— O que você vai fazer, irmão? — Raul perguntou apertando o passo pra me acompanhar, enquanto eu atravessava a rua até onde eu tinha estacionado o carro.
— O que você acha? Eu vou resolver essa merda.
— Resolver? Mas como assim? Do nada você... você vai atrás do Capuava? — ele segurou a porta assim que entrei no carro como se fosse querer impedir que eu a fechasse. — Não, irmão. Vai sair não. Você tá pilhando demais com essa situação. Vai fazer besteira.
— E pra você eu não tenho motivo pra pilhar?
— Essa não é a questão, porra. Você já fez merda indo lá levar a situação pro Café do jeito que levou, e não adianta me olhar com essa cara, porque você sabe que é verdade. Põe a cabeça no lugar, caralho.
Suspirei, apertando o volante.
Porque eu já não tinha força nenhuma pra entrar numa outra discussão.
— Pensa, irmão. Só pensa... de que vai adiantar se você entrar numa merda aí que não dê pra voltar atrás e acontecer o pior?
— Porque pra poder encontrar o Gabriel, primeiro eu tenho que tá bem, não é? — falei. — Vai querer saber se eu já almocei hoje também? Já vou te adiantar que eu não dormi direito depois que acabou o acerto lá com o Café. Que porra é essa, Raul? Vai querer meter de psicologia barata pra cima de mim agora, é?
Ele não respondeu, apenas desviou a atenção pro lado, apertando os olhos como se o céu não estivesse nublado como estava.
No automático, eu tirei o maço do bolso e acendi mais um cigarro, um tanto sem jeito.
— Foi mal, irmão. Eu tô sendo ingrato pra caralho com você — recostei a cabeça no encosto do banco e soprei a fumaça da primeira tragada. — Você podia tá lá com a sua mina, seus filhos, fazendo qualquer outra coisa e tá aqui dando mó atenção e correndo atrás do bagulho. Eu tô ligado que, muitas vezes, como amigo, eu tenho sido um grande de um filho-da-puta.
Raul abriu um sorriso triste.
— Caralho, Alemão, mas você tá apaixonadão por esse moleque mesmo, hein? Eu acho que eu mesmo nunca cheguei a amar a Alana ou qualquer outra mulher na mesma intensidade que você. Vou te falar que às vezes eu fico até curioso e com vontade de sentir um bagulho assim tão intenso, mas vendo agora como isso tá te destruindo, eu me arrependo na hora de querer.
Continuei fumando em silêncio.
— Tá, mas isso não é o que você quer ouvir agora, eu tô ligado. Desculpa aí.
Apenas neguei com a cabeça, dispensando o comentário dele enquanto já acionava a partida do carro.
— Mesmo assim, me escuta, caralho — ele se projetou mais pra dentro do carro. — Eu não posso deixar você sair doido assim pra fazer merda e foder de vez com a sua vida.
— Eu não vou atrás do Josué, irmão. Com relação a isso, pode ficar de boa aí.
— Vai atrás de quem, então?
Suspirei, dando a última tragada.
— Eu já te envolvi em merda demais, irmão.
— Quero nem saber. Destrava a porta lá que eu vou com você.
— Irmão, volta lá pro bagulho, termina sua cerveja na moral e fica de boa.
— Deu, caralho. Larga a mão de ser moleque. Se eu tô falando que eu vou com você no bagulho, eu vou e já era. Vai fazer o que? Vai passar com o carro por cima de mim?
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Declínio
Ação"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
