— Sabe porque eu te quero que tu vá? Tu e só tu? — Perguntou, me passando o baseado dele. Não pensei nem duas vezes antes de pegar e dar uma puta tragada. — Tem pouca gente nessa favela aqui que dá pra dar as costas, sem medo de tomar uma facada.
— E tu confia em mim. — Entendi. — E tem certeza que eu não vou trair você.
— É. — Confirmou.
— O que tem essa cara? Pra tu querer matar e o filho? — Perguntei, passando as mãos nos braços.
— Vamo dizer que eles tão no meu caminho. — Respondeu, sem explicar nada. — E que pra me ameaçar tem que ter peito de aço. Vamo ver se ele tem.
Era melhor eu não perguntar mais nada. Eu sabia bem porque ele me queria lá. Eu não sabia de nada, não tinha laços importantes no crime, não tinha a menor possibilidade de eu tirar alguma vantagem de trair ele naquela situação.
— Tu é bonita, com esse rostinho de bebê tu consegue enrolar o homem que tu quiser. Eu me ligo bem em quem são meus inimigos, tenho certeza que eles vão fazer melhor o que tu quer, do que se for um homem no teu lugar.
— Pera. Tu quer que eu vá buscar um cara pra tu? Isso é fora da favela?
— Em São Conrado. — Falou de uma vez sem se abalar um centímetro. Eu já não tinha falado que não podia sair do caralho da favela.
— Porra, tu sabe que eu não posso fazer merda fora da favela, Caburé. — Meu tom era de quase pânico, apesar de eu controlar bem o volume da voz. — Eu vou ser presa de novo.
— Só se tu for burra e não conseguir fazer o bagulho direito. Eu não vou aceitar falha nessa porra, hein Nina? — Avisou, com o rosto em uma expressão dura. — Tem que fazer e tem que sair direito, quem vacilar vai rodar.
Eu gelei. Na boa, gelei mesmo. Eu queria falar que não dava pra mim, mas eu não tinha nem moral pra negar. É como ele falou 'tem que fazer... e tem que ser bem feito'. Eu nunca tinha sequestrado ninguém na porra da minha vida e só o pensamento de sair da favela me dava um ataque de pânico do caralho. Puta que pariu.
— Esse aqui é o filho dele, o nome é Iago. — E mostrou outro facebook pra mim. Era um homem novinho dessa vez, devia ser um pouco mais velho que eu só. Um moreno bonito, a barba bem feitinha, tinha cara de playboy. — Esse tu pode passar fogo. — Mandou e eu suspirei pesado, me recostando na cadeira. Passei a mão no rosto, sentindo-o perder toda a cor. MANO? — Desse merda aqui tu me trás só a cabeça. Tem que confirmar que tá morto mesmo. O resto tu dá um jeito de desovar. Tá entendido?
Eu não respondi. Estava de olhos fechados repassando as coisas que ele tinha me dito na cabeça. Tá, então eu tinha que sequestrar um cara, matar o outro e TIRAR A CABEÇA DELE FORA? Eu já me sentia suando frio.
— Ouviu, caralho? — Ele gritou e eu pulei no lugar, confirmando com a cabeça rapidão.
— Eu nunca fiz essas porras, Caburé. Tu sabe.
— Pra tudo tem uma primeira vez, né não? — Ele tava determinado pra caralho e eu tava fodida.
Eu não falei nada, só fiquei olhando pra cara dele, a ficha ainda não tinha caído de verdade.
— Sabe porque eu te quero que tu vá? Tu e só tu? — Perguntou, me passando o baseado dele. Não pensei nem duas vezes antes de pegar e dar uma puta tragada. — Tem pouca gente nessa favela aqui que dá pra dar as costas, sem medo de tomar uma facada.
— E eu vou sozinha? — Perguntei, me sentindo puta inocente porque ele riu da minha cara. — Não, né?
— Que? Tu acha que eu vou te mandar ir lá com um bilhete único e um 38? Não, porra. Meus seguranças vão contigo. Você e mais três amigo, tá bom pra tu?
Concordei com a cabeça, estalando os dedos da minha mão.
— Então, tranquilo. Daqui há duas horas tu me encontra lá na entrada da favela, a da Vila Verde que é mais tranquila. Fica na encolha que hoje tem baile, vai tá todo mundo rodando por ai. — Mandou, já levantando da cadeira. — Não é pra ninguém ficar sabendo dessa porra não, hein? Tu sabe como é o proceder se tu vacilar.
— Tá, eu já entendi. — Eu segui ele pra fora do escritório, na porta, ele mandou um dos seguranças dele me levar em casa de moto. Fui calada e muda durante todo o caminho, me sentindo muito desgraçada da vida. Porra, eu não sabia nem por onde começar a pensar como caralhos eu ia fazer aquilo. Só sabia de uma coisa: eu tinha que fazer. Tinha. E não podia falhar.
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Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
