— O que que tu quer que eu diga? — Ele me observou por um longo tempo antes de finalmente dizer. Engoli em seco, sem saber como responder à aquela pergunta.
— Quero que tu diga o que você tá pensando.
— Não tô pensando em nada, Nina. — Ele passou a mão no rosto, tragando o cigarro na sua mão. — Eu nunca pensei que... Porra, irmão, eu sempre soube que tu era esperta, ardilosa... — Ele me olhou de canto e eu cruzei meus braços no peito. — ...mas eu não previ até onde tu foi não.
— Tu achava que eu não era capaz? — Ergui uma sobrancelha.
— Não é isso não, porra, eu sempre achei que tu ia longe. Só que sei lá, Nina, se eu te falar que achava que tu ia ir pra fronteira passar droga, eu vou tá mentindo, caralho. — Sua voz assumiu um tom cansado de repente. — Não era o que eu achava que ia ser teu futuro, tá ligado?
— E o que tu esperava de mim? — Fiquei curiosa pro rumo onde aquele papo tava indo. — Você sabe que eu gosto de traficar, essa porra tá quase na minha veia já. Tu achava que eu ia, sei lá, trabalhar honesto?
— Não foi isso aí que eu disse não. — Ele apontou pra mim com a cigarro entre os dedos, olhando pro nada e com aquela cara que ele ficava quando tava reflexivo. — Eu sempre soube que tu ia ficar no ramo da droga enquanto te deixasse, mas achei que ia ser do meu lado. Também não achei que nossos caminhos ia se separar desse jeito ai não.
Engoli em seco, olhando para as minhas mãos, dentro da banheira. Eu consegui o que eu queria dele, que era sinceridade sobre os seus sentimentos. Só não previa que ia ser uma facada no meu coração daquele jeito... E doía, viu?
— Não precisa ser assim. — Disse, depois de um tempinho. — Não precisam continuar separados. Eu acho que... — Virei meu rosto pra ele devagar e o peguei me olhando pelo canto dos olhos. — ... ainda tem alguma coisa aqui. Na gente, eu quero dizer.
— Tu acha? — Ele achou graça, como se eu tivesse contado uma piada... ou dito algo muito óbvio.
— Acho. — Confirmei, a voz quase um sussurro. — Nós somos donos do nosso destino, Barbás.
Ele não falou nada imediatamente, mas soltou o ar dos pulmões com força, terminando seu cigarro e o jogando no cinzeiro do lado de fora. Mais uma vez o seu silêncio me machucou, mas o que eu podia fazer? Obrigar ele a ficar comigo? Era impossível, até porque coração dos outros era terra onde ninguém pisava. Eu respeitava ele, entendia tudo o que tinha sofrido na cadeia, todos os sentimentos que se apossaram do seu coração no tempo em que eu saí da vida dele. Eu sabia das escolhas que eu tinha feito e das consequências delas. Como mulher, eu ia arcar com todas elas, por mais dolorido que fosse.
— Ou não... — Abaixei meus olhos pras minhas mãos de novo. — A gente pode só aceitar o que a vida quis fazer da gente e criar nossa filha da melhor forma, convivendo bem e tal. — Minha voz foi perdendo a força conforme a frase ia avançando e morreu no final do tal. Era triste dizer aquelas coisas... agora eu entendia que meu coração rejeitava aquela ideia, mas talvez ele tivesse que a acolher pelo resto da minha vida.
— E o que que você quer de verdade? — Ele virou seu rosto inteiro pra mim, me olhando de um jeito bem questionador. — Qual das duas opções?
— Eu quero que você seja feliz. — Disse com toda a sinceridade. — Você não foi feliz nesses anos, e, por mais que tenham sido tempos difíceis pra mim, eu fui. Maria Ísis esteve comigo, eu ganhei uma família... e você ficou aqui sozinho, cultivando o seu ódio.
— Tu tá fugindo da pergunta dizendo tudo o que eu já tô cansado de saber, Marina. — Negou com a cabeça, impaciente. Ele insistiu em mim, queria saber o que eu desejava, o que estava no meu coração. Eu queria dizer, mas também tava morrendo de medo de falar a verdade só pra ser rejeitada por ele. Meu orgulho ia me matar queimada por dentro se isso acontecesse.
— Eu... eu... — Apertei meus lábios um contra os outros, olhando pros lados um momento antes de entender que não podia fugir desse momento. — Eu sinto sua falta. Sempre senti, em todos esses anos.
— Sentir minha falta não é o suficiente, Nina. Não é importante agora, eu não vou me dispor a gastar anos da minha vida só porque você sente minha falta. Não é isso o que eu quero saber de você. — Respondeu daquele jeito de cavalo dele, mas sem hostilidade. Sua voz transbordava sinceridade e os seus olhos pareciam procurar pro algo dentro da minha alma. — Eu quero saber o que que você quer.
Fechei os olhos, sentimento meu coração palpitar e arder no peito. Medo. Pânico.
— Eu quero encontrar você. — Confessei, sentindo minha garganta ficar seca e meus olhos umedecerem.
— Mas eu tô aqui, na sua frente.
— Não desse jeito, eu quero encontrar o seu caminho com o meu. — Expliquei, abrindo minhas pálpebras pra encontra um William de sobrancelhas franzidas me olhando com toda a atenção do mundo. — Não só porque a gente tem uma filha, mas porque eu...
Peguei uma mão de água e passei no meu rosto, dizendo um "reage, mulher" pra mim mesma. Eu não podia ser fraca agora, era a hora de ser franca, verdadeira... ou a oportunidade passaria e eu nunca iria tê-la de volta.
— Porque eu descobri que ainda eu amo você. — Me senti até fraca depois que aquelas palavras saíram da minha boca. — Que eu nunca te esqueci de verdade e que... no meu coração nada mudou.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
