Eles começaram a repassar o que tinha acontecido, em como a gente tinha falhado em proteger o CR. Na verdade, a culpa tinha sido toda dele de ter confiado no M7 até o final. Se ele tivesse escutado o Barbás desde o início, talvez ele ia estar aqui hoje. William tinha descoberto e tinha a informação de ouro sobre o Misael, mas não tinha tido tempo de fazer o Salvador escutar ele... No final, tinha sido pelas mãos dele mesmo que o dono do morro tinha caído.
— Nina, tu já tava com o Caburé quando o M7 chegou? — Perguntou o TK.
— Tava com ele desde cedo.
— Por quê? — O Barbás quis saber.
— Sei lá, ele ligou e mandou eu ir pra lá e não deixou eu sair de perto dele depois. — Contei, dando de ombros. — Não sei o porquê. Eu achei que ele queria me proteger quando começou os tiros, mas depois ele ameaçou me matar... Não faz sentido.
— Não faz mermo não. — TK concordou, olhando pro Barbás. — Na hora que ele botou a arma em você, o Misael recuou, mano. Ele se afastou, mas na boa, eu não entendo. M7 tá nem ai pra nada, eu jurei que ele só ia ir pra cima do Caburé e acabar com ele de uma vez. Ele parou por tua causa.
— Eu também achei que ele fosse tocar o caralho pra ele ter te pegado de refém. Até por isso eu dei um jeito de me meter ali sem ele me ver, antes que o Misael fizesse alguma merda. — Contou. — Mas ele não fez, ele parou. Por quê, Nina?
— Não sei. — Respondi num sussurro, passando a mão no rosto.
— Mas tu viu quem tava dentro do carro, né? Tu quase entrou lá dentro. — Insistiu o Barbás. — Quem era?
— Não sei. — Repeti, me sentindo meio mole. William estreitou os olhos pra mim, numa expressão irritada e intimidadora. Olhou diretamente pra mim e eu, de novo, desviei o olhar.
— Fala. — Disse com a voz grave e baixa.
— Eu não sei, caralho. — Disse, batendo a mão no chão. — Tava escuro e eu não tava bem na hora, eu não sei, não sei. — Repeti, passando a mão nos cabelos e bagunçando eles num gesto nervoso. — Não sei.
Ninguém falou mais nada comigo. Tava claro que eu não tava 100% mentalmente. Eu também não quis mais conversar e subi as escadas, correndo pro quarto do Pedro. Deitei na cama com ele devagar e tentei pegar no sono... tentei. Eu cheguei a dormir um pouco, cochilar era a palavra certa, mas minha mente tava muito atormentada. Eu via minha mãe naquele carro, minha mão com uma arma na mãe, minha mãe matando alguém. A minha mãe.
Eu senti medo, senti calafrios e senti o amargo da descrença. Não tinha como ser minha velha naquele carro, logo ela que tinha parado de falar comigo por que eu tinha me envolvido no tráfico. Logo ela que era moralista, que contava a história do pai e do irmão traficante que morreram na frente dela. Ela tinha aversão de gente do corre, aversão de bandido, ela odiava aquilo com toda a força dela. Então como podia ser ela? Envolvida com aquela gente que ela detestava? Não podia... Mas eu vi. Eu tinha certeza do que eu tinha visto, era ela, a voz dela, o cheiro dela. Era ela.
Na milésima vez que eu acordei assustada naquela noite, soando frio, eu rolei da cama e peguei meu celular. Eram 4h da manhã, alta madrugada... Um desespero bizarro estava brotando no meu peito e correndo por mim como veneno, era como se uma dose líquida de agonia fosse injetada na minha veia e aquilo tivesse me consumindo por dentro. Eu chegava a sentir falta de ar de estar ali. Sai do quarto do menino e fiquei no corredor, com o meu celular na mão. As lágrimas começaram a descer silenciosas pela minha bochecha em quantidades enormes. Solucei e abri o whatsapp, indo no número da minha mãe direto e mandando uma mensagem pra ela: 'Eu tô indo ai em casa agora. Eu preciso falar com você e preciso agora, mãe.'
Tentei discar o número dela, mas ela simplesmente não estava atendendo minhas ligações, como sempre desde quando eu tinha saido da cadeia. Ela não deixava nem chamar, só recusava.
— Ela não quer falar comigo, mas eu vou mesmo assim. — Sussurrei em uma determinação cega pela agonia. Tinha alguma coisa errada comigo. Tinha e eu queria saber. Nem que fosse só pra saber que eu estava ficando doida e precisando de internação.
Desci as escadas nas pontas do pés e verifiquei o pessoal na sala. Quase todo mundo tava dormindo e quem não tava, tava muito quase. Eu passei discretamente e peguei o molho de chaves que o Barbás tinha jogado em cima do bar e fui pra cozinha. Acho que ninguém tinha prestado a atenção em mim, por isso, eu fui direto pra porta de trás e comecei a testar todas as chaves no escuro mesmo. Eu ia sair de qualquer jeito e eu ia atrás da minha mãe, ela ia ter que olhar na minha cara e dizer que não era ela, ou eu não sairia da porta da casa dela.
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Amor na Guerra
Romanceㅤㅤ ㅤ"Geral quer ser rei, conspiram pro tempo que não espera. Impérios caem com novos reis, os tempos passam a ser de guerra." MC Marechal ㅤㅤ ㅤO sonho do moleque é ser chefe, o do vapor, do gerente e do segurança também é. O sonho do chefe é sobreviv...
