— Qual de vocês que tão aqui hoje admitem que não teriam me dado a porra de um tiro na cara antes de escutar o que eu tinha pra dizer naquela época? — Perguntei quando derramei a última fotografia no chão. — O Mandarim fez tudo pelas minhas costas com o Parma, porque sabia que eu nunca deixaria ele fazer o que fez com o Barbás. O acordo que a gente firmou com ele era um, ele foi por outro caminho porque ele foi um filho da puta. Ele destruiu a vida de vocês por alguns anos? Eu sinto muito, mano, mas ele arruinou a minha pra sempre. Ele, meu próprio pai, me fodeu tanto quanto fodeu cada um de vocês, ou até mais, porque agora eu estou sendo culpada pela pilantragem dele aqui.
Cheguei a ficar sem fôlego de tanto que eu falei, mas eu não parei. Não consegui parar.
— Mais que isso, ele destruiu a minha família. Ele acabou com meu casamento, tirou a oportunidade da minha filha de ter um pai até agora. Tirou do Barbás 5 anos da vida da Maria Ísis. Tempo não volta, passou tá passado. Isso ninguém nunca vai conseguir devolver pra gente. Todos os momentos que ele nos roubou nunca vão voltar.
Aquela era a maior das dores, o machucado mais profundo. Foram 5 anos de merda. 5 anos que eu não conseguiria fazer voltar, eu nunca poderia voltar e consertar as coisas. Eu não podia me partir em duas pra reunir as duas partes de mim que ele tinha jogado um em cada canto, eu não podia estar em dois lugares. Como dizia meu tio, eu não podia abraçar o mundo só com meus braços.
— Eu sou mais vítima do que vocês foram, mas isso vocês nunca vão entender. Só estando aqui, na minha pele, pra entender. — Continuei, me sentindo profundamente cansada só por ter que remexer nessa história. — Eu acordei grávida, sozinha, num hospital, pra descobrir que meu marido tinha sido preso e que todos vocês... — Apontei pra cada um deles, girando para alcançar a todos que estavam sentados a minha frente. — ...iriam me caçar até o final porque achavam que eu era Judas.
Larissa tinha me recomendado várias vezes antes pra que eu não fosse agressiva, não perdesse a linha ali com eles, mas porra... eu tava com raiva. Cada pessoa que sentava ali hoje tinha uma parcela de culpa no resultado final que tinha levado todos nós até aquele momento.
— Vou voltar a repetir a pergunta que eu fiz antes, qual de vocês ia ter pensado duas vezes antes de ter me dado um tiro na cara depois que o Barbás caiu? — Perguntei, dessa vez mais incisiva.
Silêncio.
— Aqui ninguém tem pena de nego traíra não, Índia. — Um outro se pronunciou um tempo depois. — Tu também não teria dó de quem te traísse, é assim que a banda toca. Ninguém gosta de X9 e ninguém protege Judas aqui não.
— E se tivesse errado? Tu ia pegar de volta a bala que tu atirou em mim? — Retruquei na mesma hora. — Tivesse não, você está errado. Eu não ajudei o meu pai, como eu já disse, eu não sabia de nada. E aí? Tuas ideias erradas iam ter matado a mim e minha filha. Matado a mulher e a filha do Barbás, que é o homem que tu é leal hoje.
— Mas quem garante que a gente tá errado? — Ele insistiu em mim.
— E quem garante que tão certo? Tudo começou só com suposição, porra. Túlio escutou um negócio e você me jogaram a culpa sem nem ter me dado chance de explicação. Se eu não fugisse, se eu ficasse aqui, vocês iam ter me matado.
Na hora, minhas emoções me traíram. Era doideira seguir naquele ritmo com gente que ia votar pela minha vida, mas eu queria vomitar toda a minha raiva em cima deles, como eles vomitavam as acusações deles em cima de mim.
— Mais que isso, vocês não teriam nem dado a chance da minha filha nascer. Mesmo que vocês me matem hoje, eu já consegui o que eu queria. Eu fugi sim, mas não foi pensando em me salvar não, foi pensando dar a luz à minha criança. Eu quis dar a Maria Ísis a oportunidade de nascer. — Disse, me sentindo plena pela primeira vez. A culpa que eu carregava, agora eu jogava no colo deles. Eu tinha que tomar uma decisão e eu tomei. Eu escolhi salvar o meu bebê. Eu não tinha o direito de me arrepender disso. — Me matando hoje ou não, eu já venci. Minha filha tá aí, viva, feliz, crescendo mesmo com toda a dificuldade. Eu já venci.
— Marina. — Larica me parou, me interrompendo com a fala dela. Só pela expressão na cara dela, eu soube que ela queria me dar um soco. — Acho que qualquer um que é pai ou mãe aqui tá ligado nesse sentimento. Se tu tiver falando a verdade, o que eu acredito que tá, fica sabendo que no teu lugar eu faria a mesma coisa. E quem aqui falar que teria ficado, ou deixado a mulher grávida aí na pista pra morrer, pode pegar o filho e dar pra alguém que ama de verdade cuidar. Amor de pai, amor de mãe, bota o filho em primeiro lugar. Foi o que tu fez.
Ela se arriscou mais uma vez pra me defender. Eu não sabia bem quando esse sentimento tinha começado, mas eu amava a Larissa agora. Eu conseguia ver o coração enorme, justo, corajoso que ela tinha no peito e admirava isso nela.
— Mas não é assim não, ô Larica. Como que vira as costas quando um bagulho desse acontece? Injustiça quando rola, a gente fica desesperado pra correr atrás de se explicar. Como que só vai embora e que se foda?
— Tu ouviu alguma coisa do que ela falou, mermão? — O Russo se meteu pra me defender. — A gente que teríamo matado ela mesmo, porra, a sentença dela, a partir do momento que o Barbás caiu e ela ficou marcada pelo pai dela, era passar fogo mesmo.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
