Capítulo Cento e Setenta e Três

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A risada do filho-da-puta cortou o silêncio.

Uma risada meio pausada, mas que ainda se fazia passar por a de alguém que realmente tava achando muita graça na situação.

Ai, Alexandre, você é o pior mesmo, hein, cara... nunca vi — ele continuou rindo. Vou admitir que me incomodou pra caralho o áudio da ligação estar tão bem definido que parecia até que ele tava no cômodo ao lado. — Quer dizer, então, que o Gabriel sumiu, é?

— Eu não tô com a menor paciência pra palhaçada, jão.

Eu não tô de brincadeira, Alexandre. Ia mentir sobre isso pra quê? Se eu tivesse escondido o Gabriel, ia ser apenas com o objetivo de usar isso contra você; então, nesse caso, pra quê que eu iria esconder?

Na hora, ela abaixou a cabeça, como se tivesse aceitado que ia dar ruim mesmo.

Eu não vejo o Gabriel faz um tempo já — ele prosseguiu. — Você acabou conseguindo o que você queria. Sei lá o que diabo você falou pra ele, mas ele deu um pé em mim. E olha que, apesar dos avisos que você me deu, eu vou ser sincero aqui com você e dizer que eu não me importei muito não. O que eu tinha em mente mesmo era descobrir o que de tão grave havia por trás dessa história de vocês dois, mas esse menino... enfim, teve até uma situação que... o caso é que ele não quis mais saber de mim. E eu insisti, viu. Disse que ia dar um jeito de proteger ele de você, que com certeza era alguma merda que você tava fazendo pra me jogar contra ele, porque você não superava; que eu gostava muito dele. Até cheguei ao ponto de falar que tava louco pra transar com ele, pra ver se isso fazia ele mudar de ideia, mas porra nenhuma. Ele me bloqueou de tudo e me mandou ir pra puta que pariu... bom, só modo de dizer, né; é óbvio que ele não falou isso porque, ao contrário de você, esse garoto parece que tem um pacto de vida e morte com a educação, nunca vi igual.

Eu não tirei os olhos da mulher dele por um só segundo que fosse.

Na hora que o arrombado começou a falar, ela soergueu a cabeça, os olhos umedecendo à medida que a consternação dela aumentava.

Agora que ele tinha acabado, ela parecia oca; fora de órbita.

Você ameaçou ele, não ameaçou? — o cuzão resmungou do outro lado da linha. Com a minha ausência de resposta, ele tornou a rir. — Apesar de você tá sempre querendo mostrar que é diferente dos nóias dos seus amigos, a verdade é que você é exatamente igual a todos eles, Alexandre. Com certeza, você tem aquela ideia atrasada de favelado de achar que se não for pra ele ficar com você, ele não vai ficar com ninguém. Vai ver é por isso que ele sumiu e você tá aí se fazendo de louco. Ele deve ter sumido pra ninguém ver que você deixou ele careca — e soltou uma risada ainda mais escrachada que a anterior.

— Você tá tentando me enrolar pra ganhar tempo e descobrir onde tá a sua família?

Ah, essa é outra coisa. Quase me esqueci dessa sua criancice. Quer dizer que o Gabriel sumiu mesmo e daí você achou que jogar esse verde pra cima de mim e...

— Verde? — o interrompi. — Você acha que eu tô metendo o louco sobre ter pego sua família? — daí foi a minha vez de rir. — Até que a sua casa na Mooca é bonita. Um pouco abaixo do que eu esperava pelo tanto de dinheiro que você sugou de mim, mas vou reconhecer sua cautela.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes.

Alguns não, né? O bagulho se arrastou até a respiração dele começar a ficar muito evidente.

Foi aquele desgraçado do seu amigo, né? O Raul... eu já tava desconfiando há um tempo que você tinha colocado ele atrás de mim.

— Se você quiser, te dou um tempo pra você se certificar de que tanto sua mulher quanto seus filhos não estão mais por lá.

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