Capítulo Cento e Oitenta e Dois

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Penúltimo capítulo da terceira parte

— Você tá muito batido, Alexandre — Milla comentou assim que o garçom nos deixou após servir os copos com água. — Parece que não tá dormindo direito.

— É... os últimos dias foram muito corridos pra mim — me limitei a comentar.

Ela tomou um gole me observando muito brevemente e parecendo que tava procurando pelas palavras certas, finalmente falou:

— Eu tava pensando esses dias sobre o que aconteceu com o Gabriel. Você teve alguma novidade sobre ele?

— Não.

Ela assentiu, pesarosa.

— Eu realmente sinto muito por isso, Alexandre. Não sei nem o que dizer.

— Agradeço a preocupação.

— Eu até sondei o Capuava pra ver se descobria alguma coisa sobre isso, mas nada. Realmente, parece que ele não teve nada a ver com isso.

— Eu também acho que não.

— Mas eu vou continuar prestando atenção nisso pra ver se acho alguma coisa.

— Obrigado.

Mais rápido que de costume, o garçom retornou com duas porções de ceviche para a entrada.

— Eu sei que é meio desnecessário, mas vou ter que perguntar mesmo assim — comecei. — Esse último ataque que aconteceu em cima da carga que o Russo tava tentando trazer pra cá...

— Eu não sabia.

— E isso não preocupa você? — questionei.

— De eu pensar que o meu marido tá me deixando de lado dessas coisas porque tá desconfiando de mim?

— Sim.

— Pra falar a verdade, ele nunca me incluiu em nada disso — ela deu de ombros. — Pro Liedson, eu sou apenas a mulher dele. E o lugar da mulher do Liedson é cuidando da casa e dos filhos.

— Já tivemos essa conversa uma meia dúzia de vezes, Milla — cocei minha cabeça, impaciente.

— Sim, Alexandre. Eu sei que é um saco o meu discurso feminista de sempre. Mas em minha defesa foi você que perguntou e, particularmente, acho um absurdo você se incomodar sendo que você tem sua relação com o Gabriel lá.

— E daí eu, automaticamente, me transformo numa mulher porque tô junto com outro cara?

Ela deu risada.

— Não, pra um sujeito como você virar uma mulher, nem com o diabo na causa. Mas eu esperava um pouco mais de solidariedade porque nós dois vivemos num mundo onde qualquer outra coisa que não seja um homem; e antes que você me interrompa bravo, você sabe exatamente qual a definição de "homem" que os caras têm, enfim... qualquer coisa diferente disso, pra eles, não merece o mesmo respeito.

— É, mas você não me vê toda hora reclamando disso.

— Porque eu não te questiono sobre... e você tá sempre me fazendo falar disso.

— Tá bom, Milla — exclamei. — Acho que já passamos dessa parte e também... eu nunca te tratei por menos por ser mulher, muito pelo contrário, inclusive. Eu não sou otário que nem o seu marido de não me dar conta do perigo que você é.

Ela tornou a rir.

— Vou levar isso como um elogio.

Embora eu tenha sorrido também, eu não conseguia olhar pra ela sem pensar no que o Russo havia dito de que já tinham tudo certo pra dar fim no Café e até que ponto a Milla sabia dessa história.

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