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— Eu não tô maluca, você sabe que eu não tô maluca. — A verdade é que a segurança que eu tava tentando passar não existia em mim, mas eu não podia mostrar aquilo, caso contrário, ela ia me convencer de que eu tava realmente alucinando. Talvez eu tivesse, mas eu não daria meu braço a torcer. Se ela tava mesmo naquele carro, eu ia tentar fazer ela confessar. — Você matou um homem, mãe. — Lembrei ela. Ela se calou e estreitou os olhos pra mim, dava pra ver na cara dela que ela estava nervosa. — Foi você quem deu aquele tiro nele. Eu vi, todo mundo viu e se você continuar mentindo, eu vou gritar pra todo mundo nessa rua aqui ouvir quem você é de verdade. — Ameaçei, batendo a mão contra o muro de pedrinhas, arranhando minha palma no processo. Eu tava completamente descontrolada, fazendo um escândalo e não ia parar até conseguir o que eu queria.

— Marina, vai embora.

— FALA COMIGO! — Gritei de novo. — Fala pros teus filhos a bandida que tu é, porra.

— Você tá podendo falar o que de mim? — Rebateu, apontando o dedo na minha cara. — Quanto por ai tu já não deu tiro? Quantos tu já não matou? Só essa noite ai, quantos tu não matou com o fuzilzinho que tu gosta de andar pra cima e pra baixo? — Falou com desprezo transbordando do olhar. Eu paralisei.

— Então tu tava lá. Tu realmente atirou no Caburé. — Falei, sabendo que aquela era um confissão indireta. Ela me atacou de volta, porque o que eu tava falando era verdade. Além disso, ela não devia nem saber que eu voltei até algumas semanas atrás, eu não tinha nem visto e nem esbarrado com a dona Cláudia por ai... mas ela tinha visto a minha arma. — Eu não posso falar nada de tu não, mas tu tava lá. Tu tava na porra do carro. — Meu tom era bem mais baixo agora e os olhos estavam arregalados.

Ela não falou nada, mas colocou a mão na cabeça e se virou, apoiando-se no portão como se tivesse com falta de ar. Tinha notado que tinha deixado passar aquela informação? Que ela não tinha negado que tinha estado lá?

— Mãe, o que você tava fazendo lá? — Meu humor e disposição pra fazer escândalo minguou no mesmo instante e eu comecei a chorar. — Eu pensei que...

— Eu te falei tantas vezes, Marina. Tantas vezes eu falei pra você ficar longe dessa gente, ficar longe dessa merda de vida, que isso não era futuro pra ninguém... Quantas vezes eu já não falei isso pra você, Nina? Pelo amor de Deus. — Era ela quem falava alto agora.

— Muitas vezes. — Sussurrei.

— Muita vezes e entrou por uma orelha, saiu pela outra. — Acusou, vindo na minha direção e agarrando os meus ombros. — E eu falei tantas vezes porque eu sabia onde estava pisando. Agora olha onde tu botou a gente com a tua teimosia, menina.

— Botei onde? O que que eu fiz? — Perguntei. — O que tu tava fazendo com o Misael, mãe? Tu sabe quem aquele homem é?

Ela me largou e se afastou, passando a mão na testa soada.

— Mãe, responde. — Falei alto de novo. — O que foi que você fez? O que eu tenho a ver com isso? — A chuva agora caia em pingos grossos, molhando nós duas.

— Você não sabe de nada, Nina. — Ela falou, passando a mão nos olhos agora. Ela tava chorando também... — Nada. E isso é culpa minha. — E negou com a cabeça. Eu fui até ela e envolvi os meus braços na cintura dela.

Eu não sabia o que eu tava fazendo, mas eu queria abraçar ela de novo. Eu queria o colo da minha mãe, a segurança de voltar pra casa todos os dias e ver ela lutando por mim. Eu tava confusa e com medo das coisas que ela tava falando pra mim. Eu tinha medo das coisas que eu não sabia, mas que tinha levado a minha mãe a se envolver com um bagulho perigoso.

— Me explica. — Pedi, ela passou a mão no meu cabelo molhado em um carinho muito breve. O rosto dela era uma careta de sofrimento, as lágrimas dela estavam ali também. — Mãe, pelo amor de Deus. O que você tava fazendo lá?

— Eu tava protegendo, criança idiota. — Ela falou, a expressão ficando dura novamente. Ela me afastou de novo. — Você tá pisando num campo minado e não sabe. O Salvador não é teu amiguinho não, ele não é o bonzinho que vem te socorrer quando tu precisa de dinheiro.

— A única coisa que ele fez foi me dar um trampo quando eu pedi pra ele.

— O que ele fez foi usar você. — Rebateu, me cortando na fala. — Te deu um trabalho que pagava bem. Pagou advogado pra te tirar da cadeia quando tu foi presa. Dois meses e tu já tá com aquele treco horroroso pendurado nas costas. Por quê? Só porque ele ia com a tua cara? Tu é muito inocente mesmo, Nina. Ninguém dá nada de mão beijada pra gente nessa vida não. — Falou, vindo pra cima de mim como se quisesse me bater.

— Não foi assim...

— Foi assim sim. Ele não te comeu, ele não te devia nada. Por que ele te favorecia tanto, porra? Eu sei que queriam te tirar a porra da boca onde ele te colocou, ele não deixou.

Fiquei calada, olhando ela assustada. Como ela sabia tanto da minha vida? Eu pensava que ela nem sabia que eu tava de volta... nem meus irmãos sabiam que ela sabia de mim. Ela se encontrava com o Caburé? Depois com o M7? Quantos segredos mais essa mulher tinha e eu não sabia?

— Fala pra mim quantas das parcelas da tal dívida com o Salvador que ele foi até você te cobrar? — Perguntou.

— Nenhuma. — Confessei, engolindo em seco. — Eu paguei uma só, depois eu deixei pra lá e ele nunca mais falou nada.

Então ele me favorecia... por quê? O que eu tinha de especial? Eu nunca tinha parado pra me tocar, nem pra me perguntar o motivo daquilo. Talvez eu fosse inocente mesmo.

— Me usava como?

— Ele te tinha na palma da mão dele.

— E dai?

— E dai?! — Ela perguntou indignada, depois parou e negou com a cabeça. Nessa momento, a gente ouviu o ronco de motos no ínicio da viela e soubemos que tinha gente vindo até nós. — Não fala isso pra ninguém, Nina. Me ouve pelo menos uma vez na sua vida e fica de bico calado sobre o que aconteceu.

— Eu quero uma explicação. — Insisti, secando as lágrimas. — De como a minha mãe moralista ficou tão bandida quanto eu sou.

— Cala a sua boca, Marina. — E veio pra cima de mim, colocando a mão na minha boca. — Cala a porra da boca. Eu vou te explicar tudo, mas depois. Isso não é conversa pra se ter no portão. — E me largou, me empurrando pra longe. Ela já estava completamente composta, deixando a fragilidade de lado. Eu continuei na chuva, enquanto ela foi pra perto do seu portão.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora