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[...]

Russo correu com os aliados deles pra achar uma casa que pudesse abrigar minha família. No final, a gente chegou a noção de que a casa no meio da Cachopa, onde eu estive morando todos esses meses, era a melhor opção. Eu e a Dalila nos mudamos provisóriamente pra casa de cima, que era do Russo (afinal nós três tínhamos muito mais intimidade e tempo de convivência do que algum deles com a minha mãe) e os quatro ficaram com a casa debaixo, que era da Dalila. Era só temporário, mas a gente esperava que eles ficassem bem acomodados depois de toda a bagunça.

Fiz questão de ir fazer as compras do mês pra eles e abastecer a geladeira, depois, deixei todos eles em paz, pra digerirem o que rolou mais cedo. Me refugiei no meu novo quarto compartilhado com a Dalila. Deitei na cama e fiquei ali, enrolada nos lençóis o resto da tarde e da noite. A verdade é que meus pensamentos estavam uma bagunça total e completa. Durante o dia, eu precisava ser forte, aguentar tudo sem reclamar, tolerar todas as preocupações e a pressão de viver sempre no fio da espada. A noite, no silêncio da minha casa, eu podia simplesmente me fechar num casulo e sentir todas as dores que eu me impedi de enxergar até então.

Eu gostava de ser quem eu era, se fazer o que eu fazia. Sabia que eu estava lutando pelo certo, pelo justo. Mesmo assim eu não podia deixar de me sentir um pouco culpada pela situação de todos ali. A preocupação com os meus parceiros, com o Pedrinho, com a minha família e amigos, tava me tirando o sono pra caralho. A verdade é que eu sentia medo também, não só por eles, mas por mim também. Sabia que o nosso castelo de cartas era extremamente frágil e não custava muito pra ele desmoronar em cima da nossa cabeça. Acontece que eu não tava preparada pra ver as pessoas que eu amava e respeitava morrerem do meu lado, não quando eu podia tentar alguma coisa pra ajudar. De alguma forma, isso também me motivava pra porra. Era de onde eu tirava as minhas forças e recarregava minhas baterias pra continuar em frente. A vitória era o única prêmio aceitável. Perder não era uma opção, desistir muito menos.

Pulei da cama, no início da madrugada e desci as escadas pra casa debaixo, batendo na porta. Sabia que lá dentro tinha alguém que provavelmente tava sofrendo de insônia, assim como eu. Não demorou pra minha mãe abrir e eu entrar que nem um furacão na sala.

— Tava me perguntando quanto tempo tu ainda ia demorar pra vir aqui me botar contra a parede. — Falou, trancando a porta de novo.

— Não vou te botar contra a parede, a escolha vai ser tua. — Falei, me jogando no sofá. — Não quero mais brigar, mãe. É que eu sinto que eu tenho uma responsabilidade com o pessoal que tá morrendo lá fora, com os irmão que perderam a vida hoje pra eu conseguir tirar vocês daquela casa. — Disse, indo na geladeira da Dalila e pegando uma garrafa de Amarula que eu tinha comprado antes.

— Tu não é responsável por nada além da sua própria vida, Marina. — Disse, sentando na mesa da cozinha. — Esse jogo de poder não tem nada a ver contigo.

— Ai que tu se engana. Eu escolhi um lado, agora eu tô no jogo e eu sou responsável pelas opções que eu tenho. Se eu não tomar nenhuma, vai ser minha responsabilidade também. — Falei, bebendo um copo da bebida docinha.

— Teu problema com ele é pessoal, eu te conheço, Marina. — Falou, me olhando nos olhos.

— É claro que é pessoal. Ele mata meus companheiros, enche uma criança inocente de tiro, sequestra vocês e finge que eu sou uma barata, uma criança brincando com uma arma.

Ela riu, negando com a cabeça, antes de apoiar a cabeça nas mãos numa expressão derrotada.

— Tu não consegue ver, né? O quanto mais se mexe nisso, mais essa merda fede.

— Mãe, ele segurou você e os meninos, sabe lá o que ele teria feito se o Drei não tivesse me avisado. Como tu pode querer deixar isso quieto agora?

— Eu não quero deixar nada quieto, Nina. Eu quero é tirar meus filhos daqui. — Disse com uma expressão de culpa.

— E eu vou tirar você e os meninos daqui. Amanhã eu vou começar a correr atrás disso...

— Nina, isso inclui você também. — Me interrompeu.

— Eu não posso nem pensar em sair daqui até resolver o problema do Misael. A favela tá partida em duas, não tem condição de eu abandonar o meu pessoal agora. — Falei. — Mas eu juro que vou pensar sobre o assunto quando tudo isso acabar.

— É bom mesmo, Nina. Quando eu era novinha, eu era assim que nem você, apesar de nunca ter me enfiado tanto nisso que nem tu. Olha onde eu tô agora, as coisas que eu tô fazendo meus filhos passarem.

— Então me ajuda a terminar o que a gente começou, mãe. É a porra da nossa responsabilidade sim, não tem que tirar o corpo fora agora não. Eu quero o contato do Carlos e eu quero que tu me consiga uma maneira de falar com ela pra ontem. — Disse, batendo a mão na mesa. Me arrependi uns segundo depois da pequena explosão, já que meus irmãos tavam dormindo no andar de cima.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora