um dedo sem firmeza alguma pra pessoa dele.

— Então beleza, arrola isso ai. Vou desligar aqui e a gente vê quando tiver tudo firmado. — Falou, tirando o celular da orelha e jogando no sofá. Não obtive nenhuma resposta pra minha pergunta de imediato, ele só respirou fundo e me deu as costas, com as duas mãos na nuca.

— Barbás, eu sei onde fica o lugar que tu falou, eu sei o que tem lá. O que aconteceu com a minha filha? — Eu senti meus olhos arderem elas lágrimas que eu não derramei. — Minha mãe, meu irmão, todo mundo que eu amo...

— Preciso de informação tua primeiro, tu vai me ajudar a resolver essa cagada. Vem cá. — Mandou, batendo a ponta dos dedos no balcão do bar.

— O que aconteceu, cadê a Maria? — Perguntei já me sentindo em pânico. Passei a mão nos olhos em agonia, quase. Eu queria notícias da minha filha pra ontem.

— Eu não sei, porra. — Respondeu meu ríspido. — Mataram gente minha lá em Copacabana, entraram no prédio da tua mãe e a única que tava lá por perto era a Larissa. Não sei que porras deu, mas o Russo já tá indo pra lá.

— Meu Deus... Meu Deus, caralho. — Eu tava pra entrar em parafuso legal. — Eu tenho que ir pra lá.

— Tu tem que ficar aqui e me ajudar a ajudar eles lá nessa porra. Vem, bora. — Me chamou pela mão. — Eu quero todas as saídas daquele prédio. Quero saber onde fica o sistema central das câmeras de lá, pra passar pro comandante da DP... Eu tenho que ir levantar o dinheiro daquele merda lá, então, bora.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora