Podia ser mais uma cilada?
É claro que podia.
Uma porra detalhada daquelas de mão beijada pra mim?
Enquanto espalhava os papéis sobre a mesa de centro da sala, conferi meu celular pra ver se tinha alguma mensagem ou ligação do Raul. Nada.
Continuei lendo pra entender melhor antes de qualquer coisa.
Eu não manjava tanto e embora soubesse bem por cima como funcionava, o bagulho me pareceu muito convincente.
Em resumo, ali estavam documentos sobre todo o fluxo de apreensão de valores confiscados e transferências desses mesmos valores para os cofres da União. Eu não tinha conseguido ver nada de gritante ali, mas não foi difícil pensar que, com certeza, tinha maracutaia do Federal por ali. Ele devia tá desviando esses valores e havia muita documentação em inglês, no que eu entendi ser a abertura de contas, pelo logo do banco na parte de cima das páginas. Contas num banco em Belize?
Era um paraíso fiscal aquela porra.
Não devia ser surpresa.
Tentei procurar extratos, mas não encontrei.
Também seria demais... hoje em dia, imprimir extratos seria tiração.
Liguei pro Raul.
Ele atendeu no terceiro toque.
— Salve, irmão. Boa tarde.
— Boa... e aí, como você tá?
— Posso dizer que um tanto melhor agora? — dei risada enquanto observava o nome completo do filho-da-puta impresso na folha de abertura de conta.
— Ô... e pode compartilhar com seus parceiros o motivo dessa alegria?
— Você que devia dizer, jão — brinquei. — Acabei de receber seu presentinho aqui.
— Presentinho meu? Como assim?
— Oxi, caralho, recebi a papelada cheia de documentos assinados pelo cuzão do federal lá.
— Mas eu não te mandei nada, irmão. Nem tenho papelada nenhuma dele assinando qualquer coisa que seja... bom, pra não falar que eu não tenho absolutamente nada, eu tinha aquelas faturas e aqueles registros de presença, mas isso eu já tinha deixado com você naquele último dossiê que eu te dei.
Daí, eu dei uma travada.
— E quem foi que me mandou isso?
— Você recebeu isso aí hoje? Quem que te deu?
— Eu não sei, mano. Tava na minha caixa de correio.
— Não dá pra ver pela câmera de segurança quem foi que deixou aí?
— Caralho, não tinha pensado nisso.
Fui conferir nos arquivos.
Passei, fui, voltei... só pra descobrir que não havia sido no mesmo dia que tinham deixado.
Havia sido um morador de rua.
Dois dias antes.
Eu podia estar julgando o cara errado, mas eu tinha investido adequadamente na hora de escolher as câmeras e deu pra ver que o cara morava na rua. Tava meio sujo, muito magro... só foi mais complicado ter certeza da idade que ele tinha. 'Cê é louco, a rua acaba demais com o sujeito.
Alguém tinha pagado uma moeda pra ele fazer aquilo.
Mas por quê?
E quem?
VOCÊ ESTÁ LENDO
Declínio
Ação"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
