— Eu não tô aguentando mais ficar em pé aqui — ela exclamou, segurando a base da barriga e já vindo com a mão na maçaneta da porta de trás.
O imbecil continuou lá, paradão, com a bolsa dela pendurada no ombro, me olhando como se fosse um veado que tinha acabado de descobrir o leão espreitando na moita — e, não apenas pelo fato dele ser irmão do meu moleque, mas a comparação me fez lembrar um daqueles documentários sobre a vida animal que o moleque gostava de assistir e acabou por me fazer gostar de ver também. E isso me fez pensar, já na sequência, que a minha alegoria talvez não fizesse muito sentido, já que eu não tinha certeza se havia veados na África... sei lá; parando pra pensar sobre o bagulho, acho que o nome daqueles bichos que eu via os leões caçando era outro; eles só pareciam veados... e o cuzão, por outro lado, ainda não conseguia perceber que eu, também, só parecia um leão espreitando na moita... ou vai ver já tinha se tocado, já que não tava fazendo nada enquanto a mulher grávida entrava no território do suposto leão.
Ele deu uma última olhada na direção de onde o ônibus viria, ansioso, e findou por ceder e entrou pela mesma porta que ela, a fechando na sequência.
— Ainda tava com a esperança do busão vir? — dei risada, balançando a cabeça.
— Nem que viesse — ela riu também, suspirando um pouco. — Depois da bondade que você fez, nem que viesse totalmente vazio, eu entraria lá... Deus me livre.
E finalmente o sinal abriu.
— Vocês já têm um hospital certo pra ir? — perguntei, seguindo a avenida.
Ela conseguiu me responder a tempo de eu virar no cruzamento seguinte, evitando que eu tivesse que dar uma volta do caralho pra pegar o retorno.
— Barrigão, hein? — comentei, rindo, observando o desconforto na cara dela através do retrovisor. Porra, será que ela tá entrando em trabalho de parto mesmo?
— Pois é... — ela riu, tornando a suspirar.
— Tá de quanto tempo?
— Tô indo pra trinta e nove semanas...
— Desculpa o burrão aqui, mas é que eu não manjo muito de gravidez não — tornei a rir, pra ver se ela ficava mais tranquila, já que nem pra isso, o imbecil do marido, namorado ou sei lá que porra que eles eram, tava se prestando a fazer. Confesso que aquilo me irritou um pouco... e por pouco, eu diria que chegou à ponta da língua um aviso pro jão ficar numa boa que eu não iria descer o braço nele como quis fazer da última vez que o tinha visto, mas esse era o preço que eu tinha que pagar por ter me disposto a ajudar a coitada.
— Ah, todo homem é assim mesmo — ela entrou na graça comigo.
— E olha que eu já quase fui pai. E ela também, quando ia falar do tempo de gravidez, falava pras outras pessoas que tava de tantas semanas... eu mesmo nunca entendi.
— É só matemática mesmo — ela riu de novo. — Uma semana tem sete dias; um mês tem trinta. Eu sei que não dá uma divisão exata, mas dá pra calcular uma média mesmo assim.
— Caraca... eu falei que era burrão, mas aí quis me tirar pra animal mesmo, hein?
— Eu não consegui me aguentar.
— Com a piada ou com o filhote aí dentro?
Ela arquejou... e por um instante, eu quase não consegui discernir se ela tava rindo ou com dor.
— Eu não acredito que você conseguiu virar a conversa contra mim... — ela ofegou, se ajeitando sobre o banco. — Mas parabéns.
— Eu tinha que dar um jeito de não sair tão por baixo assim. Mas desculpa ter falado "filhote" sem nem saber se é menino ou menina.
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Declínio
Ação"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
