Ela trocou olhares com nós todos e negou a cabeça.
— Todo mundo aqui já sabe, dona Cláudia. — Falou de uma vez. — Da Nina, do PPG... Se for por isso, fica de boa que tá todo mundo aqui ciente.
Ela ficou surpresa, a gente pode notar só pelo olho arregalado dela. Engoliu em seco várias vezes e depois respirou fundo.
— Achei isso aqui na cama dela, quando fui lá procurar por alguma coisa que pudesse me dizer onde ela tava. — Dalila passou um pedaço de papel diretamente pras minhas mãos.
"Confiem em mim."
— Caralho. — Minha voz saiu em um tom baixo e eu senti o coração acelerar. Ali eu entendi que ela tinha feito merda, que ela tinha escolhido fazer uma cagada sem nem me falar nada. Eu conhecia a peça, sabia como inconsequente aquela filha da puta podia ser. Amassei a folha sem conseguir me controlar, apertando o papel entre os meus dedos com força. — Que porra ela foi fazer, meu Deus?
— Dona Cláudia? Fala. — Pressionou o Russo.
— Ontem a Nina veio com um papo esquisito, querendo saber do pai. Eu não tinha nada pra dizer pra ela, então achei que ela tinha se conformado e deixado isso de lado. — Verbalizou o que eu desconfiava. Joguei o papel amarrado longe com força, e me virei de costas, andando pra me acalmar. Irmão, eu tava puto. PUTO. Levei as duas mãos ao rosto, xingando ela de todos os jeitos que eu conhecia na minha mente. — Quando ela sumiu, eu desconfiei logo. Apertei os meu outros filhos o mais velho contou que ajudou a pegar meu celular e conseguir as informações sobre o pai dela.
— Meu Deus. Ela só foi lá no PPG no foda-se? Na cara e na coragem? — Indagou o Wallace.
— Eu acho que sim. Liguei pra irmã dele, a Andreia, e ela me confirmou que avisou que ele tinha um encontro no Cantagalo ontem, só que, segundo ela, pela hora ele já não deve mais estar lá. Deve estar voltando pro Fallet ou pra qualquer outra favela dele.
— E a Nina nem notícia. — Completou Dalila, limpando a umidade embaixo dos olhos.
— Então agora ele não tá mais lá e ela sumiu?! — Russo deduziu, levando uma mão à boca.
— Meu Deus no céu. — Murmurei, arranhando minha cara de nervoso. Caralho, podiam ter matado ela, irmão. Podiam estar machucando ela pra cacete agora, podiam estar fazendo maldade com ela, porque era isso que alemão fazia. Como ela pôde sair daqui e ir em território inimigo, caralho? Ela só se entregou de bandeja pra gente que queria ela morta. E achou o quê? Que ia ser fácil chegar no dono da favela? Que ela ia chegar contando uma história e ia ficar tudo certo? Puta que pariu.
Eu queria ter alertado ela que isso era uma inocência do caralho. Eu devia ter imaginado que uma ideia burra dessas ia passar pela cabeça dele... Mas eu não acreditei. Não, mano... Ela não ia ser tão maluca, ela tava pra fazer o primeiro ano no tráfico, mas certeza que já entendia como a banda tocava aqui. Não é possível que ela achou que isso ia dar certo, ela não era idiota, irmão. Eu não conseguia acreditar que era isso o que ela tinha feito de verdade.
Se pá eu só tivesse me negação. Fui um pouco mais pros fundos e fiquei andando ali, de um lado pro outro. Precisava andar pra aplacar a agonia pura e cega que tava começando a me consumir. Tava me sentindo quente até, me deu um calor puto, depois senti frio. Eu era igualzinho um animal de zoológico puto por estar enjaulado. A minha realidade era essa, eu não podia nem sair dali pra ir procurar ela.
— Já liguei pra Andreia de novo e ela vai correr as favelas do Carlos pra ter notícia da Nina. Agora é esperar e rezar. — A mãe dela disse desgostosa. — O celular dela cai direto na caixa postal, tá desligado. — Ela se interrompeu pra respirar, o choro preso na garganta.
— Irmão... — Falei, apertando o nariz com as duas mãos. — Como que ela faz isso com a gente? Logo agora que tá todo mundo fodido e nem pode ir ajudar ela, porra. Sem telefone, sem satisfação nenhum, com umas ideias que só ela bola. Porra! — Meu tom foi aumentando até o ponto de gritar mesmo. — Filha de uma puta. Como ela tem coragem de fazer um bagulho desses comigo?
Sai da frente deles e ouvi o Russo falando pra voltarem pra dar notícia. Ele levou as duas até a porta e eu fiquei ali no canto. Sozinho, eu não consegui controlar o impulso de dar um soco na parede. Não só um, eu descontei toda a raiva que eu tava sentindo no concreto até começar a ver ela ficar manchada de vermelho. Eu senti a dor e a ardência nos nós da mãos, mas me importei muito pouco. Não ao ponto de parar. Eu só parei quando cansei, quando fiquei sem fôlego pra continuar. Gritei, agachado próximo a parede de olhos fechados. Irmão, eu não era lá muito religioso, mas eu só queria que ela ficasse bem. Eu só queria minha mulher de volta, só isso. E por isso, eu rezei pra todos os deuses que eu conhecia.
— Barbás, eu mandei a Dalila trazer uma cachaça pra gente. — Falou, me fazendo levantar a cabeça. Normalmente nenhum de nós dois ia dar um mole de encher a cara com a polícia na nossa cola. Hoje não era um dia comum, porém.
— Ótimo. Se eu não beber e apagar, eu vou ficar maluco aqui dentro. Vou dar um tiro em você, em mim, todo mundo.
Sentei num canto e fiquei quieto, não queria papo com ninguém. Queria ficar ali e tentar alguma conexão com o mundo espiritual que me desse conforto. Ela acreditava em Deus, muito mais que eu, pelo menos. Que ele protegesse ela, pelo menos. Logo ela, irmão...
A angústia foi me tomando de um jeito que eu me senti desesperado. Completamente desnorteado, com um bolo na garganta, com um medo descomunal. Medo por ela, medo pelo meu filho. Se eu perdesse as pessoas que eu amava, eu ia surtar de vez. Eu ia me perder, certeza. Perder a última parte da minha alma que ainda me restava, eles iam levar o meu coração embora com eles. Ia ser um golpe forte demais pra aguentar.
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Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
