Eu sempre gostei muito de noites como aquela.
Tá ligado, quando não tá exatamente quente, mas também não está frio. Aquele ar limpo e o clima fresco com o céu sem nenhuma nuvem pra contar história.
Era noite de sábado e a quebrada tava a mil.
Eu tinha estacionado meu carro do outro lado da rua que passava em frente à pracinha que tinham construído ali na parte mais alta da quebrada e dava vista pra cidade lá embaixo.
Eu nunca ia me esquecer daquela ambientação.
O clima fresco, a conjunção de tantas músicas diferentes ecoando ao fundo; aquele ruído urbano típico da quebrada que misturava motos sem escapamento, tráfego na avenida mais próxima; era uma espécie de sinergia que me aflorava algo como um prenúncio de que muita agitação tava pra acontecer; o tipo de sensação que te causaria mal-estar a ideia de ficar em casa, isolado, e não aproveitar um pouco daquilo.
E foi em um dos bancos de pedra, um dos mais próximos à cerca amarela metálica que delimitava a pracinha do morro que se estendia lá pra baixo, num declive tão íngreme que mais parecia um paredão, que eu encontrei o moleque.
Ele parecia hipnotizado pela paisagem; pelas milhares de luzes que ponteavam o horizonte de uma forma tão abstrata que mal parecia que o bagulho tava ali mesmo de verdade.
Que brisa.
Ao lado dele, sobre o banco, tinha um copão transparente com um bagulho vermelho que só podia ser vodca ou gin misturado com um daqueles energéticos de litro que tavam ficando cada vez mais populares pela quebrada.
E apesar de tudo, eu até curtia tomar um desses.
E até decidi pegar um na adega que ficava do outro lado da rua antes de me sentar ao lado dele no banco.
— Tá fazendo o que aqui sozinho uma hora dessas, moleque? — perguntei, tomando um gole.
— Vim dar o meu rolê — ele brincou, com um sorriso distante. Nunca tinha visto o moleque tão desenrolado como até aquele momento. Em partes, me senti bem por vê-lo assim, mais tranquilo, mas aquilo me causou uma certa apreensão também. — Sábado de noite assim, até eu não quero ficar em casa.
— Mas sozinho?
Ele tomou um gole do copo ao invés de me responder.
Eu não sabia há quanto tempo ele já tava ali, mas já tinha emborcado uns dois terços do copo e mesmo assim parecia estar com a cabeça em seu devido lugar.
O moleque nunca demonstrou ser forte pra bebida desse jeito, me lembro de ter pensado.
— Podia ter me dado um salve — acrescentei. — E eu até te mandei mensagem mais cedo, te liguei e tudo...
— Desculpa não ter respondido. É que eu fiquei tão enrolado que...
— Com a casa, né? Você falou que ia passar o dia inteiro arrumando lá... mas tava tão puxado assim? — tomei um gole, inclinando a cabeça pra poder captar melhor as reações dele. — Tá parecendo até a Cinderela, pô.
Ele até tentou me acompanhar no riso, mas falhou.
Senti um leve aperto no peito.
— Que tiração, hein — exortei, tomando mais um gole. Naquele ritmo, eu acabaria terminando antes dele. — Tô ligado que seu pai e seu irmão trabalham, pelo que você me contou, mas você também, fio. E você ainda faz faculdade... mancada você ficar se matando desse jeito aí.
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Declínio
Ação"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
