Capítulo Cento e Sessenta e Seis

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Sequer houve tempo para processar o que tinha saído da boca daquele jão.

E o melhor — ou talvez o pior — é que a rapaziada parecia tão implicada naquele momento em que o esquema tinha dado certo e tava todo mundo ali, livre, como quem chega num mundo novo, que pareceu que ninguém reparou direito no que o Índio tinha dito, mesmo que o vacilão tenha encrespado a cara feito aqueles cachorros feios que os frescos gostam de criar.

— E não adianta me olhar com essa cara não, Alemão, que eu...

— Que isso, rapaziada — Kalil ergueu a voz, em tom de camaradagem, se aproximando de nós com tudo, nos puxando pra perto com as duas mãos sobre os ombros de cada um, forçando um abraço triplo. — Vamo' ali no meu escritório desenrolar esse assunto.

Antes que o Índio ou eu pudéssemos falar alguma coisa, o Kalil já foi nos arrastando pra longe da rapaziada. O foda é que acabou chamando a atenção e a voz de um dos malucos ecoou alta logo atrás de nós:

— E aí, Índio, qual que é a fita? Mal chegamos aqui e já tá querendo abandonar nós? Faz isso não, pô, que eu me desespero aqui...

Apesar das sardas e do cabelo ruivo escuro serem bem característicos, o doidão não me lembrava ninguém. E apesar de ter reparado em nós três nos afastando, pela forma como nos olhava, com um sorriso sem graça e coçando a cabeça, me passou a impressão de que ele não tinha ouvido bem o que o vacilão do Índio tinha dito, o que me soou como um bom sinal.

— Fica tranquilinho aí, truta — Kalil falou. — Ninguém vai abandonar ninguém aqui não. Vamo' só desenrolar um papo aqui.

— Ah, então, beleza... — e forçando um sorriso, ele voltou pra comemoração dos caras.

Kalil nos conduziu até os fundos do galpão, parando diante de um banco de concreto que, olhando bem, era mais um degrau comprido e alto colado a parede. Ele deu uma última olhada pra trás, pra conferir se não tinha ninguém perto o suficiente pra ouvir e falou, abrindo os braços, feito um pai carinhoso que não sabe ser firme com o filho:

— Quê isso, Índio? Todo mundo ali no maior envolvimento, mó alegria, curtindo pra caralho o momento e ao invés de você aproveitar também, que finalmente você tá aqui, livre, você faz isso, pô. Aproveita, irmão.

— Qual foi a fita, Kalil? — ele retorquiu, injuriado. — Tá me estranhando, truta? Não sou nenhum emocionado nessa porra não, tiozinho. Aqui é pé no chão, porra.

Dei risada, enquanto tirava o maço de cigarro do bolso.

— Pé no chão ele, Kalil... — entoei, focando minha atenção no cigarro. Acendi, soprei a fumaça pro alto e olhei pro vacilão de novo, pra ver se eu conseguia entender o que é que ele realmente queria com aquela cena.

— Não tô entendendo o deboche, parceiro — Índio cruzou os braços.

— Pé no chão — repeti, fazendo bico. — É bom que você tenha o pé no chão mesmo, que daí dá pra você voltar andando pra tua casa, ladrão. A não ser que durante o tempo que você passou lá naquele inferno, deu pra aprender a voar.

Ele apertou os olhos, confuso.

— É isso mesmo, jão — dei um passo na direção dele, soprando a fumaça bem na fuça do filho-da-puta. — Que se me der cinco minutos aqui, eu pego a cambada ali toda, levo pra casa e deixo você aqui, nesse fim de mundo, pra voltar a pé pela Dutra.

Índio olhou pro Kalil como se tivesse numa pegadinha.

— Que porra é essa, Kalil? — questionou. — 'Cê me trouxe pra cá foi pra esse vacilão me humilhar?

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