— Eu ainda te avisei pra falar logo, alemão — o sujeito riu pra mim, sacudindo o pacote na minha frente. — Agora, o bagulho vai endoidar pro teu lado.
Suspirei.
Eu não fazia ideia de que buraco tinha saído aquela merda.
Ou eles ou algum outro filho-da-puta, como o verme do Josué, tavam querendo me foder faltando pouco tempo pro dia acabar.
— Onde é que isso tava? — perguntei.
O arrombado pareceu achar graça.
— Na parte de trás da roda. Fumou tanto essa merda que já esqueceu?
— Você acha mesmo que eu ia grudar a porra de um pacote desses na roda de uma Jaguar? — e ri. — Só pode tá tirando uma com a minha cara mesmo.
O outro sujeito se aproximou e analisou a parte de trás do carro, um pouco receoso.
— Você tem cara de envolvido, cidadão — mandou na lata, me olhando de cima a baixo. — Mas essa porra dessa Jaguar, esse teu sobrenome de alemão... o bagulho tá no teu nome e todo regularizado... se não é envolvido, é de família e se for, pode acabar sendo os dois — e aí ele virou pro parceiro, com um olhar que era em partes preocupação e em partes... oportunidade. Eu conhecia bem aquele olhar. Depois que comprei a Vargo, era praticamente de lei que uma vez por mês algum PM desgraçado me olharia daquele modo enquanto eu saía da quebrada ou estivesse indo pra lá numa madrugada qualquer.
Os dois se entreolharam por alguns instantes e depois quase que simultaneamente, voltaram o olhar pra mim.
Não foi difícil entender.
— Fechou... não vamo' estragar a noite de ninguém hoje — falei, tirando minha carteira do bolso. — Tenho um barão aqui... e tenho mais três no carro. Pode pegar lá no porta-luvas.
O arrombado que ainda segurava o pacote de maconha, me entregou o bagulho e acenou com a cabeça pro outro ir lá buscar o dinheiro. Saquei as dez notas que eu tinha na minha carteira e entreguei pra ele que ainda teve a ousadia de me falar antes de ir pra viatura:
— Tenha uma boa noite, amigão.
Apenas acenei com a cabeça e acendi um cigarro, enquanto os observava entrar na viatura e seguir seu caminho. Só então voltei pro meu carro e o guiei pelos vinte metros que faltavam pra minha casa e enquanto o portão da garagem era acionado, eu vi três silhuetas vindo na minha direção pela calçada.
Pela primeira vez, eu me sobressaltei.
Mas não demorou muito porque assim que foram para as luzes do farol, eu vi quem eram:
Raul, Mirtes e o filho dela...
De todas as pessoas que eu pudesse imaginar ver ali juntas, aquelas três...
Que porra é essa?
Desci do carro e aí eu finalmente vi que o Raul tava um pouco mais atrás deles, quase como se os tivesse os escoltando até ali.
— É por isso que esse país não tem jeito — a rapariga velha começou a dizer. — Por causa de gente miserável que nem você! Seu sem futuro, corrupto safado! Você devia tá na cadeia uma hora dessas!
Levei um cigarro a boca e dei uma tragada antes de responder:
— Eu? Você planta droga no meu carro e eu que devia tá na cadeia?
Ela pareceu não me ouvir.
— Se você acha que isso vai ficar assim, você tá maluco, seu nóia dos infernos! — exclamou. — E foi até melhor, se você quer saber. Foi até muito melhor você ter feito isso, que além dessa droga aí, você vai ter que responder por ter subornado aqueles policiais, seu canalha!
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Declínio
Ação"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
