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[...]

Eu tava cansada pra cacete, meio puta na mesma medida, mas deixei isso de lado naquela tarde. Levantei, tomei um banho e comi qualquer coisa em casa. A Lila não tava lá, o que significava que ela já devia estar ajudando o Wallace em alguma coisa pro baile. Peguei um moto-táxi até a Rua 1 e desci no escritório do chefe. Se eu falasse que não tava pelo menos nervosa com essa chamada tão de repente, eu ia estar mentindo. Ainda mais que hoje era um dia corrido pra caralho na comunidade, tinha todo o lance do baile.

Bati na porta e entrei com cuidado. Caburé tava sentando todo largado na cadeira dele, fumando um baseado enorme. Os olhos estavam vermelhos e ele tinha olheiras bem claras debaixo dos olhos.

— Me chamou? — Falei baixo, não querendo quebrar o silêncio bizarro que estava a sala.

— Senta ai. — Ele se ajeitou na poltrona, apoiando os cotovelos na mesa. — Tenho um trabalho pra tu.

— Trabalho? Que trabalho? — Perguntei desconfiada, sentando de frente pra mesa dele.

— Trabalho de confiança. — Falou de uma vez, dando uma tragada forte no baseado. — Preciso de gente que fecha comigo pra fazer um bagulho pra mim.

— Tá fechado já. Eu te falei que eu tenho gratidão, Salvador. — O rumo que aquele papo tava levando me dava um frio foda na espinha. Eu podia falar não pra um pedido dele. Não, eu não podia.

— Gosto assim. — Falou, pegando o meu queixo com a ponta dos dedos. — Fiquei sabendo que tu tava treinando com os irmãos ai esses dias. Vai ser bom pra tu tirar a prova das coisas que tu tá aprendendo.

— O que cê quer que eu faça? — Perguntei de uma vez, tentando controlar os sinais de nervoso. — Só falar.

— Eu preciso que tu vá encontrar dois filhos da puta pra mim. Um deles é esse aqui. — Mostrou a foto do facebook do cara pra mim, esse era um cara na casa dos 50, branco, parecia um coroa como qualquer outro. — O nome desse é Siqueira. Esse tu amarra e joga no porta-malas do carro. Trás pra mim, que esse passarinho tem que cantar. Entendeu?

— Pera. Tu quer que eu vá buscar um cara pra tu? Isso é fora da favela?

— Em São Conrado. — Falou de uma vez sem se abalar um centímetro. Eu já não tinha falado que não podia sair do caralho da favela.

— Porra, tu sabe que eu não posso fazer merda fora da favela, Caburé. — Meu tom era de quase pânico, apesar de eu controlar bem o volume da voz. — Eu vou ser presa de novo.

— Só se tu for burra e não conseguir fazer o bagulho direito. Eu não vou aceitar falha nessa porra, hein Nina? — Avisou, com o rosto em uma expressão dura. — Tem que fazer e tem que sair direito, quem vacilar vai rodar.

Eu gelei. Na boa, gelei mesmo. Eu queria falar que não dava pra mim, mas eu não tinha nem moral pra negar. É como ele falou 'tem que fazer... e tem que ser bem feito'. Eu nunca tinha sequestrado ninguém na porra da minha vida e só o pensamento de sair da favela me dava um ataque de pânico do caralho. Puta que pariu.

— Esse aqui é o filho dele, o nome é Iago. — E mostrou outro facebook pra mim. Era um homem novinho dessa vez, devia ser um pouco mais velho que eu só. Um moreno bonito, a barba bem feitinha, tinha cara de playboy. — Esse tu pode passar fogo. — Mandou e eu suspirei pesado, me recostando na cadeira. Passei a mão no rosto, me sentindo perder meu rosto perder toda a cor. MANO? — Desse merda aqui tu me trás só a cabeça. Tem que confirmar que tá morto mesmo. O resto tu dá um jeito de desovar. Tá entendido?

Eu não respondi. Estava de olhos fechados repassando as coisas que ele tinha me dito na cabeça. Tá, então eu tinha que sequestrar um cara, matar o outro e TIRAR A CABEÇA DELE FORA? Eu já me sentia suando frio.

— Ouviu, caralho? — Ele gritou e eu pulei no lugar, confirmando com a cabeça rapidão.

— Eu nunca fiz essas porras, Caburé. Tu sabe.

— Pra tudo tem uma primeira vez, né não? — Ele tava determinado pra caralho e eu tava fodida.

Eu não falei nada, só fiquei olhando pra cara dele, a ficha ainda não tinha caído de verdade.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora