Prólogo

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[FUTURO]

Apontei a arma pra ele, sentindo o meu lábio inferior tremer de raiva e tristeza. Ele me olhava com zombaria, um sorriso de canto no lábios e uma expressão desafiadora. Pra qualquer outro, ele estaria brincando, jogando comigo, mas eu o conhecia bem demais pra saber que era dissimulação. Nos seus olhos tinha muito ódio e rancor... direcionados à mim. Engoli em seco, tentando manter a firmeza na voz e nos dedos. Dentro de mim, um turbilhão de sentimentos se amontoavam e vinham como ondas, fazendo as primeiras lágrimas solitárias rolarem pelo meu rosto sem que eu pudesse fazer nada pra conter.

Ele andou lentamente na minha direção, sob a mira da pistola, me testando... desafiando a atirar nele. Destravei a arma com arma e comprimi os lábios, com o dedo no gatilho. Eu sabia que se deixasse que o Barbás se aproximasse demais, ele ia me desarmar. Se eu não conseguisse parar ele, ele ia me parar. Meu corpo todo me alertou que era questão de sobrevivência e eu senti os meus dedos gelarem. Eu deveria ter apertado o gatilho. Devia... mas não consegui. Eu senti vontade de me matar por ser tão fraca.

— E ai, Marina... Qual vai ser? — Ele meteu a mão no cano da minha pistola e eu me assustei, tirei até o dedo da alça, senti o aperto na empunhadura afrouxar, apesar de não ter largado a arma em momento nenhum. Ao contrário do que eu achei que faria, William colocou a arma contra a própria testa e me sorriu. — Bora. — Desafiou.

Eu vacilei, pisquei, passando o dedo pela alça e a alavanca do gatilho. A umidade que se acumulava nos meus olhos me incomodou e eu passei a mão livre pra limpar.

— Bora! — Gritou comigo e eu fiquei puta. Com a força do meu corpo, empurrei ele pra longe de mim, voltando a apontar a arma pra cabeça dele, que riu. Ele já tinha entendido que eu tinha falhado... dentro de mim, eu não consegui... Dentro de mim, tantas lembranças borbulhavam, tantos sentimentos... ainda existia alguma coisa ali, bem ali dentro de mim, que batia por ele. Eu me senti horrível por descobrir, naquele momento, que o tempo não havia mudado nada. Ao menos não pra mim. — Fraca.

Na minha distração, ele bateu a mão na pistola, jogando minha mão pro lado e vindo pra cima de mim. Com o antebraço no meu pescoço, ele me imprensou na parede, querendo me imobilizar. Ali, a raiva e o rancor que eu vi nos seus olhos me consumiram também. Bati a parte debaixo da arma na abdômen dele, dando uma joelhada na sua barriga. Dali, eu não consegui mais parar. Empurrei ele de novo, aproveitando o momento de desestabilização dele. Eu queria revidar tudo o que ele tinha me feito, revidar toda a raiva que eu sentia por ainda amar aquele filho da puta, eu queria... dei tapas de mão aberta no peito dele, não pra machucar, mas pra desabafar, pra punir ele por um sentimento que eu não podia controlar, principalmente, punir ele por ter me feito fraquejar... Eu queria matar ele, queria acabar com ele, mas eu não conseguia e isso me enfurecia até o último fio de cabelo.

Ele me segurou pelos braços, tamanho o meu descontrole e passou por trás de mim num movimento extremamente rápido, passando meus braços para as minhas costas e levando nós dois até o chão, terminando por me imobilizar de novo.

— Eu que fui a porra do seu professor. Foi eu quem te ensinou tudo o que você sabe... — Murmurou próximo do meu ouvido. — Tu acha mesmo que...

Ele afrouxou o aperto de novo e eu não entendi o motivo, mas não perdi tempo. Soltei meus braços e cotovelei sua costela, rolando pra sair do seu cerco e pra chegar mais perto da minha arma. Peguei a pistola, apontando pro rosto dele de novo, enquanto sentia toda a adrenalina me varrer o corpo. Na mesma hora, ele também tirou a arma dele da cintura e apontou pra minha cara também.

— Fraco é você. — Gritei pra ele, me sentindo completamente descontrolada emocionalmente. Eu via ele desviando os olhos o tempo todo para o lado e aquilo me incomodou. Ele não tava me levando a sério, mais uma vez, ele não tava me vendo como alguém à altura dele. Arrogante, prepotente, filho de uma puta...

Enquanto nós estávamos concentrados em ameaçar a vida um do outro, compartilhando aquele sentindo intenso de rancor, nós ouvimos um choro... Um choro de criança. Me levantei o mínimo pra conseguir enxergar a silhueta pequenina na porta. Os olhos do Barbás se arregalaram, notando a menininha chorosa e assustada, com o rosto vermelho e com o desespero visível nos olhos. Maria estava parada na porta, nos observando e chorando, gritando, chamando por mim... Aquilo me desarmou por completo e, pelo olhar dele, tinha o desarmado também.

— Mãe... — Murmurou a minha menina, com a voz aguda pelo choro. A nossa menina...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora