Último capítulo da terceira parte
Apertando o passo, eu consegui chegar até o filho-da-puta assim que ele conseguiu se espremer entre as grades retorcidas e entrar no estacionamento — e já ia um lembrete pra que eu visse de mandar arrumarem aquilo, e pra ontem.
— Ô, doidão! Que porra é essa aí?
Ele abriu um sorriso amistoso feito uma velha que não faz ideia do que tá acontecendo.
E, apesar de ser novo, ali na casa dos trinta, eu ganhei de cara que ele era bem mais ligeiro do que pretendia demonstrar.
— Oi, boa tarde... tudo bem? — ainda sorrindo feito uma puta, ele tratou de passar pra dentro a perna que ficou meio enganchada entre as grades.
— Que porra que você acha que tá fazendo invadindo aqui, maluco?
— Você trabalha aqui? — ele me deu uma olhada sorrindo com os olhos apertados como se não tivesse enxergando direito. — Você parece ser um dos seguranças.
— Irmão, você que tá invadindo aqui. Quem tem que se explicar é você. Anda, o que você quer aqui?
— Não, você tá certo — e soltou uma risadinha despretensiosa que me irritou. — É... ah, tenho que falar a verdade, né?
— Pra ontem, doidão. Fala logo, caralho.
— É que... — e ele riu mais uma vez, coçando a cabeça, sem graça. Mas aquele arrombado tava implorando pra que eu desfizesse aquele sorrisinho de bosta na porrada. — É que eu sou meio doido mesmo. Sou meio autista, sabe, daí, eu... eu tava curioso. Tá todo mundo falando desse acidente e eu, eu quis ver.
— Daí, sai invadindo os lugares assim sem mais nem menos?
— Eu pensei que olhar só um pouquinho não ia fazer mal. Só me deixar ver um pouquinho e daí eu vou embora. Prometo que não vou arrumar problema.
— Ver o quê, caralho? Tá loucão?
— E eu fiquei até de passar pro pessoal, que tá todo mundo falando sobre...
— Que pessoal? — o cortei.
— É que eu moro aqui perto e tava...
— Larga a mão de ser mentiroso que aqui é uma região industrial, truta. Não tem casa nem prédio residencial por aqui não.
— Eu sei, não é exatamente aqui... é ali subindo a...
— Maluco, na boa? Pra mim já deu dessa palhaçada aqui. Quem é você?
— Eu sou o Fábio e.... — antes que ele pudesse pensar em reagir, avancei pra cima dele, já enfiando minhas mãos nos bolsos e em dois tempos eu consegui pegar o celular, uma carteira e um crachá. — Não, que isso?! Para, para! Me solta!
— Cala a sua boca aí — mandei após me afastar com o que eu tinha achado nos bolsos. O crachá foi a primeira coisa que me chamou a atenção. Era um crachá de uma emissora de televisão. — Então, o seu nome de verdade é Antônio. Entendi.
Ele colocou as mãos na cintura e comprimiu os lábios, derrotado.
— Você não tem muito futuro nessa caminhada de investigador, irmão — comentei, dando uma olhada rápida nos cartões que ele tinha, no título de eleitor. — Você realmente achou que ia convencer alguém com essa história de merda que você inventou? Se brincar, você pensou agora e nem se deu conta do quão furada ela era, né? E é autista mesmo? — e dei risada.
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Declínio
Ação"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
