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— Amor. — Chamei ela, passando a mão na lateral da sua cabeça e colocando seus cabelinhos rebeldes atrás de orelha. Ela se afastou e se pôs de pé direito pra me olhar. — Senti sua falta. — Não era bem isso o que eu queria dizer, mas foi tudo o que meu coração conseguiu dizer. Era a mais pura verdade.

— Eu também, mamãe. — Ela não sorriu, nem tava iluminada como sempre era. Eu me perguntava o quão estressante tinha sido aquela situação anterior pra ela. Neguei com a cabeça, com vontade de chorar, passando os dedos no rosto dela. — Não viaja mais, tá? — Não respondi e ela insistiu. — Promete, mamãe. — A voz aguda por causa do choro me fez puxar o ar asperamente pros meus pulmões.

— Filha, não é assim que as coisas funcionam... — Comecei e ela já me cortou com um engasgo de choro, levando as mãos aos olhos de novo. — Tá, tá bom, olha aqui. Para de chorar e olha aqui, boba. — Mandei, segurando os pulsos dela. — Mamãe tá aqui e não vai viajar por enquanto. Tudo bem?

— Mas promete? — Ela insistiu nisso. Eu não queria prometer, porque sinceramente? Eu não gostava de mentir pra ela e nem tinha certeza de nada. Como eu ia garantir uma coisa que nem mesmo eu sabia?

— Tá, mamãe promete por enquanto. Tá bom assim? — Eu queria acalmar o coração dela, queria que ela relaxasse e ficasse mais aberta pela longa conversa que a gente tinha pela frente.

Maria concordou com a cabeça e me abraçou de novo. Eu desci meu nariz e cheirei ela, passando a mão nas costas dela. Não me atrevi a olhar pro Barbás... dessa vez, eu não tinha coragem pra saber quais sentimentos ele deixava transbordar pelas suas íris.

— Tá tudo bem agora? Cê tá se sentindo bem? — Perguntei pra ela, quando se afastou de novo. Maria concordou com a cabeça, estranhamente silenciosa. Eu sentia falta da sua energia e vibracidade... ah, a minha menina brilhava em muitas cores, tamanha a sua alegria. Sua estrelinha tava meio apagadinha hoje. Era por isso que eu queria tanto evitar que ela passasse por coisas como a que tinha acontecido. Era por isso que eu não queria voltar pro Rio, em primeiro lugar. Foz era uma lugar constante, seguro... ali era tudo intenso demais. A última coisa que eu queria era que ela fosse pega no meio do meu furacão. — Não tá feliz de estar com a mamãe?

— Tô, mãe. — Ela respondeu, levando a mão à face de novo. Ela também tinha aquela mania insistente de passar a palma no rosto quando estava nervosa. Aquele era um gesto meu, que eu tinha roubado do homem à minha frente...

— Então bora melhorar essa cara, meu amor. Já passou, ó... passou. — Gesticulei pra ela, que voltou pro meu lado, agarrando meu braço. Ela tava num contato físico tão intenso comigo que eu me perguntei o que estava motivando aquilo... Ela estava com medo? De quê? De estar num lugar desconhecido depois de todo o sufoco que passaram? Ou de me perder de novo? — Ô, vamo tomar um banho pra mamãe ver se tá tudo jóia contigo e depois a gente vai brincar, pode ser? — Perguntei, esperando pra ver a reação do seu rosto. Como eu esperava, um lampejo de sorriso apareceu em seu rosto quando eu mencionei a bagunça que ela tanto gostava.

— A gente vai ficar aqui, mãe? — Perguntou, olhando ao redor da sala do Barbás. Os olhinhos curiosos varreram o ambiente todo, evitando a mirada do Barbás. Ela tava com medo dele? Não que fosse surpresa, ele era meio assustador as vezes mesmo. Só que, né? Isso era um problema do caralho. Como eu ia fazer eles se darem bem? Se reconhecerem com pai e filha? Como recuperar todo o tempo perdido?

— Vamos, minha filha. É bonita a casa do tio, né?! — Perguntei, sabendo que ela provavelmente ia gostar de como as coisas se pareciam por ali. Me lembrava bastante a nossa casa em Foz, só que com um toque bem menos rustico e mais... luxuoso? Moderno? Não sabia descrever bem o gosto pra decoração do Barbás. — Aqui é grande, dá pra gente brincar de esconde-esconde que nem a gente fazia lá no sítio, lembra?

Ela concordou com a cabeça, sem dizer muita coisa. Maria estava prestando a atenção nos detalhes da sala do Barbás. Subi os olhos pro Barbás, que parecia tenso. Muito tenso... e completamente sem reação. Quem diria que ele seria subjugado por uma garotinha, né? Eu podia imaginar as tantas expectativas que ele estava guardando no seu coração. Ele queria que desse certo... eu também.

— O tio vai deixar a gente ficar aqui o tempo que a gente quiser porque... ele quer conhecer você também. — Apontei pra ele e ela seguiu o meu dedo com os olhos. Ela o olhou diretamente e ele se abaixou pra encará-la na altura dos olhos, sem pronunciar uma só palavra. Sabia que ele queria dizer algo, já que abrira e fechara a boca algumas vezes sem deixar sair um som sequer... Que emoções inundavam seu coração a ponto de calar sua voz? — O nome dele é William, filha. — Sussurrei no ouvido dela.

— Oi... — Ela deu um tchauzinho discreto com a mão. — William. — Ele franziu as sobrancelhas, virando a cabeça alguns centímetros pro lado. Se não fosse o Barbás, eu jurei que ele choraria ali mesmo. Uma pena que ele soubesse se controlar tão bem a ponto de quase nunca deixar que emoções extremas o fizessem derramar lágrimas. Só que os olhos, as janelas da alma, não o deixavam me enganar. Ele tava todo derretido por dentro.

— Oi. — Sua voz não foi nada além de um sussurro.

— Maria Ísis, esse é o William. — Gesticulei na direção dele. — William, essa é a Maria Ísis. — E voltei o mesmo gesto amplo na direção da Maria.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora