— Se vira, irmão. Tu é gerente, tua obrigação é botar a conta da boca pra fechar. Se tu acha que tu não consegue cumprir com a tua missão, me fala que eu arrumo outro. — Voltei a olhar pra ele, que negou com a cabeça. — Tamo de acordo? — Perguntei, ele não respondeu. — Tamo de acordo? — Repeti, caminhando alguns passos pra próximo dele.
— Tamo. — Concordou com a cabeça. — Perdão, patrão. — Não tinha verdade nenhuma na fala dele, mas eu não tava nem ai. Eu só queria a cabeça dele baixa, o resto, ele ia ter que engolir.
Dei as costas e saí, voltando pra minha moto com os seguranças. Dali, eu fui pro depósito ver como andava as coisas por lá, antes de voltar pro escritório. Liguei pro Homero pra ver como ia ficar a entrega dos dias seguintes. Enquanto isso, eu ia negociando com os fornecedores do Mato Grosso. Em pouco tempo, eu ia riscar o Paraguai da minha lista de problemas. Ia ser carta fora do baralho e minhas mãos iam estar soltas de novo.
[...]
— Por onde, Russo? — Perguntei, enquanto ele explicava como ia repartir as cargas que estavam pra chegar, pensando em reparar a Vila Verde e em redistribuir os 50% da 99. — Saquei.
— Esses eu sei que vai vender. Vende sempre. — Disse. — Ainda tem o baile pra fechar essa conta aí.
— Papo. Essa semana tem a roda de samba ainda. — Lembrei, estalando os dedos da mão. — Se programa pra mover a droga 2x essa semana, hein, irmão? Tem que endolar muito mais, cobra a Larica disso ai.
— Tá tranquilo, tô na atividade já. — Confirmou, levantando. — Ah... pô, Barbás, perdoa eu ter ido lá na tua casa, é que eu tava preocupado com a minha irmã. Porra...
— O que eu te falei lá ainda vale. Se pergunta com quem tá a tua lealdade. Se for com ela, tu some da minha favela, enquanto eu não tiver vendo. Te falo isso pela consideração que eu tenho por você. — Disse, jogando as costas no encosto da cadeira.
— Eu tô ligado e ainda tô aqui. — Ele concordou com a cabeça.
— Então, se liga. O assunto acabou. — Decretei e ele ia saindo, enquanto TK ia entrando. Nessa hora, ouvi uma rajada de tiro. Nós três paramos e nos entreolhamos. Mais uma rajada e outra... Ali perto da gente, na parte de trás da alta. Levantei e fui reto no meu rádio.
— Qual foi? — Chamei a tropa que tava na patrulha da hora. — Bora, qual foi isso ai? Tiro pra caralho.
— Patrão é lá no final da Estrada da Gávea, tamo indo lá. — Falou o que tava do outro lado da linha. Troquei a frequência pro pessoal da 99 e da Laborieux. — É aí? — Já perguntei de uma vez.
— Os fiel que tavam de olheiro aqui pegaram um grupo aqui, tão armado e trocando tiro. Bem no início da Gávea aqui de cima. — Contou.
— Segura ai. — Mandei, botando o rádio no mudo. — Russo, mobiliza os soldados todos da alta e manda pra lá. Pra agora, tá dado a ordem. — Disse, pegando a arma. — Vou lá com os meus seguranças dar um apoio enquanto isso. Se for o que eu tô pensando, é ponto meu.
Túlio, ao ouvir isso, deu as costas e foi reunir todo mundo, buscar pente e os suprimentos. A gente ia ser quem chegaria mais rápido lá. Em 5 minutos, subimos na moto e fomos seguindo o barulho das rajadas. A real é que ninguém tava esperando aquilo, pegou geral de surpresa e na vida manda. Há meses a favela tava na mais absoluta paz, sem um só foco de tiroteio. Alguma coisa tinha perturbado aquela calmaria...
Deixei os seguranças irem na frente, fiquei atrás do pessoal que tava fazendo a contenção. As pessoas me conheciam, geralmente quem era focado era eu, então tinha que ficar 2x mais na atividade. Com a arma na mão, eu fui espreitando pelos cantos, observando a situação do alto de uma laje da 99. Lá em baixo tinha uma 6 motos, com pelo menos uns 10 homens trocando tiro com os nossos ali, que queriam avançar pra pegarem eles.
— Russo, manda gente pra encurralar eles aqui pela entrada da baixa. — Sussurrei pro rádio. — Vamo enrolar eles aqui.
Não ouvi resposta dele, mas sabia que tinha escutado. Oculto por uma meia parede, atirei contra eles não pra matar, mas pra manter o efeito moral e deixar eles acuados, sem poder sair e fugir como ratos que eles eram. Queria saber de onde tinham vindo e o que queriam. Túlio tava um pouco mais a frente, me abrindo uma margem mais segura, me cobrindo a lateral. Acabei acertando um deles na perna por pura oportunidade e fiquei ali, marcando a posição. Em alguns minutos, chegou quem faltava, os caras que deram a volta na favela pra fechar o cerco ali. Alguns deles, quando notaram, subiram nas motos e tentando sair saindo. Um deles conseguiu, mas o garupa voltou pro chão na hora que vou alvejado. Uns deles tentaram pular muro das casas dos bacanas que ficavam ali pra trás. Enquanto uns a gente derrubou, alguns conseguiram. Os que tavam mais perto da entrada, não teve jeito. Ficaram.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
