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Todo mundo ficou em silêncio, olhando pra ele por um tempo. Meio paralisados pela surpresa da visita. Coisa boa não podia ser...

— Bora, parceiro. É pra hoje. — Apressou. Tulio subiu meio contrariado e me deu um olhar de raiva antes sair do meu campo de visão. Misael veio na minha direção e riu, levantando meu rosto com a mão.

— Quem diria, hein princesinha? Que tu ia me prestar pra alguma coisa. — Falou, aproximando o rosto de mim. — Até que tu não é tão inútil quanto eu achei, po. Tua mamãezinha contou, né? Fiquei sabendo.

Não falei nada, nem me afastei. Eu não ia ser fraca na frente dele, foda-se. Se ele achava que eu ia me esconder dentro do cômodo de trás, ele tava errado.

— Tu tem sorte. Se eu tivesse chegado até aqui de qualquer outro jeito, eu ia te botar uma pressão fodida. Ou tu ia virar um soldado decente, ou ia morrer tentando, essa favela tá assim porque qualquer um ganha consideração aqui dentro, tá ligada? — Falou pra mim baixinho, como quem contava um segredo. — Como eu não posso, tu pode continuar ai brincando com teu fuzil.

Eu fervi. Odiava ser subestimada e o que ele tinha dito pra mim, nem minha mãe tinha falado e olha que ela era minha maior crítica. Aquele bosta me odiava desde o primeiro dia e eu retribuía o sentimento na mesma intensidade. Apertei minhas mãos em punho, mentalizando que o mundo girava rádio. Ele ainda ia ver quem era eu, quando esse dia chegasse, ele tava fodido.

— Marina, sobe. — Mandou, Barbás, descendo as escadas com o TK atrás. — Vai, bora. E tu pode ir pra casa, Shirley. Eu fecho isso aqui com o TK depois.

Shirley se despediu rápido da gente, enquanto eu passei por baixo do braço do Misael pra subir pro 2° andar. Barbás apertou a mão do Misael e dos seguranças dele e fechou a porta. Eu fui direto pra sala dele e nem tive a oportunidade de escutar nada, porque eles só começaram a falar quando ouviram eu bater a minha porta. Eu fiquei ali me sentindo agoniada, angustiada com o que ele tinha vindo fazer ali. Sentei na cadeira dele e fiquei ali, sentindo o nervosismo me engolir.

Passaram minutos e minutos, eu não sabia ao certo, mas parecia uma eternidade e eu ia enlouquecendo ali dentro. Rodei e rodei na cadeira dele, em algum momento, eu usei o casaco dele pra me cobrir e fechei os olhos, tentando mentalizar qualquer coisa que me distraísse... Um tempo depois ele voltou, batendo a porta com raiva atrás dele, parecendo 10x mais inquieto. Eu levantei e fui na direção dele, colocando as mãos na lateral da barriga dele, como eu sempre fazia. Pra minha surpresa, ele agarrou os meus pulsos e olhou dentro da minha cara, os olhos agitados se prendendo nos meus.

— Me explica essa letra que aquele filho da puta acabou de mandar pra mim ali agora.

— O que que aquele corno falou? Ele já foi? — Perguntei, estranhando o comportamento dele.

— Já foi já. — O tom agressivo dele me ligou o tom de alerta na hora e eu suspirei, já me preparando pra merda. Se o Misael tivesse me tirado a chance de contar pra ele eu mesma, eu ia comer o cu dele de qualquer jeito.

— O que que foi, Will? Fala de uma vez, porra. — Mandei, soltando meus pulsos das mãos dele e me afastando alguns centímetros. Eu já tava começando a ficar nervoso. — O que ele falou pra você?

— Tu tá me escondendo alguma coisa? — Perguntou, se virando pra mim na mesma hora.

— Por que eu estaria? — Rebati com uma pergunta.

— Por que tu tá nervosa então? — Insistiu com um tom bruto, ele nunca tinha falado comigo daquele jeito. — Tá devendo, porra?

— Não é nada nisso, cara. — Respondi por cima dele, já sentindo aquilo virar um discussão. — E para de falar assim comigo. O que ele falou pra tu pra te deixar assim comigo?

— Tu é engraçada, Marina. Bota tanta marra, fica sem falar comigo porque eu não falei do meu filho, mas da porra da tua vida tu não me fala nada. Que porra é essa? — Ele passou por mim esbarrando em mim e indo direto pro armário dele, abrindo todas as gavetas com raiva e pegando um Black Label. Ele virou num copo de shot e tomou sem gelo mesmo.

— Não tem nada de mim que tu não sabe. — Falei na impulso, sabendo que aquilo não era mais verdade há meses. — Ou quase tudo. — Bufei. — Eu não esquento de responder nada do que tu me perguntar, porra. Agora dá pra tu falar o que ele disse?

— Tu tem um pai forte no tráfico e não me contou por quê? — Perguntou e eu gelei momentâneamente.

— Foi só isso que ele falou? — O alívio me percorreu rápido. Então eu ainda ia poder explicar as coisas do meu jeito.

— Tem mais alguma coisa? — Rebateu.

Amor na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora