Capítulo Cento e Sessenta e Sete

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Assim que os dois entraram, eu me vi atravessando a rua no automático pra voltar pra festa.

Eu não tava com a minha cabeça muito em dia pra me arriscar a mais uma dor de cabeça que — obviamente — iria causar, mas é aquelas fita que você faz sem saber bem porquê está fazendo; vou passar a chamar isso de mal de curioso.

E mesmo atrás deles, eu fui notando que alguns dos convidados olharam para os dois desfilando no corredor de entrada que seguia pelo meio do jardim com um ar de espanto.

Que merda você tá fazendo, Ademir?

E pra acabar de foder com tudo, o moleque os encontrou primeiro que a Cátia.

Assim que viu o pai, o moleque sorriu e correu pra cima dele, para um abraço. Ademir fez a linha de pai do ano. Mesmo o moleque completando seus dez anos de idade e já não sendo tão pequeno assim, Ademir deu seu jeito de o levantar, pra dar um beijo no rosto dele, entregando pra Andressa o pacote imenso que trazia.

— E aí, meu garotão, como você tá? — perguntou pra ele.

— Tô bem, pai — o menino respondeu, corando de vergonha. — Pensei que você não ia vir.

— No aniversário do meu filho? Mas como isso? — e deu mais um beijo no rosto dele. — E lembra da tia aqui?

Ai, caralho...

Se fazendo cumprir do papel que com certeza veio o caminho inteiro discutindo com o Ademir sobre fazer ou não e o que ganharia em troca disso, ela abriu um sorriso imenso e estendeu o presente pro menino, falando:

— Olha o que a gente trouxe pra você.

O moleque já era meio ligeiro e apesar de não ter feito cara feia e até podia ganhar um ponto por ter se esforçado pra meter um sorriso na cara enquanto olhava pra ela, pegou o pacote como se fosse uma onça que o tivesse dando.

Mas o caso é que a onça de verdade ainda não tinha aparecido.

Até aquele momento.

Fiquei pensando em como a Cátia interpretou aquela cena à primeira vista; pique aquele quadro antigo de Deus tocando o dedo com um humano ou anjo, sei lá, porque ela surgiu no final do corredor no exato momento em que o João Vitor segurava o pacote de um lado e a Andressa de outro.

A merda tava feita e espalhada por todo canto.

Maluco... o olhar que a Cátia deitou na cena foi simplesmente indescritível, mas aí ela deu uma olhada rápida pro pessoal em volta e pareceu se... segurar.

Sim, mas por quanto tempo?

O vacilão do Ademir sequer tinha reparado.

— Pode abrir, filho — falou pro moleque que olhou pra baixo, acanhado.

— Eu vou guardar lá dentro... — ele disse, bem baixinho.

— Não, filho. Pode abrir aqui mesmo — Ademir insistiu. — Você não vai acreditar no que eu te trouxe.

— Mas a mãe disse que é melhor eu deixar lá dentro e abrir depois...

Ele estalou a língua, fazendo pouco caso.

— Besteira, filho. Pode abrir aqui que...

— Esqueceu da boa educação, Ademir? — Cátia interveio, a voz rígida feito ferro.

Ele olhou pra ela no automático, ainda meio acocorado ao lado do pacote.

— Boa noite, Cátia. Tudo bem?

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