Capítulo Cento e Setenta e Sete

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— O que que 'cê falou aí? — indaguei, indo na direção dela.

A vagabunda não se intimidou.

Com uma mão segurando a taça e a outra com os dedos dobrados de modo que ela pudesse admirar as próprias unhas, ela deixou escapar um sorriso que era perfeitamente capaz de me fazer estraçalhar numa mãozada só.

Porra, eu sempre tinha sido mais do que controlado no que dizia respeito a mulheres, apesar do meu histórico desfavorável, mas aquela menina tinha nascido pra me atazanar, só podia.

— O bagulho é o seguinte, fia, hoje eu não tô num bom dia pra palhaçada, entendeu?

— Mas não é palhaçada nenhuma. Eu vi ele mesmo — ela garantiu, me encarando sem titubear.

Olhei no fundo dos olhos dela.

Ela continuou firme, irmão. Não arredou o pé.

Só podia ser brincadeira.

— Onde? E quando que foi isso?

Ela soltou uma única risada, voltando a olhar pras unhas, querendo fazer graça.

— Eu tava pensando aqui comigo... quanto que uma informação valiosa como essa pode custar, hein?

— Que porra que você falou aí? — dei mais um passo na direção dela, meus braços se encurvando no automático.

— O Ademir tava me contando esses dias... ele me disse que você tá completamente transtornado com o sumiço desse menino. Que você não trabalha, nem come, nem dorme mais direito desde então. Olha... eu vou te falar que eu gostaria de ter um homão assim que nem você doido atrás de mim, com essa loucura toda. Não que o Ademir não seja louco por mim, mas como a gente já conversou antes, ele não é tão interessante e bonito assim como você. Só que parando pra pensar, eu acho que eu até entendo o coitado ter fugido assim — ela falou, fazendo bico. Me aproximei a ponto de quase encostar nela. — O Ademir pode ser sem graça como for, mas ele nunca sequer chegou a me ameaçar — e aí ela me encarou, provocativa. — O tanto que você não deve ter dado na cara desse menino.

Agarrei o braço dela com tudo, apertando com força mesmo.

Ela não se abalou.

Seguiu me encarando firme.

— Vai me bater também?

A soltei bruscamente.

— Você não sabe o que você tá falando sua vagabunda do caralho.

— O quê? Vai me dizer que você era um santinho com ele? Você nem me conhecia direito e já foi dizendo que ia me bater.

— E pior que você...

— Que eu o quê? Que eu mereço? — ela riu. — Era isso que você dizia pro coitado antes de bater nele.

— Cala a sua boca, caralho! Eu nunca encostei um dedo no moleque!

— Ah, jura? E mesmo assim ele decidiu fugir avoado de um alemão de dois metros de altura que dirige uma Jaguar e tem uma transportadora desse tamanho? — ela parecia não ser capaz de conter o sorriso. — Eu já vi você andando de bermuda; deu pra dar uma boa avaliada no volume e mesmo se houvesse o azar de você não ser bem avantajado como o infeliz do Ademir é, qualquer um no lugar do menino lá não iria te largar.

— O moleque não é um lixo oportunista igual você não, caralho.

— Ai, um anjinho ele — ela tornou a rir. — Ele tava com você pelas suas obras sociais e pelo seu caráter impecável; o próprio Jesus renascido. Tô até ficando cega com o brilho da auréola em cima da sua cabeça — e ela estendeu o braço pra cima. — Pelo amor de Deus, homem. Um cavalo velho igual você bancando o iludido. Depois vai com o peito todo estufado, cheio de moral, pra falar que o Ademir é um otário. Não tô vendo diferença nenhuma entre vocês dois.

DeclínioHistórias para pegar e não largar. Descubra agora