Capítulo Cento e Setenta e Oito

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Se ele me reconheceu, soube fingir muito bem.

Ele parecia ter um corte na cabeça ou sei lá o que, porque um filete de sangue seco marcava o lado esquerdo do seu rosto do cabelo até o pescoço.

E o bichão fuzilava o Café com o olhar. Ele tava com os pulsos atados, nas costas, mas se alguém tivesse a ousadia de soltá-lo, pela forma como olhava, eu não me surpreenderia se ele matasse o Café na dentada.

— Todo mundo aqui sabe o que aconteceu lá no CD do Rio Pequeno — Café começou a falar alto, se colocando no centro da roda, ao lado do moleque e da mulher atrás dele, passando um olhar rápido pra todo mundo, como se quisesse se certificar de que todos estavam prestando atenção. Eu acabei acompanhando ele na "vistoria". Além do cuzão do Josué, o Gordo, o Calango e o Dinho estavam ali também.

Nomes de peso, tive de admitir pra minha desgraça.

O Calango ali era a grande surpresa pra mim.

Se eu não tava enganado, o Café já tinha tentado há um tempo cooptar o parceiro, mas havia falhado porque ele tinha decidido seguir uma linha parecida com o que o Tatu fazia, de se manter neutro. Mas aí o Café me disse que o Josué tinha seu esquema pra reverter a situação. E segundo parecia, o filho-da-puta conseguiu mesmo.

E fazendo jus ao apelido, Calango seguia tão magro como eu era capaz de me lembrar.

E ele era meio alto e com sua feição carregada, me lembrava estranhamente aquela versão magrela e marrom ou cinza — já nem lembrava direito — do Majin Boo, só que com a pele clara.

— Na covardia, o filho-da-puta do Russo, a mando do Kalil, que nem pra pensar nos próprios esquemas, o arrombado é capaz, nem pra isso ele serve — Café começou a falar, erguendo a voz. — Na covardia, invadiram nosso centro de distribuição e saíram matando os parceiro a rodo. Foi papo de extermínio mesmo, igual os verme fizeram há tantos anos atrás no amaldiçoado Carandiru. Pra vocês verem o que passar tanto tempo correndo junto com polícia e essa corja do governo pode fazer com a mente do cara. É que nem os cara da social fala: no fundo, o sonho de muitos dos oprimidos é se tornarem os opressores.

E ali, desgraçadamente, apesar de todas as hipocrisias ditas, eu via o Café que era capaz de criar aquela racha na facção; o Café que, apesar dos recursos limitados, das poucas opções, era o responsável pela apreensão constante do Kalil.

Ele pode não saber falar bem como o Kalil nem ter a frieza analítica do Russo, mas ele é mais acessível que os dois, tá ligado, pensei comigo, sentindo meu peito apertar. Ele soa como mais real que os dois, como alguém que realmente deveria estar no comando da organização segundo o que todo mundo espera. Não à toa, ele foi a escolha óbvia dentre os membros da Final pra servir de vitrine pro governo; de servir como o responsável pelo comando do bagulho.

O Kalil e o Russo impunham mais respeito.

O Café, no entanto, mais lealdade.

Isso era um problema.

Pra não dizer um verdadeiro desastre.

— Esse lixo aqui — e apontou pro filho da Baja. Qual era o nome dele mesmo? — É o filho do verme do caralho que a gente confiou, que a gente deu apoio, mesmo quando o Kalil tinha armado um bote pra ele, a gente estendeu a mão e acolheu o Baja, tá ligado. A retribuição dele? Mandar o próprio filho pra nos foder e permitir que o pessoal do Kalil trucidasse seis parceiros nossos, na maldade, na trairagem; na covardia. Era pra ter sido sete, mas, graças a Deus, um deles conseguiu escapar.

E aí um dos malucos que eu mal tinha reparado deu um passo à frente.

Era novo.

Devia ter seus vinte e cinco anos. Pele parda — como meu moleque — e um bigodinho pronunciado sobre a boca. Deus que me perdoasse meu preconceito, mas nem trajado de ouro ou no terno Armani mais caro disponível alguém olharia pra ele e não veria um bandido.

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