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No início eu nem me liguei... Ele chegou, entrou com a moto pra uma garagem e me mandou descer de lá. Quando abriu a porta da frente e eu vi a sala impecável, fiquei meio em choque. Foi mais ou menos ai que eu me liguei onde eu tava. Barbás foi tirando a camisa e jogando no sofá, jogando o fuzil no bancada de mármore, tirando as armas da cintura (ele tinha mais duas pistolas???) e deixando na mesinha de centro. O comportamento natural dele foi o que confirmou minhas suspeitas.

— Essa é tua casa? — Perguntei, olhando ao redor. Tava até bem limpo, pelo tamanho da bagunça que ele fez quando chegou. Ele concordou com a cabeça, me chamando pela mão pra subir as escadas. Eu fui seguindo sem falar nada. Tinha força nem pra brigar mais.

Ele abriu uma das portas e mostrou uma outra porta lá dentro. Era uma suíte puta grande, devia ser umas 4x o tamanho do meu... e ainda tinha um banheiro. Cruzes, que delicia.

— Ali é um banheiro, vai lá tomar teu banho. — Mandou e eu concordei com a cabeça. Entrei num banheirinho todo bonitinho, todo em branco de porcelanato. Assim que eu fui tirar minha blusa, eu notei que, infelizmente, eu não conseguia tirar aquela porra sozinha. Meu braço travava na metade no caminho e eu não podia mais levantar ele, eu precisaria esticar minha barriga pra isso e já viu... Eu ia ter que passar por mais uma humilhação...

— Barbás? — Chamei uma, duas vezes. Na terceira, ele veio ver o que eu tava gritando. — Me ajuda aqui?

Ele me olhou meio esquisito, meio desconfiado, mas veio colaborar comigo. Eu comecei puxando a barra da blusa até onde eu conseguia.

— Estica o braço. — Mandou e eu obedeci prontamente, ele puxou a blusa por cima da minha cabeça. Ai ele soltou o fecho do meu sutiã e o resto eu jurei que consegui. Ele só concordou com a cabeça e saiu em seguida. Dei uma risadinha contida (pra não ficar sentindo dor de bucha) porque ele parecia meio em choque de estar realmente me ajudando a tirar a roupa pra eu ir tomar banho.

Eu arranquei o sutiã com facilidade, mas pra tirar o short e a calcinha foi uma bosta. Eu fiquei uns 10 minutos até ter coragem pra me inclinar um pouquinho só, pra fazer os dois passarem pela minha coxa. Doeu pra porra, mas eu não quis pedir pro Barbás. Sei lá, aquilo era meio intimo demais.

Entrei debaixo daquele chuveiro maravilhoso que ele tinha e senti como um peso gigante me deixasse. A água quentinha levou toda a sujeira de lama e resquícios de sangue que eu ainda tinha em mim. Passei uma água nos cabelos (ali não tinha shampoo, infelizmente) pra tirar os matos que tinham ficado grudados... Foi ai que eu parei pra dar uma boa olhada na enorme mancha roxa e inchada que eu tinha da metade da barriga até a lateral das costas. Estava bem feio e foi um cu passar o sabonete ali em cima pra dar uma higienizada na área, mas eu engoli o choro e fiz sem nem chorar. Em 20 minutos, eu tinha tomado um banho daqueles. A água morna relaxou todos os meus músculos e eu me sentia prontinha pra um soninho daqueles. Me enrolei numa toalha que estava ali pendurada (sem nem saber se podia) e saí pro quarto.

Passei um tempinho olhando ao redor, vendo como o padrão do banheiro seguia o daquele cômodo também. A cama enorme na minha frente, envolta num monte de edredons que pareciam muito, muito fofinhos fez os meus olhos brilharem. Caminhei até as cortinas pesadas e fechei elas muito rapidinho. Juntei minha roupa suja, dobrei rapidinho e deixei em cima de uma das poltronas dali. Ai... ai eu não resisti àquele colchão de molas e todos aqueles panos parecendo tão quentinhos, putz. Deitei e me enrolei em todos eles, me sentindo tão confortável quanto eu estava no útero da minha mãe. Ai Deus, obrigada pela oportunidade de descansar. Foi quase instantâneo, deitei minha cabeça num travesseiro super fofinho e apaguei direto.


[...]



Eu tava lá na rua do CIEP, esperando meus irmãos saírem. Ia pegar eles e levar pra casa, como eu sempre fazia. O dia estava bonito no começo, mas do nada, um monte de nuvens escuras começaram a nublar tudo. DO NADA, repito, DO NADA começou um tiroteio do caralho na frente da escola e os cara do movimento pularam o muro pra se abrigar lá dentro. Eu fiquei ali em choque, observando tudo, sem poder me mexer direito.

— Ei, Nina! — Ouvi alguém me mexer de dentro dos portões do colégio. Era Douglas, meu irmão mais velho, o que tinha morrido há muitos anos atrás... Ele pressionava o rosto contra a grade e sorria pra mim. Eu quis correr até ele pra abraçá-lo de novo, mas meus pés pareciam grudados no chão. — Eu vou lá buscar o Andrei, o Luan e o Jeanzinho. Tá na hora deles irem comigo.

— Ir? Ir pra onde, Dôdo? — Perguntei inocentemente e ele apontou pro céu, dando as costas pra mim e correndo pra dentro da escola. Nessa hora, um blindado da polícia parou bem do meu lado, descendo uma porrada de homens de lá de dentro. Eles invadiram a escola e o tiroteio começou de novo. De repente, tudo o que eu via era blusas do estadual manchadas de sangue até a gola. Eu coloquei as mãos no ouvido, gritando alto pra não ter que ouvir o barulho das rajadas contra as crianças. Um desespero desolador estava me consumindo de dentro pra fora e parecia que eu ia explodir. Eu precisava chegar nos meus irmãos, mas não conseguia... não conseguia. Eu precisava salvar eles.

Ai o mundo girou... No segundo seguinte, eu estava sentanda em uma cama confortável, num quarto meio escuro e com as mãos nos ouvidos. Na minha frente, estava uma pessoa que eu não esperava encontrar, realmente.

— O que que houve, porra? — Perguntou o Barbás, parado na ponta da cama.

— Que? O que cê tá fazendo aqui? — Rebati, meio desorientada das ideias.

— O que eu tô fazendo no meu quarto, fia?! — Ele parecia meio incrédulo, meio puto. O cabelo tava bagunçado, ele tava com cara de sono.

— Pera, o que? — Os últimos dias passaram como um flashback na minha cabeça e eu meio que entendi como eu tinha ido parar ali.

— Tu tava gritando ai, maluca. Que foi? — Perguntou de novo, passando a mão nos olhos.

— Eu... foi um pesadelo, eu acho. Sei não, as paradas de ontem foram pesadas pra mim, tô meio fora da caixinha ainda.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora