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Corri pra perto dos meus amores, que estavam até agora na salinha a espera. Dei um super abraço na Dalila e o Russo chegou 2 segundos depois pra complementar. Nós 3, os irmãos que a vida tinha juntado, estávamos ali, vivos, forte e unidos, como sempre. Isso não parecia mudar nunca, independente do que viesse pela frente. No meio do nosso abraço, do nosso momento, pelo canto do olho eu vi uma figura loira nos olhando. Me afastei um centímetro somente pra virar meu rosto pra ele. 

— Larissa. — Chamei ela. — Vem cá, você faz parte da família agora. 

— Eu não... — Ela se fez de ofendida e ia saindo de fininho. Eu larguei os dois e fui lá buscar ela, trazendo arrastada pro nosso meiozinho ali. Queria que ela fizesse parte daquilo. As vezes eu achava a Larissa terrivelmente sozinha, mesmo que ela tivesse tão rodeada de gente. Larica era cheia de aliados, mas eu não via nenhum amigo entre eles. 

— Tá tudo bem, Lalá, a gente te aceita na família. — Russo brincou, bagunçando o cabelo dela, que deixou a loira muito indignada. Apertamos ela um momento ali, no nosso abraço. Quando largamos, ela tinha um sorriso muito mal disfarçado no rosto. 

— Palhaços. — Xingou, com as bochechas vermelhas. Branquela como era, tava na cara que ela tinha ficado com vergonha. — Vou ir em casa pegar minhas coisas pro baile. Mais tarde a gente se esbarra lá. 

Abracei minha mãe e meu irmão com força, até que ficamos só no 3 sobrando ali no ambiente. No fim, pedi o Russo pra levar minha mãe na casa que ela tava ficando e o Drei resolveu me dar uma carona até a casa do Barbás, que tinha passado por nós e sumido como fumaça, junto com o TK, seu fiel escudeiro. Lila fez questão de dar uma voltinha com o Gui pra mostrar a comunidade, antes de levar ele 

Enquanto eu subia na moto do meu irmão e ele percorria as ruas da Rocinha, eu me deliciava novamente com o vento batendo no meu rosto, chicoteando meus cabelos pra trás. Meu Deus, eu tava me sentindo ótima. Andando pela favela, agora como uma mulher livre novamente, conseguia aproveitar o sabor de cada coisinha, cada detalhe, cada gesto que antes eu me privava por medo. A liberdade era a melhor das sensações, aquelas vielas eram minhas de novo. 

Pulei da moto do Drei, pedindo pra ele passar ali com um carro às 22h, que eu ia levar as crianças, Isis e o Pedro, pra casa da minha hoje. Hoje eu ia liberar a Madalena e me permitir aproveitar um baile depois de tantos anos. Eu tava ansiosa, puta que pariu. No presente momento, eu tava sem um puto no bolso, até porque minhas contas e dos meus laranjas estavam com os cartões todos bloqueados. Depois que invadiram a casa da minha mãe, tinha ficado tudo por lá e ela, como minha procuradora, mandou cancelar tudo até que eu pudesse pedir cartões novos. 

Bom, não que isso fosse problema. Certeza que o Russo fortalecia essa pra mim e depois eu sacava e dava na mão dele. Fui seca pra casa, querendo falar com o minha menina e o Pedro, dar um beijão neles e um abraço bem forte, mas, infelizmente, os dois estavam dormindo que nem uns anjinhos no tapete da sala. Dei só um beijinho na testa deles e desliguei a TV que tava ligada num desenho aleatório lá. Madalena tava sentada no pé da escada, mexendo no celular. Combinei que ela podia ir pra casa às dez e contei as boas novas pra ela. 

Eu vi que ela ficou muito feliz por mãe, me abraçou tão ternamente que eu fiquei grata. Subi quarto que eu tava com a Maria pra tomar aquele banhozão. Me joguei na banheira e afundei meu corpo na água quentinha e perfumada do sabonete líquido. Eu sabia que tinha um milhão de problemas pra resolver, mas naquele dia, eu ia comemorar a minha vitória. 

A minha vitória... que o Barbás minha me concedido. Eu tinha que dar os créditos pra ele, porque sem a sagacidade dele... sem ele ter aberto mão do desejo cedo de vingança que ele tinha contra mim, agora eu estaria no fio da espada, na boca de uma arma. Ele tinha salvado minha vida, mesmo que no fundo eu soubesse que ele não acreditava plenamente nas coisas que eu dizia. Também... eu não dizia à ele todas as coisas sobre mim e ele parecia sentir que tinha algo faltando. Will sempre tinha tido faro pra isso, pra investigação, descoberta. 

A gente tinha que conversar, agora não na posição delicada que estávamos antes. Agora éramos iguais, podíamos sentar sem pendências e só falar abertamente sobre tudo. Era essa a expectativa que eu tinha. Esperava sinceramente que ele quisesse me ouvir. 

Meu coração estava quente, apertado, pelo gesto dele. O que ele tinha feito, apesar de tudo... Eu não entendia porquê, eu não me sentia merecedora. Talvez fosse pela Ísis, mas o meu coração egoísta queria que esse não fosse o único motivo. Queria que ele tivesse salvado minha vida porque ainda sentia todas aquelas coisas que sentíamos um pelo outro. Amor.

Eu e ele tínhamos perdido muito. A confiança, a parceria, a paz... isso tudo tinha ido embora há muito tempo. Quebrado de uma vez só quando nos separamos bruscamente pela força da maldade alheia.

...mas o amor. Eu não sabia se tinha morrido também. Dentro de mim, eu sempre o mantive perto, ainda que quisesse negar isso. Não quis deixar ele sair de dentro do meu coração, nem que eu tivesse que viver pra sempre só com a memória dele. 

Levantei minha mão esquerda, olhando o anel de brilhantes cintilando sob a luz da lâmpada branca do banheiro. Ele quis se livrar de mim, mas eu não. Me confortava pensar que na lei de Deus, ele ainda era meu... que podíamos estar há milhares de quilômetros de distância, mas William ainda era meu marido. Quando eu cheguei nessa favela, ele me recebeu como o pior dos inimigos e eu entendi que, ao contrário de mim, ele quis me expurgar da sua vida e do seu coração. 

Eu não podia culpar ele, mas aquilo me machucou além do que eu podia expressar em palavras. Doía olhar pra ele e ver ódio, raiva, amargura... doía mais ainda saber que a culpada disso era eu. A última coisa que eu quis era magoar ele, o homem que eu tinha amado mais que minha própria vida. Tinha esperanças que ele fosse entender tudo quando eu contasse da Ísis, mas o que encontrei foi uma muralha de frieza na sua fachada. 

Com as semanas passando, a nossa convivência forçada aumentando, eu comecei a entender algumas coisas sobre os meus sentimentos por ele e, até mesmo sobre o que ele sentia sobre mim. Eu simplesmente não podia negar que o que eu e ele tínhamos sentido, o amor avassalador que tinha nos carregado até aqui, andava se escondendo entre os véus das lembranças mais queridas que eu tinha. Não estava morto, mas machucado e escondido como um animal ferido. Nele, eu desconfiava que situação era mesma, mas as coisas eram mais complicadas, porque Barbás parecia simplesmente não aceitar aquele fato, colocando o seu coração em guerra e arrastando o meu pro caos no processo. 

Nossa convivência era explosiva. Brigas e sexo. Conexão e repúdio. Amor e ódio. Tudo misturado, coexistindo no mesmo espaço. Era infernal a nossa relação, tão conflituosa quando intensa, desde o seu princípio. Eu tinha vontade de amar aquele homem e socar a cara dele até virar geleia ao mesmo tempo. 

Tudo isso me deixava confusa pra caralho. Ele me deixava confusa. Eu não sabia o que pensar, o que sentir. Como eu devia conduzir o meu coração e os meus sentimentos daqui pra frente? Eu sabia que pra Ísis ele seria um ótimo pai, mas e quanto a nós? Eu queria deixar aquelas questões de lado, queria esquecer ele de uma vez por todas... mas parecia simplesmente impossível.

Soquei a água, fazendo ela espirrar no chão limpinho do banheiro. Eu estava cansada, irritada com meus próprios pensamentos... Porra, eu já tinha problemas demais pra ficar criando mais caso dentro da minha cabeça. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora