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— O Pedro tá quase da minha altura. Isso é muito inaceitável, na boa. — Nina veio pra perto da gente com a Maria Ísis abraçando a perna dela. — Você cresceu muito e tá tãããããão bonito. — Ela falou, enchendo ele de beijo na bochecha. Vi ele ficar vermelho com o carinho dela. 

— Coé, Pedro. — Dei um tapinha nas costas dele, vendo ele ficar com vergonha. 

— É assim mesmo. Beijo de mulher bonita deixa com vergonha, né não, filhão? — Foi a Larissa que falou, vindo do portão. — Cheguei pro churrascaldo da grande família. 

— Pera ai, tu tá cantando a Nina? — Eu ri da Larissa, ela era muito sem noção, puta que pariu. 

— Eu? — Ela botou a mão no peito, fingindo estar ofendida. — Eu não, po. Longe de mim querer ficar cantando sua mulher, relaxa aí. — Ela passou por mim com a cara mais deslavada do mundo depois de dizer essa porra em voz alta, na frente de geral. 

— Que minha mulher o que, porra — Olhei feio pra ela, que virou pra trás pra me olhar. Nina pareceu engasgar e começou a tossir. 

— Olha aqui ô... — Ela puxou a pele embaixo do olho pra baixo com o dedo. — Esse aqui é irmão desse aqui. Vocês ai não me enganam não. Vão fazer charme pra outro, valeu? — E saiu rebolando e puxando o Pedro pela mão pra lá. 

— Eu ainda vou mandar dar uma surra bem dada nela. — Neguei com a cabeça, cruzando os braços no peito. 

— Vai nada. — Nina parou do meu lado, pegando a Ísis no colo. — Se não fosse por ela só Deus sabe como o meu bebê estaria agora. — Ela apertou a menina, beijando ela. — O nosso bebê, né? Essa dívida ai eu e você nunca vamos poder pagar pra ela. Ela salvou a Ísis... até se ela me pedir o cu, eu dou. 

— Não dá essa ideia pra ela não. — Brinquei, voltando andando pra parte de trás da casa. Marina me passou a Maria Ísis enquanto a gente voltava, porque ela não tava mais aguentando pegar no colo. — Fraquinha demais, né não, filha? 

— Fraquinhaaaaaaaaa. Mamãe fraquinha. — Ela começou a zoar a Nina comigo e eu não aguentei. Ri pra caralho com ela, quando a Marina saiu putassa na frente. Eu ia estragar muito essa menina. 

Passei na cozinha com ela e vi que as duas meninas que eu tinha contratado pra fazer o almoço tavam quase acabando. As travessas de arroz, de molho à campanha, de feijão, de farofa já estavam todas prontas. Elas tavam fazendo só o doce pra depois agora. Fui pra churrasqueira com a Ísis e pedi pra ela me ajudar a levar a carne no pessoal. Tirei uma das peças, que seria a mal passada, cortei rapidão com a faca novinha que eu tinha comprado e coloquei numa vasilha pra ela levar. Enquanto isso, fui colocando umas linguiças na brasa e vendo como tava as outras carnes. 

O dia tava diferente. Era estranho, irmão, tudo parecia mais brilhante. Sei lá, tava começando mó papo gay dentro da minha cabeça, mas a real era essa. Eu tava muito feliz, tudo parecia maior, melhor. E não era o mundo que tava diferente. Tudo continuava igual ao redor daquela casa, como sempre foi, uma selva onde o lobo maior comia o menor. Quem tava diferente era eu. Eu sentia minha vida, o meu coração mudando dentro do meu peito... e não doía. Era uma passagem suave, tranquila. Tudo que estivera fora do lugar, agora parecia estar se encaixando lentamente. 

Eu não sabia como eu voltaria a viver como antes, agora que eu tava provando de novo o gosto doce da felicidade. Eu não queria voltar a me sentir vazio, agora que eu sabia como era me sentir cheio. 

Só que tinham coisas maiores que eu que me puxariam de volta pra dureza. Eu tinha que ser duro se quisesse proteger a minha família e a Rocinha. Eu não podia fraquejar. 

Eu não podia, mas vendo a Nina com a Maria ali, junto com a Larissa e o Pedro, todos eles juntos, rindo e brincando... eu sabia que eu não podia falhar com eles. 

A Marina fazia parte deles. 

De nós. 

Eu tinha uma bomba relógio nas minhas mãos e, pela primeira vez quando se tratava de um assunto da Rocinha, eu não sabia o que fazer. 

Eu tava perdido, irmão. E ia ter que tomar uma decisão que, de um jeito ou de outro, ia ter impacto sobre todo mundo que tava ali. De todas as maneiras, o julgamento da Marina ia mudar a vida de todos nós. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora