52

3.4K 257 7
                                        


— É isso ai. Ela deixou o menino com essa moça, ela disse que ia ter que ficar uns dias fora e mais um monte lá que eu não prestei a atenção.

— Tá de sacanagem? — Perguntei, meio sem acreditar. Larissa não tinha falado nada pra mim.

— É, po. Ele tava doentinho quando eu saí, então eu dei remédio e tava a caminho de casa quando tu me ligou.

— Que? — Quanto mais ela falava, mais eu entendia exatamente porra nenhuma do que tava rolando. Peguei meu telefone e liguei pra Larica. Nem chamou, devia estar desligado ou fora de área. Fui direto pra minha moto e subi nela, chamando a Nina pela mão.

— Sobe ai, vou te deixar na tua casa. — Mandei, já dando partida. Desci a rua principal e entrei um pouco pra dentro da Cachopa, pra parar em frente à casa do Russo. Ela desceu e agradeceu, entrando pra dentro de casa. O lance entre a gente tava esquisito desde que ela tinha descoberto do Pedro, agora tinha piorado mais ainda com o negócio do M7. A real é que a gente tava sendo desonesto, mas na boa? Eu tenho a porra dos meus motivos pra não abrir minha vida pros outros.

Eu gostava da Nina pra caralho. A trepada era boa pra porra e a gente acabava se entendendo, apesar dos apesares. Ela era linda, era uma pessoa boa, sei lá mano... ela tinha luz. Ela e Shirley eram um puta alívio na dia-a-dia da Barcelos. Mesmo com tudo rolando, elas continuavam felizes como se tivessem acabado de sair de um dia na praia. Era um contraste gigante se fosse comparar comigo, com o TK e até com os seguranças. A gente já tava nessa estrada há um tempo, as coisas que a gente já tinha vivido já tinham apagado qualquer resquício de pureza que ainda sobrasse.

Por isso em preocupou pra caralho quando eu vi a Nina chegando daquele jeito na noite passada. Foi um puta choque pra mim. Tinha dias que ela agia como criança, fazia perguntas bobas pra mim, sorria como se fosse a pessoa mais feliz do mundo... Ver ela coberta de sangue foi foda. E eu sabia bem o que o Caburé quis fazer com aquilo. Se pá ele estava bem atento à inocência dela em relação ao que ela tinha escolhido pra vida dela, foi isso o que ele quis matar dando um choque de realidade nela.

Eu não queria nem pensar como devia ter sido pra ela. Pra mim, quando eu tive 14, tinha sido foda. Matar era uma questão complicada pra caralho. Era um bagulho que levava tua alma embora quando se tornava hábito... a parte foda é que a nossa missão era essa. Traficante tava sempre em guerra, o tempo todo. Contra a polícia, contra os alemão, até contra os próprios irmãos. Todo mundo que pulava de cabeça no movimento precisava entender isso. Se tu pensasse duas vezes antes de puxar o gatilho, era o tua mãe que ia chorar. Era isso o que a Nina precisava colocar na cabeça dela uma vez por todas. Se ela queria sobreviver e viver nesse mundo, ela ia ter que abrir mão dos princípios dela, como eu abri mão dos meus. Fazer o necessário, independente do que for, na hora que é preciso era uma habilidade que poucos tinham, mas era o que garantia a nossa vida no final do dia.

E era uma pena, porque pra mim, a Nina ainda era uma menina e eu gostava dela desse jeito. Só que meninas não viviam pra contar história.

Botei minha moto pra dentro e abri a porta de casa, vendo que ela realmente tinha falado a verdade. Madalena tava com o meu filho na sala, colocando um termômetro no moleque e com uma porrada de remédio em volta.

— Oh, seu Barbás. Não deu nem tempo de fazer o almoço, o menino tá doente. A mãe dele...

— Tô sabendo já. — Cortei ela, indo na direção do sofá onde ele tava deitado. — Fica de boa, precisa fazer comida não. Eu vou meu jeito.

— Vou ficar aqui até mais tarde com ele. — Falou.

— Valeu ai pela força, Lena. A Larissa falou por quanto tempo ela ia ralar?

— Não deu ao certo não.

— Então vou precisar de tu aqui durante a semana, porque eu fico o dia todo fora. — Falei, parando do lado do Pedro, que tava deitado assistindo um desenho na televisão. É, ele tava meio xoxo mesmo. — E ai, moleque?

— Oi, pai. — Ele falou, virando pra falar comigo. Eu abaixei e dei um beijo na cabeça dele.

— Que tanto de remédio é esse aqui? A Larissa deixou? — Perguntei, olhando a bolsa de farmácia com vários tipos de remédios em gotas.

— A moça que tava ai mais cedo pediu pra amiga dela trazer.

— A Nina? Ela comprou isso aqui tudo? — Perguntei, meio sem acreditar. Me deixava de cara as coisas que ela fazia com o dinheiro dela.

— É ela mesmo. — Afirmou e eu neguei com a cabeça. Maluca... Era por causa dessas loucuras que essa mulher mexia comigo.

Subi pra tomar um banho e arrumar um negócio pra comer, aproveitei o tempo sozinho pra pensar. Eu tinha que pensar num plano de livrar a cara das minhas pessoas quando a merda respingasse na gente, se o Caburé não conseguisse segurar a onda. Depois, eu tinha que bolar um plano pra cuidar os próximos dias do Pedro sozinho, sendo que eu não levava jeito nenhum pra crianças.


Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora