Epílogo - Parte III

298 29 72
                                        

— Sabe mesmo dirigir? — Biribinha me perguntou, desesperado ao me ver dando partida no carro.

— Sei — foi tudo que eu respondi enquanto tentava puxar pela memória as lições que o Alexandre tinha me dado no autódromo.

E aí cenas de filmes e séries foram se intercalando na minha cabeça e embora eu só conseguisse pensar em todas as formas daquilo dar errado, eu não senti, em nem um momento, a vontade de desistir.

— Cadê a Fernanda? — perguntei, olhando pra trás. O dono do carro podia aparecer a qualquer hora. Meus dedos estavam sobre o volante, mas estavam tão gelados que eu já nem os sentia mais.

— Anda Babá! Entra logo! — Biribinha gritou da janela do carro, apenas pra fazer minha agonia aumentar. Isso vai chamar atenção! Pensei comigo.

Correndo pela calçada, Fernanda entrou no carro, no banco de trás e eu consegui sair rasgando, quase batendo no poste quando não me atentei direito ao detalhe que a merda daquele carro tava puxando pra direita.

— Você sabe como chegar lá? Quanto tempo a gente vai levar? — Fernanda perguntou, desesperada, enquanto olhava pelas janelas como se um trem fosse passar por cima da gente a qualquer momento.

— Eu sei, eu meio que conheço o lugar — eu tava descendo a rua que dava numa espécie de bifurcação que, por uns dois instantes, me fez perder meu sentido de localização e me atrapalhei, indo pra direita ao invés de ir pra esquerda.

Eu queria chegar na Vinte e Três de Maio, mas aí eu me lembrei que, pra isso, eu teria que ir pra esquerda, pra seguir até a praça ao redor da Estação da Luz e aí pegar o acesso pra entrar na Avenida Tiradentes. Agora, como eu faria pra voltar...

Nunca tinha parado pra pensar sobre, mas eu realmente odiava aquele nó miserável que era o Centro de São Paulo que se resumia a ruas de um único sentido que pareciam não levar a lugar nenhum, ou quando levava, era necessário dar uma volta desgraçadamente grande pra poder chegar.

Percebendo minhas atenções, Biribinha comentou, apontando com o dedo pra rua:

— Você quer ir pra Luz, né, Bielzinho? Vai ter que descer nessa próxima aí e pegar o contorno.

— Como é que você sabe?

— Eu posso não saber dirigir, mas tô nessas ruas há mais tempo que você, né?

Assentindo, segui as orientações dele.

Porém, após termos dado uma volta terrível, com o som crescente de sirenes ao fundo que tava me fazendo suar frio, a Fernanda se colocou entre o espaço dos dois bancos e falou, preocupada:

— Por esse caminho, a gente não vai ter que parar bem na frente do troço da polícia lá se o sinal tiver fechado?

Não pensei muito.

— Agora já era — exclamei, virando na rua a qual ela se referia. — Se a casa cair, como é que pode ficar pior que já tá? — e dei risada.

— Você fala isso porque você nunca foi preso — ela resmungou, quase se esbarrando no câmbio. — Prefiro mil vezes continuar nas ruas por aqui do que ir presa de novo... e olha que eu sou mulher, no presídio com os caras, você ia ver só o que é inferno de verdade...

— A gente não vai ser preso — decretou Biribinha, batendo com a mão no painel.

— Não faz isso que você me desconcentra — falei, sem poder evitar de olhar a placa da PM com o paredão cinza ao fundo. Aquilo não era apenas uma delegacia. E o negócio tava muito movimentado.

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Jun 19 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

DeclínioHistórias para pegar e não largar. Descubra agora