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ㅤㅤ ㅤ[NINA]

3 anos e 6 meses na tranca de Bangu 8. Emboscada. Meus erros eu tive, mas aquele flagrante foi de foder. A verdade é que eu nem pensava na possibilidade de ser presa naquela época, eu era uma garota burra que tinha acabado de fazer 18 e queria entrar pro movimento conseguir dinheiro. Fazer o que? Favelado também é gente, passa necessidade e tem que botar o que comer na mesa da família. Eu odiava ver a minha mãe reclamando que não tinha de onde tirar a janta dos meus irmãos, ver os moleques com fome e com a roupa puída. Eu tinha a porra de uma família que tinha que se virar com 300 conto por mês, que era o que a gente arrumava fazendo bico. Minha velha e eu, só nós, pra alimentar mais 4 bocas. Era foda a vida...

Não que tudo fosse ruim, pelo contrário. Pelo menos pra mim a felicidade existia. Ir pra escola, andar com os caras bonitos, gastar no baile, cheirar uma fita e puxar uma fumaça... dançar com os meus amigos... eu era uma adolescente comum, cheia de problemas em casa, mas vivendo como qualquer outro na favela. Eu adorava ser a sensação, entrar em todos os bondes e ser notícia de ask de fofoca. Tive muitas amizades, muitos desafetos também. Era um tempo bom do caralho. Até a hora de brigar na praça era foda... o tempo em que eu era feliz e não sabia. Meus irmãos, de 14,10, 7 e 5 anos, pareciam não se importar com a fome na maior parte do tempo. Eles gostavam de jogar bola na rua e sair fazendo merda por ai, coisa de criança mesmo. A gente dava um jeito de comer na rua, na escola, na casa dos outros, tudo pra não chegar em casa e ver o sufoco da mãe pra arranjar alguma coisa que fosse pra alimentar a gente. Ela sempre procurava garantir uma refeição ao menos, mesmo com dificuldades. Nem que pra isso ela precisasse ir lamber o chão que uma madame pisava. Foi numa dessas que ela acabou arranjando um emprego de doméstica e ficando a semana toda na casa de umazinha na Zona Sul. A velha vinha pra casa aos finais de semana, trazer mantimentos e passar um tempo com a gente. Quem ficou cuidando dos meninos nesse tempo fui eu, que tava terminando meu ensino médio.

E não é porque nós eramos favelados que tinhamos a ver com os bandidos não. Minha mãe era honesta e contra o tráfico, sempre contava uma história de como ela quase tinha morrido na mão de um comédia envolvido. Além disso, tinha perdido o irmão e o pai nessa onda. Ela odiava o movimento, apesar de dissimular bem pra poder conviver na comunidade. Sempre disse pra gente que preferia morrer a ter um filho traficante e que se um de nós fizesse a merda de se associar, era pra esquecermos de quem ela era. A gente entendia isso, ninguém queria decepcionar a coroa que ralava tanto pela gente. Nenhum de nós queria estragar a vida se envolvendo com bagulho errado. Só que o destino é engraçado, né? É bizarro, ele sempre reserva umas surpresas. É caprichoso, gosta de pregar peças na gente... nos botar em contradição, fazer rever os próprios valores.

Eu tinha acabado de fazer 17 e o meu irmão mais velho contraiu Hepatite B e ficou na merda. 15 anos, na onda de comer um monte de garotinha sem camisinha, ficou nessa. A UPA da favela era uma merda, o hospital então... nem se falava. Não tinham médicos, não tinham medicamentos, não tinha era porra nenhuma. Rodei o Rio todo atrás de fazer o exame do garoto, no final, o diagnóstico era de cirrose... a doença já tinha arregaçado o fígado dele, então, ia precisar de tratamento. Ai que tá... tratamento com que dinheiro? Remédio, passagem até o centro, tudo custava grana, que era justamente o que a gente não tinha. O fígado dele se deteriorou rapido naquela condição e, por isso, ele ficou muito fragilizado. No fim, ele acabou sendo acometido pela tuberculose, doença puta comum na minha comunidade. Sem forças pra lutar contra ela, meu moleque mais velho faleceu. A dor de perder ele abalou minha família toda, a mim principalmente. No final, meu irmão tinha morrido porque a gente era fodido de grana, por causa de dinheiro, a gente não tinha conseguido salvar a vida dele. Na noite que eu perdi ele, eu tomei uma decisão: aceitar fazer parte do lance que mais movimentava dinheiro na favela. Nunca mais eu ia ter que chorar por não ter grana pra pagar o que precisava.

É... uma porrada de motivos me fez subir a Rua 1. A pobreza, conflitando com a vontade de dar uma vida digna pros meus irmãos foi a principal delas. Queria dar um tênis legal pra eles, comprar roupa de marca pra mim e não ficar sempre contando os trocados pro pão de cada dia. Era dinheiro que me faltava, era um propósito o que eu queria. Foi quando eu conheci o Caburé, o maluco que se tornaria o dono da favela uns meses mais tarde. Na época gerente-geral, ele tava precisando de alguém pra levar a mercadoria até os clientes dele da Zona Sul e eu, supostamente, era bem apessoada o suficiente pra passar despercebido pelos olhos da lei. Assim, eu comecei a transportar a droga da boca dele. O pagamento era bom pra cacete, 500 paus por semana mais uma comissão por cada "trabalho" que eu fizesse direito. Porra, eu me maravilhei, sabe como é? O mundo era outro quando tu tinha grana pra gastar.

Eu e meus irmãos escondíamos tudo o que comprávamos da minha mãe, quando ela vinha aos finais de semana, e tudo parecia certo. Vivemos felizes por uns meses, até que a porra toda começou a desandar. Meus desafetos na favela viram naquilo uma oportunidade de me foder e foi assim que eu cai na tal emboscada que eu falei no começo. Alguém entregou minha posição pra polícia, que fez uma batida justo na hora em que eu ia fazer a entrega de 3 tijolos de cocaína em Copacabana. Ai tá pronto o circo! Flagrante de 14 e 33, acusação de 35. Cana... peguei 8 anos em regime fechado, mas o advogado conseguiu me colocar no regime aberto na metade do 3° ano em que eu estava em Bangu. Cortesia do Caburé, que pagou uns caras brabos pra resolver minha situação no tribunal.

Agora, eu estava aqui novamente, olhando pro alto da Rocinha e me perguntando se tudo o que eu tinha deixado ainda estava lá. Minha mãe já tinha ido me visitar na cadeia, fora uma única vez pra me dar um recado: era pra um nunca mais procurar a ela ou aos meus irmãos. Por mais que eu tivesse uma família, eles não estavam me esperando de volta com os braços abertos... ao menos não minha família de sangue.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora