Capítulo Cento e Setenta e Seis

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Ele me reconheceu na hora, obviamente.

Paulo Henrique tinha chorado bastante nos últimos minutos ou horas, sei lá. Dava pra ver nos olhos dele que se arregalaram pra mim, desesperados.

— Alexandre! Graças a Deus que você tá aqui! Me ajuda, por favor, eles...

— Tira ele daqui, porra! Anda, vai, vai, vai! — Índio berrou, estendendo o braço com violência.

Dois dos caras puxaram o Paulo Henrique pelos braços e o arrastaram pra outro cômodo que ficava mais aos fundos, pra dentro da casa.

— Alexandre, por favor, me ajuda! — deu pra ouvir ele gritar enquanto era arrastado.

— Cala a boca, caralho! — um dos caras que estavam levando ele berrou de volta e foi o suficiente pra que eu não ouvisse mais a voz dele.

— Quem é esse moleque e de onde você conhece, Alemão? — Índio se virou pra mim, apertando os olhos, meio irritado.

O filho-da-puta nunca abaixou a guarda pra mim desde aquela vez que me acusou de tá correndo junto com o Café, me dei conta.

Eu não tinha por que mentir.

— Ele é filho de um funcionário meu.

— E peraí... ele que era a visita? — Índio se virou pra um dos caras que já estavam ali e tinha ficado no mesmo cômodo que nós. — Você tinha falado que ele tava em visita íntima com o maluco lá.

O cara fez uma cara de "pois é" de quem não quer falar mais nada a respeito.

— Mas que porra é essa...? No meio dos caras, ele... ah, nem vale a pena perder tempo com isso.

Se a situação já não fosse esquisita o suficiente, o silêncio que se seguiu, como se tivessem todos em um funeral, tornou tudo ainda pior.

Meio que no automático mesmo, mano, eu perguntei:

— Eu posso lá falar com ele?

— Falar o que, Alemão?

— O moleque é espião há anos do Café. Vai me passar todas as informações secretas que vão me permitir enfiar meio metro de pica no seu, arrombado — exprimi, sentindo meu peito cansado. E ainda assim, me bateu uma vontade do caralho de acender mais um cigarro. Essa porra ainda vai me matar. Índio apenas ficou me olhando, a cara amarrada. Eu desataria os nós daquela fuça no murro sem problema nenhum. Era só o desgraçado me dar um motivo. — O moleque é filho do meu funcionário, jão. Eu arrumei emprego pra ele na minha transportadora. Ele é meu funcionário também, caralho.

— E você não sabia disso? Que ele tava em...

— Há um dia atrás, eu nem sabia que vocês tavam bolando esse esquema, caralho.

Índio ficou lá me olhando. Dessa vez, não com desconfiança, mas havia um certo pesar no seu olhar. Não quis me estender com aquilo.

— Vai lá — aquele tom de "não faz mais diferença" me deu um baque, vou admitir. Mas eu fui.

Tinham levado o Paulo Henrique pro último cômodo da casa, segundo parecia, que era algo como um quarto, mas não parecia certo. Tinha me dado a impressão de que não era o quarto que um morador usaria e sim como o de uma pousada ou dessas casas de reabilitação que a gente via ali pelo interior de São Paulo mesmo.

Havia uma cama que, pelo menos, estava limpa. Um armário de madeira com uma decoração antiga e um outro armário metálico que costumavam usar como arquivo. O tom amarelado das paredes tava me causando desconforto.

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