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O Russo do meu lado tava com as mãos apertadas forte umas contra as outras e eu sabia que ia escutar um monte quando a gente saisse dali. Passei uma das mãos nas costas dele e fiz um final com a mão pra ele se acalmar e ficar de boa. Se eu demonstrasse medo, ele ia surtar, sabia.

— Vou ficar na atividade. — Barbás falou depois de um tempo, o tom apático, a mandíbula apertada... Acuado. — O que aconteceu com teu segurança?

— Ele abriu no caminho e me contou as coisas que viu lá. Depois arrumou e foi pro lugar onde mandaram. Entregou pra um maluco ali na Avenida Atlântica mermo, não chegou a ir em favela nenhuma, então a gente não sabe pra onde foi, mas só pode se pros caras que tão esquentando as costas dele. Tava na cara que ia falar que aquela porra foi aberta e o M7 veio atrás dele. Eles bateram boca, mas os malucos já chegaram na maldade mesmo. Iam levar ele, mas ele sacou a pistola trocou tiro com os irmão, certo que iam passar ele, quis cair lutando. Meu cunhado que foi intervir rodou também. — Explicou, dando de ombros.

— Que Deus os tenha. — Sussurrei, suspirando.

— Vamo vingar eles, parceiro. Fica tranquilo, essa porra ai não foi em vão não. — Russo falou, estalando os dedos das mãos. — Consola tua família.

— Misael vai pagar pelas merdas que ele tá fazendo. — Barbás falou, um olhar sombrio. — A hora dele vai chegar, enquanto isso a gente vai se protegendo e ganhando aliado. Tu tá ligado que cara do Largo já deu certeza, ele já entrou na nossa onda. O lance é a gente ganhar os malucos do Valão e da Roupa na encolha, o bagulho é ir sondando.

— Eu conheço no cara do Valão. — O Peralta falou. — Vou mandar uma letra pra ele na encolha e ver o que ele acha.

— Na encolha mesmo, hein? — Falou o Parma. — Vamo ficar ligado e se proteger nesse tempo difícil ai, qualquer coisa a gente se fala. O Peralta vai ver essa meta ai pra gente e no final da semana a gente se encontra de novo. — Falou.

Eles ainda ficaram um tempo ali discutindo se era jogo ir pra cima do Misael mesmo com os caras por trás dele. Era foda, porque uma briga interna já era desgastante, levava tempo pra um frente poder exercer o poder dele direito, conquistar a autoridade dele na inteira, unir o pessoal dele... A gente não ia ter esse tempo. Se na melhor das hipóteses conseguissem matar o M7, a chance de invadirem e a gente não poder se defender era enorme. Estavamos pisando em ovos, tinha que ter calma e paciência. O Russo deu a ideia de procurar apoio dos antigos aliados do Caburé, ele tinha uns irmãos da Zona Oeste que fortaleciam com ele. Se pá fosse jogo procurar neles o apoio que precisavam pra segurar o ponto na favela... Mesmo assim, ninguém sabia se ia ser o suficiente.

Na minha cabeça, eu comecei a pensar uma saída. Se eu conseguisse tirar o apoio do PPG deles... Se eu conseguisse... Mas como eu ia fazer isso?

Eles acabaram ali e a gente dispersou, nisso já tinha amanhecido. A massa de trabalhadores da Rocinha já começava a descer pra pista e nós iamos seguindo no fluxo contrário daquelas pessoas. Me despedi do Barbás, que ia direto pra boca, e segui com o Russo pra casa. William tava estranho pra caralho, quase não falou comigo direito, e parecia distraído, por incrível que parecesse. Eu tava preocupada com ele e com meu coração pequeno.

Chegando no quintal da nossa casa, o Russo me deu um abraço apertado pra caralho e eu soube que ele também estava com medo. Eu me escorei no muro, sentindo minhas mãos tremerem de nervoso. Ele ia dar meia volta e subir as escadas do quintal, pra subir pra casa dele. Foi quando, no impulso, eu contei pra ele.

— Russo, meu pai é o dono do PPG. — Falei em um tom baixo. Ele parou na metade do caminho e virou pra mim.

— Que?

— Minha mãe me contou há um tempo. Eu não tenho contato nenhum com ele, mas... — Parei. — E se eu pudesse falar com ele, Russo? Tipo, tipo...

— Calma ai, Nina. O que tu acabou de me falar? Tu é filha do...

— Sou. Biológicamente, é. Na teoria isso me protege do Misael, então tu pode ficar tranquilo. — Contei. — Mas e se eu tentasse conseguir o apoio do PPG pra gente, sei lá... Eu nem sei se isso é possível, mas e se eu tentasse?

Ele negou com a cabeça e com o dedo, num sinal claro de não, e me puxou pra dentro da casa da Dalila, fechando a porta atrás de gente. Ai ele andou em círculos, estalou todos os dedos da mão e digeriu a informação.

— Nina, se tu tiver falar sério, fica na tua e deixa isso em off. Os parceiros estão ficando putos com o que tá acontecendo na favela, a última coisa que tu precisa é ser vista como X9. — Falou. — Não faz nada, deixa a gente resolver a situação do nosso jeito. Tu se meter nisso vai dar merda.

Concordei com a cabeça, notando como ele ainda tava meio zonzo.

— Não faz nada que possam ver do jeito errado. — Falou, sentando do meu lado no sofá e depois levantando de novo. — Caralho, parceiro.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora